autor: Joaquin Fernandez Presas – Diretor de criação da Pontodesign

Falar sobre os premiados em um concurso é sempre ingrato, pois não interessa o quanto falemos, o resultado já está decidido e não irá mudar. Mas por mais inservível que isso possa parecer, sempre é um momento de reflexão e aprendizado. Em especial, para áreas como a nossa do design – onde a inovação é a única regra – poder pensar e refletir sobre o que o maior concurso do planeta está premiando é uma chance valiosa de saber um pouco melhor, para onde o “grande barco” está rumando.

Antes de comentar algo, é legal eu situar vocês. É minha terceira vinda ao Festival Cannes Lions. Todas as vezes vim como integrante de uma missão que a ABEDESIGN promove, e o principal benefício desta missão é poder passar algumas horas conversando, em uma sala fechada, com alguns membros do Júri. Agora, quarta feira (22/06), hora do almoço, acabamos de fazer isso. Estávamos com a Margo Doi Takeda, da A10 design, que foi jurada em Design Gráfico e o Jaakko Tammela da Questto|nó, jurado em Design de produto.

A primeira peça a ser comentada, com certeza é o grand prix de design (a categoria design gráfico é chamada de Design). A Peça premiada ganhadora este ano foi o Projeto da Panasonic “Life Is Electric”, criado pela Dentsu Tokio (hehehe, óbvio, quem mais seria).

O projeto é simplesmente brilhante, mas mesmo assim, a jurada brasileira contou que ele não foi unanimidade, pois muito jurados acharam que ele “had too much things” (vai entender jurado né? Ora tem pouco, ora têm coisas de mais).

Mas, em todo caso, “Life is Electric” brigou com outros dois grandes projetos que comentarei em um próximo post, a meticulosa e soberbamente montada série de exposições “Masking Tape MX” (japonesa, é claro) e a ultra tech instalação de realidade virtual montada em um ônibus escolar, “Trip to Mars”, da Lockheed Martin.

Mas voltando ao projeto da Dentsu, é até difícil de descrever ele. O projeto consiste de 21 pilhas carregadas de forma bem variadas. Por exemplo, pela energia do “Pom Pom” de lideres de torcida, ou por crianças rodando no carrossel. Veja o filme que é mais fácil e divertido do que eu explicar.

 

 

Vendo o filme é possível ter uma ideia, mas para deixar claro comento algumas coisas. Por exemplo, as embalagens individuais das pilhas são uma coleção de 300 artes diferentes. Isso mesmo, 300 artes, cada uma ilustrada com uma forma de gerar energia. Outra coisa que dá escala do tamanho do projeto é que foi montada e filmada como uma instalação cada uma das 21 “traquitanas” para carregar as baterias (nem todas estão no vídeo).

Provavelmente muitos estão pensado: “ok, show, mas isso é design gráfico?” Bem, acho que o melhor aqui é eu tentar traduzir da melhor forma possível as palavras do Presidente do Jury Tristan Macherel, da Landor, e deixar ele tentar explicar:

“O Projeto conseguiu usar o poder do design para mudar a percepção de um produto que se tornou uma “Commodity”. Ele tem “story telling” em cada ponto. Ele cria uma ponte entre o mundo digitais e o mundo analógico. Teremos um desafio nos próximos anos [como designers] entrando nas novas tecnologias, mas sem esquecer a maneira tradicional de fazer design. Esta peça específica conseguiu combinar essas coisas juntas com tanta esperteza e um “craft” tão belo. Ele preenche todos os requisitos do que acreditamos que um projeto deve ser hoje.”

É importante dizer que, na entrega do GP,  Tristan disse claramente: “Com este GP queremos mandar uma mensagem de até onde e o que o design pode e deve fazer”.

Isto posto, coloco aqui minha humilde opinião: o projeto tem muuuuitos pontos de contato, eles se estende e se mistura com tudo, tanto que é difícil dizer se a base dele é filme, instalação, digital, gráfico, enfim, ele é tudo.

O Projeto tem uma estratégia muito profunda e séria. Tem o “data analisys” que nós no Design, não sabemos muito bem como usar.

Mas indo além da beleza e da suavidade do design dos posters, das embalagens, do livro, da exposição, o projeto tem entendimento do comportamento das pessoas, tem infografia, tem marca, tem tipografia, tem instalação, tem experiência, tem continuidade, tem conversação com a sociedade, enfim, não é um projeto que se encerra em si mesmo, vai mais longe. Hehehe, engraçado dizer, mas agrega valor a vida das pessoas ao ensinas as crianças de onde vem a energia, o que ela é e como precisamos dela.

Olhando por esse lado, acho que agora vocês já começam a pensar como eu. QUE BOM que ele ganhou. Essa mensagem que o presidente do jurado quer mandar é uma mensagem com a qual eu concordo.

SIM, o design é relevante. SIM o design é algo que pode alterar, para melhor, a vida das pessoas e o carinho da sociedade.

Por ora é isso. Abraços!

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