Eugenio Merino

Você já parou para pensar se os objetos utilitários atendem a todos os seus anseios e necessidades? Eles lhe atendem de forma satisfatória em seu dia-a-dia? Já observou se, por exemplo, as informações visuais contidas nesses objetos são claras e o levam a alcançar seus objetivos de forma correta?

Acredito que estas e muitas outras perguntas sejam feitas diariamente por milhões de pessoas, ao redor do planeta, no momento em que utilizam os mais variados produtos e serviços. Entre tantas situações que cercam o nosso cotidiano, podemos destacar os eletrodomésticos, ferramentas, sinalizações e conduções. E, analisando cada um deles, podemos questionar: será que esse nosso entorno está aí mais para facilitar ou para complicar? A resposta, na teoria, é fácil e clara. Qualquer um responderia que tudo isso foi criado com o objetivo de facilitar a nossa vida. Mas vamos lembrar algumas situações que, muitas vezes, contradizem essa teoria:

O desafio do controle remoto: trata-se, certamente, de um produto maravilhoso para a maioria das pessoas. O que seria de nossas vidas sem ele? Imagine ter de abrir mão do conforto que é comandar a televisão à distância, apenas com um leve toque. Mas será que tudo é tão maravilhoso assim? Quantas pessoas sabem utilizar todos os recursos que um controle remoto oferece? Será que a maioria não fica restrita aos botões liga/desliga, canal e volume? Vamos, então, complicar mais um pouco, acrescentando o controle remoto do vídeo, do home theater, do DVD, da TV a cabo…E agora? Que bom que inventaram um controle que centraliza todas as funções…Ufa! Dá um certo nervosismo lidar com tantos botões!

Agora, vamos à cozinha. Quanta evolução, especialmente em se tratando dos eletrodomésticos que se propõem a tornar os nossos afazeres diários mais simples e fáceis. Quem não se lembra do liquidificador utilizado pela mãe, aquele mesmo, que tinha apenas um único botão (liga/desliga). É claro que a evolução tem nos trazido produtos cada vez melhores e mais bonitos, com materiais alternativos, sistemas mais seguros e eficientes. Mas, somado a isto, cada um desses equipamentos é destinado a realizar um número cada vez maior de funções, muitas delas extremamente sofisticadas para o nosso cotidiano. Assim, muitos desses produtos ficam guardados ou expostos como peças de arte. É só dar uma olhada numa cozinha com estilo, daquelas que lembram os anúncios de revistas. A situação piora ainda mais quando um leigo, ou seja, alguém que não tem o hábito de lidar com este tipo de equipamento, decide encara um desafio relativamente simples.

A esposa pede que o marido prepare a vitamina do bebê. A primeira pergunta nasce instantaneamente: “Como eu faço?” A este questionamento seguem-se outros que envolvem quantidade, tipos de frutas, vitaminas, etc…Até aí, tudo bem. O problema começa no momento de pegar o liquidificador (não vamos complicar a vida querendo usar o mix, a centrífuga ou outro equipamento do gênero, bem mais complexo). Os ingredientes são colocados no copo e, uma rápida olhada no aparelho faz surgir uma outra pergunta: “Qual destes botões eu devo apertar?” A pergunta não é gratuita, já que o equipamento apresenta diversas formas de acionamento, oferecendo opções tais como maionese, achocolatados, gelo, grãos, musse, etc. E, geralmente, aquilo que desejamos preparar nunca está elencado no complexo rol de opções. A resposta certeira traz consigo um certo alívio: “Aperte qualquer um”. Afinal, parece mais fácil do que se imaginava. No entanto, o fundo do copo exigia um ajuste que passou despercebido pelo solícito marido e aí… Eis a vitamina escorrendo livremente sobre o aparelho. Em contrapartida, o pai já aprendeu a fazer a vitamina apertando “qualquer um” dos botões do complexo aparelho. E isso sem se dar ao trabalho de ler o manual de uso, que deve estar muito bem guardado e, certamente, ainda lacrado.

