por Cinthia Pascueto, para a edição 54 da Revista abcDesign impressa

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Quem não é familiarizado com a Sapucaí muito provavelmente só ouviu falar dele em 2004, por causa de um carro alegórico que revolucionou o Carnaval carioca: Paulo Barros estreou no Grupo Especial fazendo história na Unidos da Tijuca através do carro “DNA”, uma estrutura cônica que só se completava com a coreografia precisa dos 127 bailarinos. Na época, os carros ainda eram movidos por empurradores, que se recusavam a levar para a concentração uma “coisa feia daquelas”.

Até então, apenas o carnavalesco e os coreógrafos vislumbravam o resultado. Finalmente, a mágica começou a acontecer, com os componentes subindo e se posicionando na estrutura piramidal para a entrada no Sambódromo, com os corpos pintados de azul. A comoção e o deslumbre da arquibancada popular, de frente para a concentração, contagiou toda a escola. O enredo de estreia na primeira divisão do Carnaval rendeu o vice-campeonato a Barros e tornou-se quase uma profecia sobre sua trajetória futura: “O sonho da criação e a criação do sonho: A arte da ciência no tempo do impossível” mostrou para o Brasil que inovação e criatividade poderiam superar a imaginação na Avenida. E nenhum sonho parecia impossível para o rapaz de Nilópolis.

O primeiro contato de Paulo Roberto Barros Braga, taurino de 53 anos, com o Carnaval foi ainda na infância, na década de 1970, assistindo aos desfiles na televisão. Já adolescente, começou a frequentar a Beija-Flor, escola de samba de sua cidade natal, na Baixada Fluminense. “Foi minha primeira oportunidade de desfilar, de participar de uma escola. Dentro do barracão não exercia função alguma, mas fui observando, aprendendo”, conta o carnavalesco. No início da década de 1980, Barros começou a cursar Arquitetura na Universidade Gama Filho – “não é muito diferente do Carnaval; a gente trata de design, de desenho, de forma”, ele compara. No entanto, em 1984 trancou a matrícula para ingressar na Varig como comissário de bordo, onde ficou até 1996. “O trabalho passou a interferir na frequência às aulas. Mas nunca deixei de acompanhar e fazer Carnaval”, enfatiza.

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Em 1993, ele foi convidado para ser figurinista da Escola de Samba Vizinha Faladeira, considerada a primeira do Rio, criada no bairro carioca de Santo Cristo. Em 1994, assumiu pela primeira vez o posto de carnavalesco, com o tema “Sou rei – Sou rainha – Na corte da vizinha”, sobre a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. Levou o vice-campeonato do Grupo B. “Quando você ingressa numa escola pequena que não tem recurso, aprende a exercitar sua criatividade porque tem muita limitação. Eu considero os anos que passei no Grupo de Acesso a grande faculdade da minha vida no aprendizado do Carnaval. É ali que você aprende a se virar, a tirar da cabeça o que não tem no bolso”, pondera Barros, tricampeão pela Unidos da Tijuca em 2010, 2012 e 2014.

Muita pesquisa, ótimas ideias

Desde sua estreia no Grupo Especial, a expectativa do público quanto às inovações que Paulo Barros traz para a Avenida só aumenta. Destacam-se ícones como o “Homem de Lata” (enredo “Entrou por um lado, saiu pelo outro… Quem quiser que invente outro!”, de 2005, sobre a imaginação), carro que representava o personagem do livro “O mágico de Oz”, construído com 12 mil panelas que, posteriormente, foram doadas para a comunidade; o “Tubarão”, inspirado no filme de Steven Spielberg, “devorando” o banhista em uma piscina de 15 mil litros, em cima do carro alegórico (“Esta noite levarei sua alma”, de 2011, sobre o terror no cinema); 14 fantasmas “perdendo a cabeça” (também em 2011) e o troca-troca de figurinos num passe de mágica (“É segredo!”, de 2010, sobre os mistérios da humanidade), ambos na comissão de frente.

Estreando à frente da Portela, Barros trouxe para o Carnaval deste ano o enredo “No voo da águia, uma viagem sem fim…”, sobre as grandes expedições humanas – desde a Antiguidade, com a Odisseia de Homero e a história bíblica de Moisés, passando pelas Grandes Navegações, até chegar às viagens virtuais e da imaginação: nas páginas de livros, no espaço, no passado e no futuro. Para isso, o carnavalesco levou para o Sambódromo novidades como um Poseidon na comissão de frente, que se erguia sobre as águas contra Ulisses usando um flyboard camuflado; uma caravela enfrentando o mar revolto, balançando como um pêndulo sobre o carro alegórico, 40° para cada lateral, prestes a sucumbir às ondas representadas por integrantes da escola; e um gigante Gulliver, com 15 metros de altura, inspirado na versão cinematográfica mais recente do romance de Jonathan Swift, que se erguia do sono por meio de um sistema hidráulico, deixando os “pequenos soldados” pendurados.

