À convite da ABEDESIGN e APEX-Brasil, a abcDesign participou de uma maratona de inovação no Vale do Silício. Através de um relato pessoal do sócio da revista, saiba como pensam as pessoas que fazem as empresas mais valiosas do mundo. E abra sua mente.

Visitar o Vale do Silício foi uma experiência significativa. Atualmente a região é considerada o principal centro de inovação do mundo, com grandes universidades como Stanford, Berkeley, UCSF, UC Santa Cruz, Singularity University, e seis das marcas mais valiosas do planeta: Apple, Google, Facebook, HP, Cisco e Oracle. Se ampliarmos um pouco o raio de inclusão e tomarmos Portland e Seattle como parte do Vale, poderíamos incluir nesta lista Nike, Microsoft e Amazon. Segundo o consulado brasileiro, a densidade do Vale é tal, a massa crítica é tamanha, que o magnetismo é proporcional e é difícil concorrer com ele.

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Intitulada Innovation Diving Experience – Silicon Valley, a viagem foi organizada pela ABEDESIGN (Associação Brasileira de Empresas de Design) em conjunto com a APEX-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Teve 15 participantes, entre profissionais e empresários das áreas do design, inovação e educação. O grupo intitulou o projeto de “Missão Inovação”, pois realmente foi.

Com uma programação intensa de visitas às empresas e instituições mais admiradas do Vale do Silício e bate-papos com gestores, CEO’s, empreendedores brasileiros que participam de aceleradoras locais e designers, nos inspiramos com um conteúdo riquíssimo sobre a cultura que é vivida nesse canto da Califórnia. O cônsul do Brasil em São Francisco, Eduardo Prisco, abriu nossas mentes para insights importantes para as conversas que tivemos em empresas como Airbnb, Autodesk Experience Center, a incubadora RocketSpace, Lexicon, Centro de Desenvolvimento de Software da GE, Liquid Agency, a D-School de Stanford, LinkedIn, Google, GSVlabs, Singularity University, GoPro e o novo escritório da IDEO em São Francisco, empresa que está entre as 50 mais inovadoras do mundo e, provavelmente, já desenvolveu projetos de inovação para as outras 49 da lista. Um dos fundadores da IDEO cunhou o termo Design Thinking, aplicando a ciência do design para o desenvolvimento dos negócios, que hoje tem sido muito aplicado no Brasil.

Eu poderia falar o que aprendemos em cada uma das visitas, o que seria um conteúdo extenso e muito rico, pois em cada empresa há um diferencial no seu modelo de negócios que encantou cada um de nós. Aliás, esse é o jeito de pensar do Vale do Silício, não se fala mais em Plano de Negócios, lá se desenham Modelos de Negócios Inovadores. Quero compartilhar com vocês o que o diretor do Istituto Europeo di Design (IED), Victor Megido, sugeriu chamarmos de assets da missão. Nas conversas de feedback que tínhamos no final de cada dia, fechamos cinco, que de alguma forma refletem o jeito de pensar das pessoas que vivem no Vale do Silício. São eles: velocidade, escala, colaboração, talento e experiência.

Mas antes, quero falar da base que move todos eles, a cultura. A cultura no Silicon Valley é de empreender e de criar um negócio inovador para o mundo. Segundo Luis Castellari, da Keenwork, “compreendi que a maioria das pessoas do Silicon Valley não se motivam pelo dinheiro como fim, todos buscam criar coisas novas para mudar o mundo. A ideia romântica que se formou em volta de estudantes gênios que criaram empresas bilionárias é uma realidade, mas isso não é por acaso, nas universidades e escolas do Vale do Silício a maioria dos estudantes sonham com isso e, mais que sonhar, se preparam muito, pois toda pressão é para empreender”.

Pessoas vão para o Vale porque querem criar algo diferente e grandioso que atenda a uma necessidade do ser humano (user centered approach). Eles chamam isso de “unicórnio”, algo único, raro de acontecer, mas que impactara o mundo. Trabalham arduamente para criar um negócio e estão dispostos a se dedicar incansavelmente em troca de shares (ações) da empresa que pode dar certo (ou não). A grande maioria das pessoas que participam do início das empresas tem o sentimento de posse, segundo Victor, as pessoas são a causa e assumem as suas responsabilidades. Ou seja, é um empreendedorismo consequente, com o objetivo de impactar a sociedade e fazer dinheiro. Isso é outra coisa, as pessoas “fazem dinheiro”, não “ganham dinheiro”, é outro modo de pensar e agir. Não há relações de empregado e patrão, há relação de parceria e de responsabilidade, onde não há tempo ruim, não dependem de nenhuma força maior, governo, chefe, etc. No Vale o ecossistema é de empreender e todos convivem com esse modelo mental. Se você não pensa e não tem atitude para viver assim, saia da frente, porque no Vale o negócio é business.

