Depois dos anos 60, a música e o design estreitaram seus laços. Esta aproximação fortaleceu tanto a imagem dos artistas , quanto o segmento comercial, que também começou a usufruir dessa proximidade entre as artes. Algumas capas de discos , como de Andy Warhol para os Rolling Stones , Storm Thorgerson para o Pink Floyde de Peter Saville para o Joy Division e New Order, fazem parte da história da música , pois transcendem a criação gráfica . São quase tão ícones quanto os próprios artistas .

Esse vínculo entre música e design se intensificou a partir dos anos 60 com o crescimento dos movimentos sociais. O design era uma importante ferramenta para expressar as mesmas ideias de paz, amor e liberdade que estavam contidas nas músicas, shows, roupas e experiências com drogas.

Sendo utilizado como meio comercial, o design gráfico começou a exercer um papel fundamental, principalmente porque a indústria cultural buscava se apropriar desses importantes ícones dos movimentos sociais, e os devolver digeridos na forma de produtos gráficos, decoração, roupas e acessórios. Neste cenário, capas de discos, pôsteres e as roupas utilizadas eram tão importantes quanto a mensagem das músicas, já que criavam uma imagem que era lembrada e associada ao discurso.

Nos anos 70, a indústria fonográfica, que havia sido alavancada pelos movimentos da década anterior, já movimentava direta e indiretamente muitos negócios. A rebeldia colorida e ingênua dos anos 60 havia sido substituída pela melancolia e agressividade do movimento punk, que, depois de ser influenciado pela moda, se tornaria também produto de consumo.

Neste cenário, começaram a surgir também gravadoras independentes, que tinham no design das capas dos álbuns uma de suas poucas formas de divulgação, visto que a verba para anúncios e campanhas publicitárias costumava ser bastante limitada nesse meio.

No final do anos 70, foi criada por Tony Wilson a Factory Records, na cidade de Manchester, Inglaterra. Alguns anos antes, Wilson havia aberto a casa noturna “La Hacienda”, que colocou a cidade inglesa no circuito “cult” da época. Com essa gravadora, foi possível dar visibilidade ao trabalho de diversas bandas locais, como o Joy Division, que ficou conhecido por mesclar os acordes e o vocal do punk com batidas eletrônicas. Mais tarde, após a morte do vocalista Ian Curtis, seria rebatizado de New Order.

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Joy Division, Unknown Pleasure, 1979

O trabalho de design gráfico desenvolvido para os álbuns do Joy Division e do New Order foram fundamentais para construir a imagem dessas bandas como grandes representantes dos anos 80. Peter Saville, que na Factory Records também era sócio de Wilson e Alan Erasmus, foi o designer responsável pela concepção visual da gravadora. As imagens dos discos do Joy Division e New Order foram tão significativas para a época que fizeram bandas como Pulp, Suede, Roxy Music e Happy Mondays também chamarem Saville para ilustrar seus álbuns.

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New Order, Movement, de 1981

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New Order, Power Corruption and Lies, 1983

Como um grande admirador da Nova Tipografia de Jan Tschichold, ele incorporou na concepção das capas dos álbuns esta ideia. Mesmo com essas referências de um momento passado, os álbuns “Movement”, de 1981, e “Power, Corruption and Lies”, de 1983, ambos do New Order, foram importantes indicativos do que iria ser visto na sequência dos anos 80 em termos de design gráfico.

No universo da rebeldia escura do punk, no pós-moderno new wave, ou mesmo nas referências históricas resgatadas de grafismos do passado, Saville soube enxergar e mesclar sob um ponto de vista único essas iconografias e, ao mesmo tempo, expressá-las de forma peculiar, onde a influência da tipografia moderna interagia com elementos trazidos da linguagem das ruas, tudo isso com muita simplicidade.

Em entrevista para a designer Debbie Millman, Peter Saville afirmou que ele tinham liberdade total sobre o que seria feito na Factory Records e isso lhe deu a possibilidade de desenvolver capas de disco como ele mesmo gostaria de ter em sua prateleira.

Em suas criações, não apenas para as bandas, mas também para designers de moda, como Stella McCartney, John Galliano, Givenchy e até mesmo a modelo Kate Moss, Peter traduziu a narrativa dos trabalhos dos artistas e designers para o universo gráfico. E tudo que estes artistas buscavam expressar em seus trabalhos artísticosera entregue ao público como algo tangível por meio do trabalho do designer.

O valor que as artes dos discos asseguravam para os músicos era muito maior do que hoje se vê nas imagem dos CDs. As capas eram por si só uma peça de comunicação. Seguramente, podemos dizer que algumas criações gráficas conseguiram extrapolar o simples limite de uma embalagem, tornando-se símbolos de uma época. Assim como o próprio Joy Division, por exemplo, foi símbolo de um novo movimento e de uma nova geração.

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Suede, Coming Up, 1996

por, Ericson Straub

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