 

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Segundo Barros, as histórias contadas nas alas e carros alegóricos são definidas a partir da determinação do enredo, que pode partir tanto da própria escola, como no caso de um tema patrocinado, quanto do carnavalesco. Neste último caso, o que impulsiona a aposta são as possibilidades de transformar essas narrativas em imagem. Ele explica que a concepção dessas alegorias é fruto de muita pesquisa, mas que o processo de criação passa sempre pelo olhar do outro: “Você precisa focar no espectador. Não faço Carnaval baseado só no que eu gosto, faço pensando no que os outros vão ver. Como se eu estivesse ao lado da pessoa, apontando: eu quero que você olhe ali”. É o caso da alegoria apresentada neste ano, chamada “O elo perdido”, com 12 “arqueólogas” de cada lado, engolidas por dinossauros – a brincadeira acontece nas laterais do carro, voltadas para o público da Sapucaí.

As criações de Paulo Barros, sempre desenhadas à mão e finalizadas por um assistente, são inspiradas nas mais diferentes fontes, como o cinema, a literatura, a música e até mesmo o cotidiano. A ideia de criar o “Homem de Lata” com utensílios de cozinha, por exemplo, veio de um acidente que o carnavalesco presenciou, espalhando dezenas de panelas na pista. Até o tema “É segredo!”, que lhe garantiu o primeiro título, foi sugerido na época por um adolescente de 15 anos, através do Orkut. Em sua profissão, a atenção às boas sacadas pode ser o diferencial. “A minha inspiração é o dia a dia, o que eu vejo, por onde eu ando. Sou movido pelo meu trabalho, pela minha força. Criar é viver, respirar; é o grande combustível da minha vida”, orgulha-se.

Ritmo fabril

Escolhido o enredo e definidas as histórias que serão levadas para a Avenida, é montada uma sinopse com todas essas informações, que servirá como guia para os compositores construírem o samba – que passa por um processo de seleção até definir qual será o oficial. Enquanto isso, tem início a fase de produção, com a confecção de uma peça piloto de cada figurino e a montagem da base dos carros alegóricos, a partir das ferragens e das madeiras. Em paralelo, são construídas as esculturas de isopor e fibra. “A composição é feita nos setores de ferragem, madeira, pintura e adereços, que desenvolvem o trabalho a partir do momento que passo a municiá-los com as informações”, explica Barros. “Antigamente, a produção começava apenas dois ou três meses antes. Hoje leva praticamente 11 meses, pois as escolas de samba têm a estrutura de uma empresa e, como tal, uma gestão profissional para que tudo seja viável e concluído a tempo”, compara.

Os carros alegóricos são construídos a partir de um chassi de caminhão ou ônibus, que tem a suspensão adaptada para aguentar o peso do que for montado em cima. Depois, a estrutura pode ser alargada pelos ferreiros em até 50%, recebendo na sequência o primeiro acabamento em madeira, que começa a dar forma ao carro, para acolher as alegorias e efeitos especiais.

 

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É aqui que começa a ganhar forma o playground de Paulo Barros: “Eu crio carros que fogem do que foi estabelecido dentro da própria estética do Carnaval. Procuro levar para a Avenida um design diferenciado, que é uma das minhas ferramentas mais fortes”. O carro “DNA”, mais uma vez, é o representante dessa estética, em que a mágica só acontece com a interação humana. “Nada é feito à revelia: todo esse trabalho é técnico, executado a partir de um estudo de arquitetura e engenharia, com parâmetros que devem ser respeitados como medidas, peso e confecção”, detalha o carnavalesco. O processo de adereço vem na sequência, enfeitando tudo que já está pronto na base.

A finalização das alegorias acontece já perto do Carnaval, mas para Barros a tarefa só termina quando entra o último carro na Sapucaí. “Eu não acompanho o desfile, fico na coxia, colocando cada ala, cada carro na Avenida. Quando o trabalho é apresentado exatamente como a gente planejou, é uma sensação de plenitude, de dever cumprido”, comemora o carnavalesco. “Agora é descansar um pouco que daqui a um mês começa tudo de novo.”

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