Quando pensamos sobre o mercado editorial contemporâneo, é importante nos atentarmos ao histórico de publicações no Brasil e o caminho que levou a este panorama nacional que – para nós produtores e consumidores de conteúdo no meio impresso – vai de mal a pior. Para discutirmos estas questões, faremos uma série de três textos com artigos e materiais pesquisados pela abcLAB (extensão da abc em pesquisa e experimentos de projetos) que utilizamos na nossa oficina sobre publicação no NDesign 2016.

Esta primeira parte é um breve fichamento do artigo “A HISTÓRIA DAS REVISTAS NO BRASIL:UM OLHAR SOBRE O SEGMENTADO MERCADO EDITORIAL”, de Íria Catarina Queiróz Baptista e Karen Cristina Kraemer Abreu (acesse o artigo na íntegra clicando aqui). O intuito é contextualizar historicamente as publicações no Brasil:

1808 – Autorização de D. João VI para a instalação da imprensa régia

1812 – Surge a primeira revista que se tem conhecimento no Brasil, a “As Variedades ou Ensaios de Literatura”, em Salvador. Ela seguia os modelos editoriais da época, o que a configurada editorialmente bastante semelhante a um livro e se propunha a publicar discursos sobre costumes e virtudes sociais, algumas novelas de escolhido gosto e moral, extratos de história antiga e moderna, nacional ou estrangeira, resumo de viagens, pedaços de autores clássicos portugueses…

1822 – Anais começam a ser produzidos pela mesma elite, como Anais Fluminenses de Ciências, Artes e Literatura.

1827 – Surge a primeira publicação segmentada por tema no Brasil, a “O Propagador das Ciências Médicas”, feita pela Academia de Medicina do Rio de Janeiro, voltada aos médicos. /0

1827 – Surge a primeira revista destinada ao “””público feminino”””” brasileiro, a “Espelho de Diamantino”. A revista trazia temas como literatura, artes, teatro, política, moda, crônicas e anedotas, todos escritos de forma simples e didática.

1898 – É lançada a “O Rio Nu”, primeira revista brasileira dedicada ao “””público masculino””””. Ela mesclava política, sociedade, piadas, caricaturas, desenhos, contos e fotos eróticas.

“Todas estas revistas, no entanto, possuem uma particularidade: tiveram existência muito curta. A falta de recursos e de assinantes fez com que algumas delas fossem obrigadas a circular apenas uma ou duas vezes, além do que, contavam com uma tiragem muito baixa. Entre elas, as revistas recordistas em permanência no mercado editorial brasileiro à época “duraram”, no máximo, um ou dois anos.”

1837 – É lançada a Museu Universal, primeiro periódico a usar largamente ilustrações, que começa a mudar a permanência das revistas junto ao seu público. Esse estilo de usar imagens com recorrência foi tão aceito que diversas revistas surgiram com o mesmo estilo, como a Gabinete da Leitura, Museu Pitoresco, O Brasil Ilustrado e Universo Ilustrado.

1849 – Surge a publicação “A Marmota da Corte”, periódico que abusa do uso de ilustrações como forma de atrair leitores.

1864 – Surge a Semana Ilustrada, primeiro veículo a publicar fotos no Brasil. Neste mesmo ano, a revista trouxe cenas dos campos de batalha da Guerra do Paraguai.

1900 – Surge a Revista da Semana, especializada em reconstituir crimes em estúdio fotográfico instaurando no mercado brasileiro um modelo que veio para ficar no cenário nacional.

1928 – O jornalista Assis Chateaubriand lança a revista Cruzeiro, dando ênfase às grandes reportagens e destaque especial ao fotojornalismo. Em 1950, a revista atinge a incrível marca de 700 mil exemplares semanais. A Cruzeiro foi a grande revista de penetração nacional, logo após poucos meses do seu lançamento.

