O lambe-lambe, sucessor do cartaz, surge após a Segunda Guerra Mundial com um viés crítico perante a sociedade e até hoje carrega essa característica. É uma forma de expressão acessível, que permite a manifestação de ideias a pessoas, que talvez não consigam esse espaço de modo formal na sociedade.

Como ferramenta democrática, cada vez mais tem sido utilizada por mulheres para denunciar as opressões sofridas e ressignificar espaços e conceitos. A artista visual Yasmin Faria (Vulva Libre), que atua há três anos com lambe-lambe e pixo, como meio de difundir o empoderamento feminino, explica que devido a posição das mulheres na sociedade a necessidade de lutar é latente. 

Não temos escolha, não é mesmo? Eu não ando na rua tranquilamente às 23h, eu não ando tranquilamente sem camisa, a cada 2h uma mulher morre no Brasil, nós somos o maior alvo de estupros, etc. Acredito que a arte vem enquanto uma revolta e um mecanismo para escracharmos e trocarmos informação. A arte é latente e representa o que sentimos, deve ser por isso que lutamos tanto através dela”, relata Faria.

A partir dessa revolta e do entendimento da arte como instrumento político, muitas mulheres estão espalhando pelas ruas intervenções artísticas politizadas e contestadoras. Conheça o trabalho de algumas dessasartistas:

Vulva Libre

Yasmin Faria, cansada de ver nas paredes pixos falocêntricos, começou a desenhar vulvas para empoderar mulheres. Seus lambes também tem um viés informativo e muitas vezes carregam dados sobre questões pertinentes às mulheres e à política.

https://www.instagram.com/p/BlqZECcgUa0/

Silvana Mendes

A artista trabalha em seus lambes com colagens, que enaltecem o povo negro e aborda questões, como anti-racismo, feminismo e a resistência negra.

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Aos homens negros da nossa vida: "Percebemos que há tempos o homem negro é o ser humano que apresenta o estigma mais cruel na sociedade em que vivemos. A eles são associadas às imagens de criminalidade, sexualidade exacerbada e violência. A construção desta imagem não ocorreu da noite para o dia aqui no país colônia, foi uma imagem negativa trabalhada desde muito cedo de forma minuciosa e perpetuada ao longo de muitos anos por nossos escravizadores algozes. Ao propagar a teoria de negros (e não brancos) desumanizados garante que os traços brancos europeus sejam a referência para padrões intelectuais e estéticos. Estes padrões continuam sendo mantidos ao redor do mundo, inclusive no Brasil. esta desumanização não diferenciava mulheres ou homens negros, pois subjugava ambos igualmente, mas nos dias atuais recai sobre o homem negro um peso mais cruel, o da violência. O homem negro está associado a tudo que é tido como ruim socialmente, como abusador sexual, o violento, o assaltante e em muitos casos hipersexualizado, como por exemplo, “negão com atributos sexuais avantajados”. Esta marginalização é massivamente reproduzida na mídia, que faz questão de apresentar um desserviço quando se trata do homem preto. Um exemplo da hipersexualização do homem preto na televisão foi o personagem do Taiguara Nazareth em “Presença de Anita”, neste seriado o Taiguara representava um jovem jardineiro que se envolvia com uma mulher que tinha um desejo incontrolável pelo jovem. O personagem foi praticamente um objeto sexual. Esta visão violenta associada ao homem negro também traz uma consequência direta no genocídio da população negra. Dados mostram que jovens negros são os principais alvos de assassinatos e encarceramento, pois na lógica racista, por ser perigoso, o homem preto precisa ser exterminado." Fragmento do texto da Barbara Lewis Afetocolagem inspirada no trabalho do @geocaio Fotografia de #collage #collageart #digitalart

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Bea Lake 

Beatriz Lago é artista visual e designer. Retrata em seus lambes mulheres que fogem do padrão estético e causa reflexões relacionadas ao controle do patriarcado sobre os corpos femininos. A artista também aborda o ecofeminismo e as formas plurais de amor.  

Velcro Choque 

Projeto de intervenções urbanas relacionado aos afetos e ao fortalecimento das mulheres lésbicas. A inciativa é da Juliana Motter (@juliannamotter), Marina Borges (@borgesnina) e Taís Laurindo  (@_latap).

Nega Hamburguer 

Evelyn Queiróz começou na arte através do grafite e hoje tem explorado outras técnicas, como o lambe-lambe. Seu trabalho nas ruas aborda temas como o feminismo, a aceitação do corpo, o ativismo negro e a quebra de preconceitos em relação à sexualidade.

https://www.instagram.com/p/Bkfux2ojFpi/

Bruna Alcantara 

Como jornalista e feminista, sua arte tem cunho político e traz, principalmente, assuntos ligados à igualdade de gênero. A artista atua com lambes há 10 anos e utiliza técnicas de colagem e bordado, o que cria uma identidade forte para seu trabalho.

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“O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2008 e 2016) | “Eu jamais ia estuprar você porque você não merece” (para a dep. @_mariadorosario 2003 e 2014) | “Foram quatro homens. A quinta eu dei uma fraquejada, e veio uma mulher” (2017) | “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele" (2010) | “Por isso o cara paga menos para a mulher (porque ela engravida)” (2014) | “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias” (2017) | “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […] o meu voto é sim” (2016) | “Ele merecia isso: pau-de-arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso” (1999) | “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá” (2018) | “Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” (2018) | “Morreram poucos. A PM tinha que ter matado mil” (sobre o massacre do Carandiru.1992) | “O cara vem pedir dinheiro para mim para ajudar os aidéticos. A maioria é por compartilhamento de seringa ou homossexualismo. Não vou ajudar porra nenhuma! Vou ajudar o garoto que é decente” (2011) | “Como eu estava solteiro na época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente (2018) | . . . Brazil calls for help – para @festfeminista.porto

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Se as casas falassem

O projeto utiliza o número do endereço das casas para mostrar dados estatísticos sobre a violência contra as mulheres no Brasil.

“Da porta para dentro, o silêncio das vítimas esconde a violência doméstica. Da porta para fora, os números gritam por socorro. Denuncie. Ligue 180”, é a descrição do projeto na página do Instagram.

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A grade que é protege, também prende.

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Kerolayne Kemblim

A artista viaja o Brasil resgatando memórias negras e utiliza o lambe como ferramenta política para abordar a negritude. 

Zeferina 

A artista é designer e atualmente tem realizado intervenções urbanas com lambes, produzidos durante o Marias, um movimento criado pelo desejo de tirar o corpo feminino do lugar de objeto sexual. Os lambes representam mulheres que acreditam na liberdade e no direito de poder ser, sem medo. As fotografias das artes são de Carolina Libério.  

#Lambebuceta 

O projeto é uma afronta ao falocentrismo e retrata a sexualidade feminina nos muros como forma de empoderamento. 

 

 

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