Poderíamos citar inúmeros exemplos nos quais o prosaico ato de lidar com um equipamento ou sistema de uso doméstico (ou diário) se transforma num desafio à nossa inteligência, habilidade, criatividade e, porque não dizer, paciência. Dentre eles estão alguns telefones públicos, aparelhos de depilação, filmes ou shows gravados em DVD e páginas da Internet, algumas das quais apresentam-se como uma verdadeira festa para os olhos, tamanha a quantidade de efeitos sonoros e visuais, sem que, no entanto, apresentem uma orientação clara e precisa de “navegação”, fazendo o usuário andar em círculos… Isso sem falar nos equipamentos projetados para serem usados por pessoas das mais variadas idades, mas que não levam em consideração nem o público infantil e menos ainda os idosos que literalmente se perdem diante de botões e comandos eletrônicos modernos. Quem presenciou o primeiro contato de um idoso com um terminal eletrônico de banco, sabe bem do que estamos falando.

Vemos com surpresa o desconhecimento, por parte dos fabricantes, da existência de “Designers” que com conhecimento em “Ergonomia” e “Comunicação Visual” podem ajudar e propor soluções aos problemas acima apresentados, podendo, em muitos casos, se antecipar a eles. Isto pode ser confirmado ao observar os produtos existentes no mercado, os quais possuem um grande apelo quanto aos aspectos tecnológicos, estéticos e formais, esquecendo, muitas vezes, que foram concebidos para ser utilizados por gente “normal”, por pessoas “comuns”, que buscam facilitar a própria vida e não encaram eletrodomésticos como uma prova de gincana. Ao observar muitos desses produtos, fica claro que, ao serem projetados, não foi levado em conta que seriam utilizados por pessoas com as mais variadas formações e características, sejam elas físicas ou psicológicas. A isto poderíamos chamar “usabilidade” Outro ponto importante refere-se à formação dos “Designers”, na qual gradativamente vemos a inserção de disciplinas de ergonomia, propiciando uma visão e atuação mais abrangente e concreta dos futuros profissionais.

Mas, afinal, o que é Ergonomia?

Por incrível que pareça, algumas pessoas se confundem com o termo e muitos têm apenas uma vaga idéia do significado da mesma, associando-a com cadeiras ou com bicicletas ergométricas. Aliás, não é difícil escutar alguém utilizando o termo ergométrico em lugar de ergonomia. Isto se justifica pela pouca divulgação sobre o tema.

À medida que o tempo passa, os hábitos e as exigências das pessoas mudam. Aquilo que era aceito como normal para uma geração, pode tornar-se inaceitável para a outra, devido à evolução constante da sociedade. Cada vez mais, as pessoas estão reclamando e reivindicando por melhores condições de vida e, por conseqüência, de trabalho. Na busca dessa equivalência, diversas melhorias são demandadas. Pode-se dizer que se exigem, cada vez mais, soluções ergonômicas.

Já faz algum tempo que os conhecimentos relacionados aos problemas do trabalho vêm sendo utilizados para tentar resolver questões do ponto de vista ergonômico, utilizando-se, para isso, conhecimentos de diversas áreas tais como medicina do trabalho e fisioterapia, entre outras. Um bom exemplo disso está na escolha do material e do formato que irão compor determinado objeto ou ferramenta, levando em conta não apenas as características do produto, mas também o efeito que se deseja obter e, especialmente, as características e limitações daqueles que irão utiliza-lo.

A ergonomia não se limita ao trabalho, na sua concepção básica. Ela também é útil na concepção de brinquedos, no esporte, no vestuário, em projetos de informação, no mobiliário e nos softwares, dentre inúmeras outras aplicações. Em resumo, podemos dizer que a ergonomia é uma disciplina científica preocupada em propiciar o bem estar ao ser humano, seja no trabalho ou no lazer. A ergonomia deve ser desenvolvida e aplicada em conjunto com outras áreas, visando a criação de produtos e serviços mais seguros, confortáveis e que nos ajudem a desempenhar nossas atividades, sejam elas laborais ou não, com a máxima eficiência e eficácia, sem danos à nossa saúde.

Origens e desenvolvimento da ergonomia

Como ponto de partida, podemos citar o homem pré-histórico que, provavelmente, escolheu como ferramenta uma pedra com um formato que melhor se adaptou à sua mão, permitindo o seu uso com maior facilidade, segurança e eficácia. Podemos encontrar inúmeros exemplos que confirmam esta tese nos achados arqueológicos que evidenciam a criação de ferramentas, armas e diversos artefatos. São utensílios em formato de concha usados para coletar água, são armamentos escolhidos ou desenvolvidos de acordo as limitações físicas ou com as características da atividade a ser desenvolvida (instrumento para caçar um animal pequeno, diferente do usado para caçar um maior; instrumento utilizado para caçar aves, bem distinto daquele utilizado para a pesca, etc.). Desta forma, observamos que, desde os tempos remotos, o ser humano busca realizar suas atividades com o menor esforço, maior segurança e máxima eficácia.