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1º asset: Velocidade
No Vale do Silício o negócio é rápido, veloz, dinâmico. Tudo deve ser feito com velocidade. Impera o conceito de Tom Peters: “teste rápido, falhe rápido, ajuste rápido”. Um projeto é iniciado assim que atingir o MVP (Minimum Viable Product) e lançado no mercado. Segundo o Consul Eduardo Prisco, “quem avalia o seu produto é o consumidor e você tem que provar para ele diariamente que seu produto tem valor; é necessário confiar na opinião de quem está usando e ouvi-los em tempo real, ao invés de ouvir os especialistas de marketing.” “Faça tudo isso muito rápido, porque se você estiver esperando a perfeição, o Google vai matar você”, diz Ken Singer, Diretor do Centro de Empreendedorismo e Tecnologia (CET) na Universidade de Berkeley. Para o fundador do LinkedIn, Reid Hoffman, “se você não se envergonha da primeira versão do seu produto, é porque você o lançou tarde demais”. Então, por favor, não diga que não entendeu a mensagem e não peça para repetir. Treine a capacidade de estar focado e vamos em frente, anda logo, siga em frente.

2º asset: Escala
Sabe aquela veia empreendedora de se criar uma panificadora para atender as necessidades de um bairro especifico? Se essa empresa não virar uma franquia nacional, com expectativa a exportar, esqueça. No Vale do Silício todo negócio precisa ser escalável e ter a capacidade de atender uma necessidade das pessoas em qualquer parte do mundo e esse é o primeiro passo para desenvolver um negócio, ou seja, ele precisa ter escalabilidade para conquistar o mundo. É isso que Airbnb e Urber, as “queridinhas” do Vale, estão fazendo em seus modelos de negócios, onde há o conceito de compartilhar casa e carro, remodelando o conceito de hotelaria e taxi em todo mundo. Segundo Gisela Schulzinger, sócia da Pande, especialista em Inovação e presidente da ABRE (Associação Brasileira de Embalagens) “escalar um produto ou serviço já faz parte do mindset dos inovadores do Silicon Valley. Não importa se ele é iniciante ou experiente, todos sonham grande e desenvolvem modelos de negócios que possam crescer mundialmente.”

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3º asset: Colaboração
No Vale o sentimento do “é meu”, “só eu sei”, não existe. As pessoas trabalham de forma colaborativa e a diversidade de origens, opiniões, visões é muito forte. Há muitos estrangeiros vivendo no Vale do Silício e 52% das startups tem um estrangeiro entre os fundadores, o dobro da média americana. Lá se compartilham as informações e ideias sem problema, pois, segundo Rick Marini, fundador da Branchout, “ideias são baratas; executar é a parte difícil”. As pessoas compartilham, pois acreditam em si e no seu potencial de executar suas ideias e gerir suas equipes (aliás, esse é um talento muito procurado pelas grandes empresas). Segundo Bobby Amiri, do GSVlabs, Agência Global de Aceleração de Inovações, o Vale é o ambiente mais competitivo do mundo, porém, é o ambiente mais colaborativo do mundo. Todos colaboram entre si, inclusive investidores, gestores e CEO’s que exercem o papel de mentores junto aos novos empreendedores. Há o conceito de Pay it Forward, ou seja, é uma forma de retribuir na frente o que aprenderam de outros experts. Os mentores, que no Vale representam 20% a mais do que no resto do mundo, colaboram ativamente para o sucesso dos novos empreendedores, principalmente os novos.

4º asset: Talento
Investir em talentos não é algo exclusivo do Vale do Silício. Entender que as pessoas são mais importantes que processos ou ativos tangíveis é unanimidade em todo o mundo, mas ali o “talentismo” possui muito valor. Duncan Nolan, da RocketSpace, captou muito bem essa expressão dizendo: “o mundo caminha para uma mudança ‘do capitalismo para o talentismo’ onde as ideias são mais importantes que o capital”, esta frase resume muito bem a essência da economia criativa.” É perceptível que as grandes empresas frequentemente compram startups, pois encontram talentos preciosos e esta é uma forma de incorporar novos talentos ao quadro valioso de pessoas com grande capacidade de empreender e executar. Além disso, um jovem programador, designer, project manager ou empreendedor que está vivendo no Vale do Silício já possui a cultura e a energia de agir como dono e essa habilidade é muito requisitada pelos “garanhões” do mercado.

