Ericson Straub

Para nós, da abcDesign, esta é uma edição especial porque completamos um ciclo de 25 edições, iniciado em 2001. Em comemoração, fizemos uma investigação sobre a história de algumas das mais relevantes revistas de design para sabermos como elas contribuíram com a atividade.

A escolha destas determinadas publicações seguiu uma visão pessoal com apoio de alguns colegas de profissão do que julgamos serem títulos importantes pela influência que exerceram, pelos profissionais que se envolveram ou pela longevidade que mantêm.

O surgimento de revistas especializadas em design está intimamente ligado ao desenvolvimento da própria comunicação gráfica comercial. Elas são registros das tendências, das evoluções estéticas e tecnológicas, e, o mais importante: são espaços livres para a experimentação.

Nesta “linha do tempo”, percebemos que as primeiras revistas são todas européias, predominância que se estende até próximo ao pós-guerra. Acompanhando a extensão da potência americana e desenvolvimento desta indústria, o design ganha força fora da Europa e aparecem títulos americanos de grande destaque. Na América Latina, onde o design é mais tardio, as publicações especializadas são mais recentes.

Com o fortalecimento da profissão, cresceu a necessidade de compilar os melhores trabalhos. Por outro lado, houve a vontade de analisar portfolios e a própria atividade. Emergem, então, publicações que não privilegiam somente o conteúdo visual, mas também o conteúdo teórico e os debates.

Uma novidade significativa foi a informática, que permitiu experimentações em um novo nível gráfico e as revistas acompanharam as mudanças. Não precisamos nem nos estender sobre a influência da internet.

Atualmente, muitos dos títulos apresentados já não existem mais, outros, continuam cumprindo com competência seu papel. Tendo estas revistas resistido longos ou curtos períodos, há algo em comum entre estas publicações que fundamentam a qualidade atingida por todas: paixão pelo design e o desejo de criar algo que contribuísse com a profissão.

Estes sentimentos não mudaram em nada nestes quase 100 anos de publicações especializadas e continuam a motivar novas e antigas publicações. Com a abcDesign, com certeza, é assim.

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Das Plakat

A revista Das Plakat foi lançada na Alemanha em 1910 como uma publicação oficial da Sociedade dos Amigos do Pôster, fundada cinco anos antes, que reunia colecionadores de pôsteres europeus. O grupo tinha como objetivo disseminar conhecimento sobre questões estéticas, culturais e funcionais desta forma de expressão. A Das Plakat foi idealizada por Hans Josef Sachs, um dentista apaixonado por cartazes que fundou a revista mesmo sem nenhum conhecimento técnico. A publicação cresceu junto com a Associação, que promovia concursos entre designers gráficos, com o intuito de reforçar que a arte dos cartazes extrapolava o universo meramente comercial. Em seus 11 anos de existência, a importância da revista Das Plakat pode ser medida por sua tiragem. Quando foi lançada, produzia apenas 200 exemplares, mas chegou a uma tiragem de 5000 em seus últimos anos. Importantes artistas gráficos da época como o russo Adolphe Mouron Cassandre, os franceses Paul Colin e Jean Carlu, e o alemão Lucian Bernhard tiveram seus trabalhos publicados na Das Plakat. Em 1922, as atividades da revista foram encerradas por causa de problemas entre os membros da instituição, colecionadores e negócios envolvidos.

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Gebrauchsgraphik

Sem dúvida, a base para a publicação da Gebrauchsgraphik havia sido deixada pela revista Das Plakat. A Alemanha era considerada um dos países mais modernos da época, e a Bauhaus já realiza suas experimentações em design. Atento a isso, o professor K. H. Frenzel acabou fundando a Gebrauchsgraphik, que desde seu primeiro número tinha um caráter internacional, sendo editada em alemão e inglês. O contato do Prof. Frenzel com profissionais da Europa e Estados Unidos facilitou a inserção de inúmeros talentosos artistas gráficos. Nomes como do russo El Lissitizki ou do norte-americano McKnight Kauffer deram essa consistência internacional. Apesar de ter sobrevivido durante os anos do terceiro reich, sua edição foi interrompida por seis anos após 1944, voltando a ser editada em 1950. Hoje é publicada com o nome Novum Gebrauchsgraphik, acrescido em 1971 e continua sendo uma das principais revistas da área.