Um outro fato importante diz respeito à invenção da roda, entre 3500 a.C. e 3000 a.C. Este fato representou um marco fundamental no progresso da civilização. A roda se converteu em um sistema mecânico insubstituível para controlar o fluxo e a direção da força.

Dando um grande salto no tempo, nos deparamos com a Revolução Industrial, a partir do século XVIII, com a qual começaram as mudanças nas fábricas e nos produtos feitos em série. Este momento marcou o aparecimento formal do Desenho Industrial, mesmo sabendo que, anteriormente, o mesmo já estava presente, ainda que de maneira informal, especialmente nas atividades relacionadas à escrita e à gráfica.

Por mais paradoxal que possa parecer, até mesmo as guerras contribuíram para o desenvolvimento da ergonomia. Um bom exemplo ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, entre os anos de 1914 e 1917, quando fisiologistas e psicólogos foram chamados para melhorar e aumentar a produção de armamentos, sendo criada também a comissão de saúde dos trabalhadores na indústria de munições.

Já na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foram utilizados os conhecimentos científicos e tecnológicos disponíveis a respeito do assunto para a fabricação de instrumentos bélicos relativamente complexos como, por exemplo, submarinos, tanques, radares, aviões, sistemas contra incêndios, etc. Assim, começou-se a prestar mais atenção às características técnico/organizacionais da situação de trabalho, neste caso diretamente relacionadas com a guerra. Nesta situação – em meio aos combates – era exigida muita habilidade dos operadores, mesmo em condições ambientais muito desfavoráveis no campo de batalha, o que facilitava a ocorrência de erros e acidentes, em muitos casos com conseqüências fatais. Tudo isso serviu de alerta para a importância de adaptar os instrumentos bélicos às características e à capacidade de seus operadores, como forma de tentar melhorar o desempenho, reduzir a fadiga e evitar os acidentes.

Após as guerras, especificamente no ano de 1949, surgia a primeira sociedade de ergonomia, chamada Ergonomics Research Society, constituída por psicólogos, fisiologistas e engenheiros ingleses, unidos pelo interesse comum de adaptar o trabalho ao homem. Desde então, de forma oficial, a ergonomia vem desenvolvendo seus princípios de forma técnica, teórica e prática.

Atualmente, a ergonomia encontra-se difundida em quase todos os países, com inúmeras instituições de ensino e pesquisa atuando na área. Nos quatro cantos do planeta, ocorrem eventos de caráter nacional e internacional relacionados à ergonomia, sendo que sua utilização e aceitação já se fazem presentes em inúmeras empresas.

Aplicações

A ergonomia se aplica a praticamente todos os setores do convívio humano, como foi dito anteriormente, desde um simples abridor de garrafas (que, se não for bem projetado, pode se tornar um objeto perigoso para o usuário) até projetos complexos de naves espaciais. De modo ilustrativo, apresentamos duas áreas tradicionais do Design como exemplo:

Ergonomia no Projeto Gráfico

A importância da imagem gráfica no processo de comunicação humana é consagrada há muito tempo. Assim sendo, acredita-se que o número de símbolos gráficos universalmente reconhecidos aumente consideravelmente. No entanto, é importante alertar os criadores de símbolos quanto ao fato de que nem sempre uma coletânea de imagens e uma grande quantidade de dados são suficientes para que se chegue a uma representação gráfica eficiente daquilo que se pretende comunicar.

A apresentação gráfica, devidamente organizada por meio de princípios ergonômicos e de design gráfico, torna-se mais eficiente e atrativa. Como resultado, o usuário fica mais motivado a ler a informação, que se torna até mais fácil de ser compreendida, e o apresentador tem seu trabalho simplificado. Isto quer dizer que temos um aumento da eficiência e, como sabemos, aumentar a eficiência é buscar qualidade.

Ergonomia no Projeto de Produto

A globalização da economia tem produzido, nos últimos anos, a aproximação dos mercados. E a interação entre os países tem permitido o aumento da concorrência entre produtos similares. Esta concorrência tem aumentado cada vez mais, devido à necessidade que as empresas possuem de conquistar maiores fatias do mercado consumidor. E, para atingir este objetivo, as companhias têm buscado diferenciar seus produtos dos demais concorrentes, sendo a configuração ergonômica uma potente ferramenta para criar e evidenciar esta diferenciação.

Assim, observa-se que a ergonomia vem auxiliando as empresas na conquista e manutenção de mercados. Produtos ergonomicamente projetados podem ser utilizados por pessoas dos mais diversos níveis culturais, idades, capacidades físicas e mentais, independente do tamanho do corpo, da força física, da habilidade, da capacidade lingüística e, até mesmo, da paciência.

Como característica essencial, o projeto ergonômico é aquele que cria produtos que possuam efeitos desejáveis sobre seus usuários e jamais criem efeitos indesejáveis. Quanto mais efeitos desejáveis forem criados, mais adequados ao uso humano estes produtos serão considerados.

A Informática

A informática vem provocando uma verdadeira revolução nos ambientes de trabalho. Tratam-se de equipamentos silenciosos que podem proporcionar maior produtividade, melhor qualidade dos serviços, economia de tempo e custos mais baixos. Mais que do que isso, trata-se de um ramo tecnológico em constante evolução, não sendo descabido dizer que os postos de trabalho informatizados representam o princípio de uma nova era para o homem, a era da informação.

Entretanto, na medida que invadem uma maior quantidade de setores da atividade humana, os processos relacionados à informática carregam consigo um considerável número de críticas, e mesmo de suspeitas, em relação aos benefícios que podem proporcionar. Ainda que o uso da informática possa facilitar e enriquecer o trabalho, como qualquer mudança ou inovação, também pode gerar sérios problemas relacionados tanto a aspectos de ordem física quanto mental.

A não consideração dos usuários – com suas habilidades e limitações – é flagrante no desenvolvimento dos equipamentos, na concepção de programas, no planejamento e implantação de sistemas, na crescente informatização das indústrias, escritórios e outros serviços. A informática, assim como qualquer outra ferramenta, deve estar a serviço dos seus usuários. E a simples adaptação de determinados processos da informática para o uso massivo não é suficiente. É necessário que a informática responda às expectativas de quem a utiliza, respeitando as diferenças interindividuais (sexo, idade, personalidade, qualificação, saúde, etc), tanto no plano físico quanto no psicológico.

Do ponto de vista físico, um dos principais problemas recai sobre o mobiliário e o ambiente de forma geral. E, do ponto de vista mental, podemos citar a organização, a competitividade, a velocidade de acesso às informações e as rápidas mudanças relacionadas aos processos. Este último item, aliás, é considerado como um dos principais problemas enfrentados pelas pessoas, apresentando-se como um grande desafio para o futuro: afinal, mal conseguimos dominar alguns aspectos ou ferramentas de um determinado programa e logo descobrimos que o mesmo tornou-se obsoleto ou ultrapassado. Temos, então, que tentar dominar a versão mais recente e que, via de regra, apresenta diferenças fundamentais em relação ao programa anterior, fato que deixa o usuário cheio de dúvidas, frustrações e insegurança.

Ao fazer esta abordagem ampla – dos liquidificadores aos sofisticados sistemas de informática – esperamos estar contribuindo para a formação de um senso crítico quanto à importância da ergonomia nos mais variados aspectos do cotidiano, evidenciando sua importância e aplicação. No caso específico dos designers, acreditamos que ergonomia é uma área ainda pouco conhecida e, por consequência, pouco explorada. E agora, será que o controle remoto, o liquidificador e inúmeros outros produtos continuarão a nos desafiar? Ou será que poderemos contar com uma visão diferente por parte daqueles que desenham e/ou projetam os produtos que cercam o nosso dia-a-dia?

A nossa participação, como designers, é muito importante neste processo. Isto porque, a partir do momento que possuímos um senso critico apoiado em argumentos e conhecimentos consistentes, temos a possibilidade de escolha e de ação. Acreditamos ainda que a ergonomia se apresenta para os designers como um território virgem a ser descoberto e explorado. Nele poderão ser trilhados novos caminhos e novas oportunidades. A sua aplicabilidade é enorme e está nos aguardando, não apenas como uma bela oportunidade profissional, mas também como uma chance de tornar melhor a vida das pessoas.

Eugenio Merino

Designer pela EBA/UFRJ, Doutor pelo PPGEP/UFSC, Professor e Coordenador do Curso de Design CEV/ERG/UFSC, Professor do PPGEP/UFSC nas áreas de Design e Ergonomia.

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