5º asset: Experiência
Tudo é pensado para que você tenha uma grande experiência, desde a visita à empresa, até o consumo dos serviços ou produtos. Tanto para os colaboradores que trabalham em ambientes modernos, acolhedores e com arquitetura contemporânea, quanto para o público externo que compra os serviços e produtos e ficam encantados com a experiência de usabilidade. Permitir que seus cachorros vão trabalhar com os donos, espaços pensados para guardar bicicletas, mesas decoradas com estilos próprios e com regulagem de altura permitindo trabalhar em pé ou sentado, são experiências que atraem muitos jovens para o Vale do Silício. Além disso, as empresas possuem muitos Experience Designers que trabalham focados em criar experiências com os clientes. Na GoPro, por exemplo, a empresa direciona todos os seus esforços para criar experiências marcantes e não somente produtos diferenciados.

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O Vale do Silício contamina qualquer um que deseja empreender. Ele te estimula a sonhar grande, realizar grande e mostra que é possível desenvolver projetos que atendam uma necessidade ainda não suprida. As pessoas de lá olham com bons olhos quando você fracassa porque significa que você tentou, pois entendem que isso traz um grande aprendizado e que te motiva a tentar novamente e não desistir. O conceito de “melhor pedir perdão do que permissão” reflete bem esse espírito. Vai lá, faz, tenta, não terceiriza a responsabilidade e o risco. Essa é a energia que me inspira.

Olhos:

“A semana de inovação no Vale do Silício foi uma imersão nos novos modelos de negócios que estão modificando nosso mundo e nosso modelo de entende-los. Compartilhar, colaborar, prototipar e agir de forma rápida são verbos associados a inovar. O Vale do Silício não é um lugar, mas sim um estado de espírito. É um espaço onde reúne tecnologia, talento e tolerância de forma equilibrada. Essa semana foi um exercício de manter a mente a aberta e para sempre perguntar: ‘what if?’ ou ‘why not?’. A semana em uma frase: Erro logo para ser bem sucedido mais cedo!”
Érico Fernandes Fileno

“Durante uma semana estivemos com 13 empresas brasileiras imersos no maior pólo de inovação mundial. Foram realizadas 14 visitas oficiais a empresas que utilizam a inovação como essência de seus negócios. Esta missão, executada pela ABEDESIGN e em parceria com a Apex-Brasil, certamente mudou o modelo mental dos empresários no que diz respeito aos modelos de negócios, espírito empreendedorismo e de internacionalização. Como gerente do projeto Brasil Design foi um grande privilégio levar as empresas de design ao Vale do Silício”.
Anna Carolina Maccarone, Gerente Executivo ABEDESIGN/Brasil Design

“A Missão Inovação EUA foi uma grande oportunidade para que as empresas brasileiras pudessem ter acesso aos mais diversos tipos de inovações e modelos de negócios que estão despontando em um dos principais mercados internacionais para o design brasileiro. A agenda da missão foi bem diversificada e planejada e o time de empresas participantes garantiu multidisciplinaridade ao tema. A lição de casa para a nossa volta é a integração dos diversos aspectos deste importante benchmarking ao modelo de negócios das empresas participantes mantendo o foco no aumento de sua competitividade internacional.”
Mariana Gomes, Executive Manager da Apex-Brasil

Conhecer algumas empresas do Vale do Silício foi uma experiência fantástica! Alem das áreas de atuação, propósitos, modelos de negócios, ambientes de trabalho, muito me surpreendi com a cultura que impera no Vale e em São Francisco. Ali se valoriza muito o empreendedorismo, a iniciativa, a determinação, a operacionalização, a agilidade, a objetividade, a visão de futuro e o foco.
E não se entende falhar como demérito mas sim como mérito, pois quem falhou tentou e aprendeu como não se deve fazer. É um lugar onde o negócio é criar negócios que podem ter sucesso para venda-los para criar novos negócios que ainda ninguém imaginou que poderiam existir. E no entanto, hoje não sabemos mais viver sem eles!
André Poppovik, Presidente da Abedesign

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