AMG – Arts et Métiers Graphiques
Outra revista européia que desempenhou um importante papel na divulgação das tendências vanguardistas foi a Arts et Métiers Graphiques, lançada em 1927. O responsável foi o francês Charles Peignot, fundador da Deberny et Peignot Type Foundry (empresa de fundição de tipos) e também da Associação Internacional Tipográfica, da qual foi presidente durante 16 anos. A AMG apresentava temas variados, desde história da prensa, ilustração, técnicas de artes gráficas mostradas por meio de diagramas, design contemporâneo e fotografia. Foi uma das primeiras revistas a apresentar portfolios dedicados a artistas e temas especiais, que nas décadas seguintes seriam comuns. A. M Cassandre foi um dos mais importantes colaboradores da revista, assim como da Deberny e Peignot Type Foundry, desenhando diversas fontes para a empresa. Outros colaboradores foram H. K. Frenzel (fundador da Gebrauchsgraphik), Maximilien Vox, Herbert Matter, Charles Martin, Paul Iribe, dentre outros.

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Domus

Saindo um pouco do universo Gráfico, não poderia deixar de ser mencionada a revista italiana Domus, fundada em 1928, pelo arquiteto Gio Ponti. Em suas mais de 900 edições, a publicação ganhou o status de revista mais influente na área de arquitetura e design de produto. Ponti a lançou com o intuito de criar uma revista de “estilo de vida” com o subtítulo “arquitetura e design de interiores da casa moderna na cidade e no campo”. Eventualmente, a publicação ganhou força e se focou nas tendências da área, apresentando aos leitores um olhar privilegiado sobre o que há de mais recente em arquitetura, design, fotografia e arte.

GRAPHIS
As publicações da Graphis, como os Anuários de Design Gráfico, de Propaganda, de Fotografia e de Pôsteres, e o Jornal Internacional de Comunicação Visual são imprescindíveis na biblioteca de qualquer profissional criativo. Há décadas estes títulos apresentam seleções dos mais significativos trabalhos do mundo em comunicação visual. O primeiro Jornal foi editado no ano de 1944, em Zurique, pelo suíço Walter Herdeg e em pouco tempo se tornou uma importante referencial, tanto na identificação dos caminhos estéticos quanto no reconhecimento dos artistas gráficos, ilustradores, fotógrafos e diretores de arte mais relevantes do mundo. Em 1986, sua sede foi transferida para Nova York, depois que B. Martin Pederson adquiriu a publicação. O Jornal continua sendo editado até hoje, e está em sua 356ª edição!


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UL&C

No início dos anos 70, os designers norte-americanos Herb Lubalin, Aaron Burns e Ed Roundthaler, pensavam em uma forma de promoção para a ITC (International Typeface Corporation) empresa do segmento tipográfico que haviam fundado alguns anos antes. Assim surgiu a U&LC (Upper ad Lower Case ou Caixa Alta e Baixa), contando com a contribuição de importantes nomes do design norte-americano da época como Lou Dorfsmann, Seymour Chwast e Milton Glaser. Sem dúvida é impossível dissociar U&LC do designer Herb Lubalin, editor e diretor de arte desde o primeiro número até seu falecimento, em 1981. A UL&C foi um dos mais importantes e reconhecidos meios de divulgação de tipografia, do design gráfico e da ilustração no mundo, sendo que no pico chegou a 200 mil exemplares. Após 1886, a direção de arte da revista ficou a cargo de diferentes designers como B. Martin Pedersen, escritório Pentagram, Roger Black, Seymour Chwast, dentre outros nomes de peso. Em 1999, foi publicado o ultimo número impresso da U&LC, que passou a ser editada somente em meio digital.

 

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Print Magazine

Como já foi dito no início desta material, algumas revistas são mais que materiais editoriais com trabalhos de qualidade (ou não). Algumas são documentos imprescindíveis na biblioteca de todo designer, e a Print Magazine é uma delas. Surgida nos Estados Unidos em 1940 como uma revista de portfolios de diretores de arte publicitários, sua proposta era expandir o entendimento das pessoas sobre como o design influencia a sociedade em diversos aspectos. Hoje, é um importante termômetro da criatividade dos designers gráficos, diretores de arte, fotógrafos e ilustradores do mundo inteiro, sempre mostrando de forma reflexiva os trabalhos e sua troca com o contexto cultural, político e no mundo dos negócios.