1938 – Surge a Revista Diretrizes, que na década de 1940 se tornou a principal concorrente da Cruzeiro. Com redação também no Rio de Janeiro, tinha nomes como Jorge Amado, Álvaro Moreyra, Rubem Braga e Joel Silveira. Entretanto, a sua tiragem não ultrapassava a casa dos cinco mil exemplares

1952 – A editora Bloch lançou a Revista Manchete direcionada ao grande público urbano. Os temas abordados na revista Manchete, principalmente, nas décadas de 70 e 80, tratavam de amenidades, ou, no máximo curiosidades, mesmo quando científicas (câncer, psicologia, entre outros), sem situar os textos a fim de apresentar uma visão esclarecedora sobre o tema.

1966 – Surge a Realidade, uma revista de reportagens com enfoque em informação, nos moldes da prática profissional da imprensa da década de 1960, a Realidade foi publicada pela Editora Abril S. A. e se propunha a duas linguagens: existencial e política.

“Em 1976 a Revista Realidade, encontrando muitas dificuldades para manter o seu projeto editorial inicial, que permitia ao repórter produzir um “jornalismo de texto” operando com criatividade, diferentemente dos modelos prontos do jornalismo, choca-se, também, com o fechamento político proposto pelos Atos Institucionais (AI‟s), em especial pelo AI-5, quando se institucionalizou as restrições à liberdade de imprensa no Brasil. Aquela revista que até hoje é considerada uma das mais bem conceituadas publicações de reportagens no Brasil, fechou dez anos depois do seu nascimento, em janeiro de 1976, sob o número 120, vendendo cerca de 120 mil exemplares.”

1968 – Victor Civita e Mino Carta criam a revista Veja, uma publicação brasileira da Editora Abril S. Seus primeiros anos foram de acúmulo de prejuízos. Somente após dez anos de circulação a revista semanal Veja conseguiu arrecadar mais do que gastava em sua produção. Abordando temas do cotidiano da sociedade brasileira como economia, política, guerras e outros conflitos territoriais, cultura e aspectos diplomáticos, entre outros, Veja apresenta seções fixas – sobre cinema, música, literatura e a “famosa entrevista das páginas amarelas”, no princípio de cada edição – e colunas assinadas por Diogo Mainardi, Stephen Kanitz, Tales Alvarenga, Lya Luft, Jô Soares e Reinaldo Azevedo. Atualmente, a Veja é considerada a quarta maior circulação, no mercado editorial de revistas semanais de informação, no mundo.

1952 – A Capricho é lançada pela Editora Abril S. A e chega a vender meio milhão de exemplares por quinzena. Em 1970, perdendo terreno para as teledramaturgias (telenovelas) encenadas na televisão.

1950/1960 – Final da década de 1950 e início de 1960, as primeiras revistas de História em Quadrinhos (HQ’s) nacionais começam a ser produzidas e trazem nomes como Pererê (Ziraldo) e a Turma da Mônica (Maurício de Souza).

1959 e 1961 – Em 1959 surge a revista Manequim e em 1961, a Claudia, ambas biuscando atingir o público feminino

1960 – Surge a revista Quatro Rodas a partir do segmento de mercado automobilístico instaurado na década de 1950, com o governo JK, no mesmo contexto, surge posteriormente a Duas Rodas.

“Geralmente pensadas, escritas e editadas por homens, as revistas femininas fazem parte do cenário editorial brasileiro desde que este tipo de periódico aportou por aqui. Traziam as novidades da moda na Europa, dicas e conselhos de culinária, pequenas notícias, um pouco de humor (anedotas) e muita ilustração.”

Atualmente, conforme informações disponibilizadas por Tamanaha (2006), o meio revista alcança principalmente as classes A e B no Brasil (67%), entretanto, o público feminino, entre 10 e 29 anos, compõe 56% dos leitores de magazines. Nas áreas de moda e comportamento, as revistas são publicações de referência.

Com isso, não se espera ações noticiaristas das revistas; ao contrário, busca-se no texto preparado para as páginas de uma revista uma visão mais elaborada do fato, relacionando-o com aspectos históricos, sociais, políticos, 21 econômicos, culturais, educacionais, etc., e apresentando tais relações e possíveis decorrências do fato jornalístico para o leitorado.

 

Compartilhe: