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abcDesign: Fale um pouco sobre o que te levou a querer estudar e trabalhar com design?

Eduardo Bacigalupo: Durante minha adolescência, quando eu tinha 15 anos, trabalhava pintando letreiros gigantescos e cartazes em grandes prédios. Sempre estive ligado de uma forma ou de outra com a tipografia e o design. Fazia isto em paralelo aos meus estudos, pois os anos 60/70 foram difíceis na minha cidade natal, Montevidéu, e eu tinha que me virar. Na realidade, não era uma obrigação dos meus pais. Eu trabalhava e estudava porque gostava de verdade. Aliás, meus pais foram muito importantes em minha vida, especialmente meu pai, que infelizmente perdi em 1988. Ele foi a pessoa mais amiga, digna e inteligente que conheci na minha vida.

abcDesign: Você teve apoio dos seus pais, então? Seu ambiente familiar foi propício para estimular seu lado criativo?

EB: Sim. Minha mãe é artista plástica e está muito ativa! Agora ela trabalha com gravuras além de escrever. Tem

vários livros de contos publicados e alguns livros de poesia também. Meu irmão é, entre outras coisas, crítico musical e também já o foi de cinema. Já meu pai, apesar de ter sido Gerente de Vendas da principal companhia de seguros de vida do Uruguai durante 40 anos, era o mais criativo de todos nós. Era a pessoa mais estimulante, vibrante, apaixonante e brincalhona que conheci em toda a minha vida. Meu pai é o meu grande herói e principal referência de tudo o que faço.



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abcDesign: O que te trouxe a morar no Brasil?

EB: Depois da minha formação na Universidade procurei empregos em TODAS as agências de Publicidade de Montevidéu, e a resposta era sempre a mesma: “Aqui nesta agência você até tem um lugar garantido, mas seu talento vale mais do que podemos lhe pagar. Você deve ir para o Brasil, Estados Unidos ou Europa”. Como eu tinha uma familiar que estava morando em São Paulo fazia muito tempo, resolvi vir para cá. Isso graças ao bom Deus, à minha perspicácia e à sorte. Cheguei aqui em abril de 1974 e nessa brincadeira já se passaram nada mais nada menos que 34 anos. Hoje me sinto uma pessoa muito feliz aqui, pois neste país imenso-hospitaleiro-único eu me considero um brasileiro “hecho y derecho”. Só há uma ocasião em que não consigo vestir a amarelinha: quando o jogo é Uruguai x Brasil.

abcDesign: Você é assumidamente um apaixonado pela tipografia. O que te levou a gostar tanto desta área do design?

EB: Acho que foi logo que eu nasci. Sinto como se tivesse já nascido com o “vírus” tipográfico em mim, e não há antídoto. É interessante porque as possibilidades são ilimitadas, e é com isso que me divirto. Fico brincando com as letras o tempo todo. Às vezes brincamos mais, outras menos. Por exemplo: configurar uma família específica, única, conceituada para um grande jornal é uma experiência fascinante, uma “brincadeira” seríssima, uma vez que há muito dinheiro envolvido e o sincronismo das densidades tipográficas torna o “brinquedo” inicial mum desafio profissional impar, que, conforme o tamanho do projeto, pode levar meses para ser concluído. Não esqueça, depois de conceituar todos os caracteres em “alta” ou maiúsculas, em “baixa” ou minúsculas, além dos números e dos sinais de pontuação, ainda DEPENDEMOS dos testes visuais para verificar se o que foi feito está correto: devemos alinhar “A” com “B”, “A” com “C”, “A” com “D”, e assim sucessivamente… Que tal? É divertido ou não?

abcDesign: Como foram suas primeiras experiências profissionais com fontes?