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Plazm

Os anos 90 e a chegada dos computadores trouxeram inúmeras possibilidades para o design gráfico e para publicações sobre o tema também. Uma das revistas que surge no início dos anos 90 é a Plazm (1991). Fundada em Portland, nos Estados Unidos, por um grupo de designers e artistas, a Plazm ganhou reconhecimento internacional principalmente pelas experimentações tipográficas que apresentava. Teve contribuições de diversos designers e artistas entre eles David Byrne, David Carson, Coco Fusco e John C Jay. Uma prova de sua importância para a estética dos anos 90 foi a inclusão da Revista na Coleção permanente do Museu de Arte Moderna de São Francisco.

Gráfica

No ano de 1983, o Brasil vivia um momento efervescente da comunicação gráfica, e nesse contexto surgiu a revista Gráfica, idealizada e editada pelo designer paranaense Oswaldo “Miran” Miranda. Embora a publicação também tenha passado pelas dificuldades de se fazer uma revista de design, como oscilações na situação econômica, ela continua firme e forte nestes 25 anos. A Gráfica sempre prezou pelo conteúdo gráfico, valorizando trabalhos com personalidade única e inovadores, mas não privilegia o design gráfico. São portfolios de ilustração, tipografia, marcas, fotografia, design de produto, arquitetura e iconografia. No início dos anos 1990, a revista passou a ser distribuída na Europa pela Rotovision, sendo a primeira revista não-européia da editora. Por este feito, a Gráfica desempenhou o importante papel de divulgar o melhor do design mundial ao público brasileiro – já que o acesso a veículos importados era limitado – e de levar para o estrangeiro os trabalhos tupiniquins.

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Emigre

O ano é 1984 e Rudy Van DerLans, Menno Meyjes e Marc Susana tinham vontade de fazer uma revista de cultura focada nas perspectivas únicas de artistas, poetas, escritores, jornalistas fotógrafos, designers gráficos, arquitetos que viviam fora de seus países de origem. Assim surge a Emigre, que em suas 69 edições acabou se tornando um importante espaço de experimentação tipográfica da nova era digital, com o slogan: “a revista que ignora fronteiras”. Cada edição era desenvolvida com um tema específico visando um objetivo especial. No início dos anos 90, Van DerLans percebeu que a Emigre havia se convertido em uma palavra chave no mundo das fontes experimentais e em paralelo criou a empresa Emigre, de comercialização de fontes experimentais. A última edição da revista foi editada em 2005.

TipoGráfica

Na América Latina, o principal fenômeno do meio editorial especializado foi a revista TipoGrafica, lançada em 1987. Fundada por Rubén Fontana e Roberto Alvarado, a publicação nasceu com uma proposta bem clara; criar um espaço de encontro, reflexão e discussão criativa em castelhano. A partir de 1990, a TipoGrafica passou a ser distribuída internacionalmente, se tornando uma referência principalmente nos países de idioma hispânico. Debates e análises sobre o universo gráfico enalteciam o conteúdo teórico em oposição aos portfolios, mas a revista não pecava em nada na qualidade gráfica. Períodos de instabilidade e econômica na Argentina desfavoreciam a continuidade das edições, e para o fundador e designer tipográfico Rubén Fontana, são os grandes empecilhos para publicação de revistas especializadas na América Latina. “A TipoGrafica nasceu e viveu em um estado crítico”, comenta. A edição 70 tinha em sua capa a palavra cuatro-ve-ta, sem que os leitores soubessem seu significado. Era uma contagem regressiva que continuaria até a edição de número 74 (2006), seu último número e o fim de um ciclo que, para Fontana, – e muitos outros designers latino-americanos – cumpriu seu papel.

Eye

Embora a Eye pertença ao “hall” das revistas que fazem parte da pós-era digital, ela apresenta um contexto diferente de publicações norte-americanas como a Plazm e a Emigre. Fundada na Inglaterra, em 1990, pelo escritor Rick Poynor, a Eye apresenta o design de forma mais aprofundada, sem enfatizar apenas portfolios. Ao privilegiar a história, a crítica, comparação e contraste a Eye possui um caráter mais discursivo e de conteúdo. Richard Hollis, Steven Heller, Alice Twemlow, Stephan Sagmeister, Erik Spiekermann são alguns dos importantes nomes do design mundial que contribuem freqüentemente com a revista.

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