Ericson Straub

É impossível negar as facilidades que a era digital trouxe ao design gráfico. No entanto, quando voltamos nossos olhos sedentos de referências para a formulação de novos conceitos estéticos no design gráfico, percebemos que as infinitas possibilidades de manipulação de imagens geraram um legado tão sedutor quanto incômodo. Sedutor por causa das inúmeras possibilidades que as ferramentas digitais oferecem. Incômodo por causa da animosidade provocada por este novo caminho entre os próprios designers.

A evolução digital da fotografia, sem dúvida nenhuma, alterou significativamente a estética na criação gráfica. A era digital tornou possível utilizar imagens fotográficas com mais freqüência, sejam elas originadas de produções especialmente contratadas ou obtidas junto a bancos de imagens disponíveis via internet e em CDs. Porém, durante décadas o artista gráfico teve a ilustração como alicerce de seu trabalho, fosse em anúncios ou rótulos, capas de livros ou de revistas, pôsteres ou qualquer outro produto gráfico. À medida que as tecnologias gráficas avançavam, os ilustradores também aprimoravam suas técnicas.

Nos Estados Unidos – onde a publicidade iniciou seu processo evolutivo por volta dos anos de 1930 – ilustradores como Norman Rockwell retrataram o universo norte-americano de forma realista em diversas peças gráficas. No Brasil, mesmo com atrasos consideráveis em tecnologia gráfica, os ilustradores descobriram uma forma interessante de reprodução, especialmente na litogravura. Com a chegada dos anos de 1950, acompanhados pelo avanço tecnológico brasileiro, o mercado passou a exigir mais qualidade e realismo nos layouts eram apresentados pelas agências de propaganda que, por sua vez, também se espelhavam na qualidade dos trabalhos norte-americanos.

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Este foi o período em que os ilustradores começaram a ter importância no cenário publicitário brasileiro. Além de trabalhar nos anúncios, também passaram a atuar na ilustração de vitrines e nas lojas de departamentos que iniciavam suas atividades, criavam cenários para as emissoras de TV que começavam a surgir, elaboravam cartazes cinematográficos e desenhavam histórias em quadrinhos. Foi exatamente naquele período que, em Curitiba, Nilson Müeller começou a desenvolver seu trabalho ainda durante a adolescência. Como toda criança, adorava desenhar. Mas o que chamava a atenção era a fascinação do jovem Nilson pelos quadrinhos. Aos 15 anos, enquanto fazia estágio numa agência de publicidade, teve contato com ilustradores, muitos deles vindos da Europa.

No meio publicitário, Nilson Mueller aprendeu como se fazia um layout, começando pelo desenho preciso das letras. Esta tarefa era realizada de forma manual, especialmente nos títulos das peças gráficas. Além de atuar em agências de publicidade, ele também trabalhou em lojas de departamentos na criação e execução de anúncios, vitrines e cartazes, recursos muito utilizados na promoção de produtos ou na decoração das lojas. Como a fotografia era muito pouco utilizada, a ilustração era um fator fundamental na divulgação dos produtos. Nas lojas Hermes Macedo, aprendeu a ter disciplina em seu trabalho, fator que ainda hoje considera fundamental para um ilustrador.

Nilson conta que, desde cedo, viu nos livros um importante suporte para o desenvolvimento de seu trabalho. Por isso, apesar dos preços elevados, tinha o habito de comprar livros. No ano de 1961, passou a trabalhar em emissoras de TV, criando e ilustrando cenários para programas. Depois de um tempo, decidiu abandonar a TV e dedicar-se às histórias em quadrinhos, seu sonho desde criança. Paralelamente, como forma de manter seu sustento, começou a prestar serviços como free-lance para as mais importantes agências de publicidade de Curitiba. Entre as diversas agências, atuou na Equipe Propaganda, de Norberto Castilho, onde insistia na utilização das ilustrações, prática que começava a ser substituída, aos poucos, pelas fotografias.

Apesar de desenvolver um trabalho gratificante e reconhecido na área publicitária, a vontade de fazer quadrinhos profissionalmente continuava a ser o seu grande desejo. No final dos anos de 1980, esse desejo tornou-se ainda maior quando viajou aos Estados Unidos e visitou o Art Directors Club de Nova Iorque. Lá, por intermédio de Miran que conhecia um dos diretores do clube, teve contato com ilustradores e conheceu diversos trabalhos realizados por importantes profissionais da ilustração. Ainda naquele período, assim que retornou a Curitiba Nilson Müeller conheceu Maurício de Souza.

O criador da Turma da Mônica ficou tão encantado com o trabalho de Nilson que o indicou a Joe Kubert, um executivo da Marvel Comics nos Estados Unidos. Essa indicação possibilitou um encontro entre os dois. O trabalho do brasileiro foi muito bem aceito pela Marvel e logo começaram algumas negociações com personagens que seriam criados por Nilson Müeller. Infelizmente, mudanças do direcionamento dos negócios da empresa norte-americana impediram a concretização da parceria. Mais uma vez, o sonho de Nilson Müeller teve de esperar. Ainda hoje, ele continua criando e desenhando seus personagens, aguardando uma oportunidade de publicação. Ele aposta em quadrinhos que tenham uma identidade brasileira, diferente da tendência norte-americana voltada para os super-heróis ou do modelo japonês no qual predomina o hiper realismo.

De qualquer forma, independente da publicação ou não de seus venerados quadrinhos, Nilson Müeller já inscreveu seu nome na história das artes gráficas do Brasil. A ilustração manual, que ele tanto defendeu e executou com maestria, conferiu uma aura romântica às artes gráficas, fosse a bico-de-pena ou em grossas pinceladas de guache. O talento e a beleza das peças era tamanho que ficava difícil definir o limiar entre as artes plásticas e as artes gráficas: layouts que mais pareciam obras-de-arte, tipos desenhados com tamanha fidelidade e cuidado que denunciavam a finalidade das peças.

Sem dúvida, não se pode querer voltar atrás. Afinal, vivemos em um mundo veloz e a tecnologia é o combustível que move a nossa era. Este artigo não sugere uma volta ao passado, mas tem o objetivo de jogar luz no caminho que desenvolvemos hoje e que nos levará a desenhar o futuro. Ao resgatar o trabalho e o incontestável valor de um profissional cada vez mais raro no mercado, que atuou de acordo com um modelo praticamente extinto, o que se pretende é lembrar que a tecnologia jamais irá substituir o talento. Assim como Nilson Müeller, milhares de profissionais em todo o Brasil deixaram suas marcas. São trabalhos extraordinários que nos alertam para a busca do equilíbrio entre a tecnologia de ponta e o mais puro exercício do talento, construindo as artes gráficas de maneira autêntica e genuína, com um olho na história e o outro na inovação.

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