EB: Foram no primeiro emprego que consegui em São Paulo, ao chegar, em 1974. Fazia apenas três dias que estava morando na cidade. A firma era a FoleArt Fotoletras e Artes Ltda. Era uma excelente empresa especializada em fotoletras e fotocomposição. Lembrando que ainda era uma época em que não existia nada do que temos hoje em termos de tecnologia gráfica. Os títulos dos anúncios eram sempre montados e alinhados por verdadeiros artesãos. Havia vezes em que eu apenas retocava e/ou acertava o alinhamento das fontes, sempre “passando a mão” em verdadeiros clássicos tipográficos: Bodoni, Franklin Gothic, Futura, Helvética, Kabel… Com o tempo acabei ficando muito conhecido nas agências de Publicidade – executando jobs como free-lancer – que na época estavam passando por um boom em termos de criação, qualidade gráfica e especialmente em faturamento.

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abcDesign: Sobre suas experiências profissionais, fale um pouco de sua trajetória profissional, dos lugares por onde passou e daqueles que mais te marcaram.

EB: Nunca trabalhei em um lugar que não gostasse ou que não fosse divertido. Passei os momentos mais felizes da minha carreira em lugares como a DPZ, entre 84/86, junto ao Sr. Roberto, o Petit e o Zaragoza, pessoas que foram – e ainda são – maravilhosas, especialmente do ponto de vista ético e criativo, e com quem você se diverte 15 horas todos os dias, todos os meses, o ano todo. Também passei ótimos momentos na W/Brasil, entre 92/94, junto a Washington Olivetto, Javier Llussá e Gabriel Zellmeister, sobre os quais teço os mesmos comentários que os meus colegas da DPZ. Todos grandes profissionais, grandes pessoas e grandes amigos. Também passei pelas agências McCann Erickson, JWT Thompson, Almap e Denison Propaganda. Por fim também passei uma temporada excelente em Nova York, entre 98/2000, quando trabalhei com Massimo Vignelli, uma unanimidade, um grande amigo.

abcDesign: Como você conheceu o senhor Vignelli e como foi trabalhar com este grande nome do design.

EB: Conhecemos-nos em 1994, pois eu desejava morar e trabalhar em NY. E de certo modo foi isso que aconteceu. Com Massimo foi amor e sinergia de conceitos à primeira vista. Vignelli é um designer/arquiteto excepcionalmente conceitual e óbvio (muitas vezes chegar ao óbvio é dificílimo). É considerado um ícone e mesmo assim é uma pessoa extremamente simples, sábia, produtiva, carismática, amável, racional e emocional. Fizemos jobs juntos, sempre sob sua direção-supervisão e posso dizer que distingue como ninguém o que É e o que NÃO É bom design. Quando podemos nos encontrar em Nova York é um prazer conversar sobre arquitetura, design, e… tipografia, é claro. Vignelli é um purista – um minimalista tipográfico. Talvez tenha usado em toda sua carreira não mais que uma dúzia de fontes para executar jobs considerados ícones do design. Notadamente, a tipografia Helvética, para ele a melhor já produzida.

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abcDesign: E hoje, em seu escritório BCDDesign, quais são suas principais diretrizes?

EB: Priorizamos três princípios básicos na seguinte ordem: Ética. Nosso escritório não participa em hipótese alguma de jobs especulativos e/ou concorrências que não sejam pagas. Inventividade, bom gosto e responsabilidade. Se um(a) designer quizer fazer parte da nossa equipe, mas não tiver esses três pré-requisitos nem marcamos a entrevista. E bom frizar que isso vale também para os clientes – respeitando as devidas hierarquias, proporções e negociações. Compromisso e Prazo. Sempre estamos dispostos a negociar todo e qualquer honorário/custo/projeto, mas alguns prazos são negociados sob determinadas circunstâncias.

abcDesign: Uma das grandes questões debatidas pelos designers é a relação com clientes que parecem não compreender muito bem o processo, e que ainda tem pouca noção do que é design. O que você pensa disso?

EB: Há clientes que se portam tão bem que é difícil que alguém possa lhes falhar nas propostas, idéias ou conceitos. Há clientes que se portam tão mal que é difícil que alguém possa produzir algo de bom para eles. Porém, atenção! A recíproca é muito verdadeira também. Portanto, concluo que os três componentes fundamentais da boa relação são: responsabilidade, personalidade e respeito mútuos.

abcDesign: Fale um pouco sobre o seu processo criativo. Como você se inspira?

EB: A fonte de inspiração está diretamente relacionada com o tamanho do problema que se quer resolver, pois não adianta ter idéias fantásticas que não resolvam os problemas propostos, sejam eles grandes ou pequenos. Às vezes, as idéias vêm rapidamente, outras nem tanto. O importante é que a equipe esteja super-afinada e que o líder tenha o feeling e o faro suficientemente aguçados para perceber quais são as melhores idéias. Não importando de quem sejam e incluídas aí as idéias dos clientes… Devem ser muitas boas idéias e não apenas uma. Das muitas, escolhem-se as três melhores, e dessas, A melhor.

abcDesign: Você participou de trabalhos gráficos relevantes da história gráfica brasileira (VASP, VIVO, Bardahl, entre tantos outros). Fale daqueles que você mais gostou, seja pelo resultado final ou pelo processo mesmo.

EB: O processo e o resultado final são sempre os mesmos. Gosto de qualquer job. Não há menores, nem maiores; mais ou menos caros, mais ou menos técnicos. Todos são bons, mas sem dúvida o melhor de todos é sempre o PRÓXIMO!

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abcDesign: Você escreveu um texto muito legal que foi publicado no XIII Anuário do CCSP, onde você encomendava cartas agradecendo a muitos dos seus designers preferidos: Giambattista Bodoni, Tim Girvin, Seymour Chwast, Emilio Fillol, entre outros. Isso foi em 1988. Desde então esta lista aumentou?

EB:
Sim, aumentou: acrescente a esses nomes os de Martin Solomon, Paul Rand, Otl Aicher, Massimo Vignelli, Milton Glaser, Adrian Frutiger, Bob Gill, Alan Fletcher.

abcDesign: Falando de design na atualidade, o que você acha da produção gráfica brasileira? A seu ver, quais são os pontos fortes e os pontos fracos?

EB: A produção gráfica brasileira não tem pontos fracos. Nós temos excelentes designers, diretores de arte, type-designers etc, e também temos excelentes profissionais em outras atividades. Há também bons arquitetos, designers industriais, web-designers, etc. Eu apenas fico chateado quando alguns desses profissionais participam de concorrências ou jobs meramente especulativos ou “de risco”, como são chamados. Isto é péssimo para o mercado, ruim para os próprios participantes – pois eles nunca sabem se “irão ganhar” – e não é bom nem para os “clientes”.

abcDesign: Você tem alguma opinião sobre como isso poderia melhorar?

EB: Evidente que qualquer processo amorfo, licitação antiética ou concorrência desleal deve ser comunicada e repassada de imediato a outros escritórios, clientes e fornecedores de status referencial. Dessa forma estaremos nos ajudando para que este tipo de ações – em que todos acabam perdendo – não sejam mais permitidas.

abcDesign: Você, sendo uruguaio, o que pensa da falta de interação entre Brasil e os outros países da América Latina?

EB: Estive em NY entre outubro e novembro de 2007. Como sempre fui ao MoMA, Whitney, Metropolitan, Guggenhaim etc, entre outros museus. Relendo sua pergunta e lembrando da viagem, a resposta meio óbvia é: falta money, plata, dinheiro. Com isso, você tem todo o resto que também falta. Salvo algumas poucas exceções, teríamos mais intercâmbio, mais organização, mais locais, mais mostras, mais curadores especializados e mais um monte de oportunidades de interagirmos com os demais países do nosso continente, da América do Norte e da Europa.

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