Doutor em edução pela USP, designer gráfico, mestre em design pela UFPR e colunista da Revista abcDesign, Marcos Beccari acabou de lançar um novo livro, o Articulações Simbólicas.

 

Confira o prefácio do livro, escrito por Daniel B. Portugal, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e professor da ESDI/UERJ

 
Os designers que se esforçam para refletir sobre a atividade que exercem (para além das questões práticas) e os pensadores que querem dirigir sua atenção para este campo de atividade caracterizado como “design” muitas vezes desviam seus esforços, ou deles desistem, devido à escassez de referências e à dificuldade de tratar desse objeto tão fugidio. Ora, se nem os designers sabem o que é design, o mais simples a fazer é — para um designer — desistir de pensar ou — para um pensador — desistir do design. Misturar design e pensamento cria problemas, e diz o bom senso que é melhor evitá-los.

 
Mas há sempre aqueles que são estimulados por tais problemas e, desconsiderando os mandamentos do bom senso, ocupam-se deles. Assim, adentram esse terreno movediço que chamamos de filosofia do design. É em tal terreno, ainda sem muitas cercas ou muros, que florescem algumas propostas teóricas originais e instigantes como esta de Marcos Beccari, que aqui apresento. Trata-se de filosofia do design em sua melhor forma.

 
Para quem já acompanha o trabalho do autor, tal constatação dificilmente causará surpresa. Já faz tempo que Marcos Beccari brinda seus leitores com textos primorosos, a maioria deles publicada no site Filosofia do Design, que coordenamos em conjunto. Além da parceria na coordenação de tal site, partilhamos também, ao longo dos últimos anos, a autoria de diversos artigos e do livro Existe Design? (em coautoria também com Ivan Mizanzuk), o primeiro da série Filosofia do Design da 2ab, agora enriquecida com o presente Articulações simbólicas. Tem sido um privilégio acompanhar o pensamento de Marcos Beccari ao longo desses anos. Muito aprendi com ele, e posso apenas desejar que alguns poucos grãos do meu pensamento tenham também contribuído para o denso e saboroso tempero filosófico desta obra.

 
Aproveito essas já gastas metáforas culinárias do tempero e do sabor para destacar um elemento central na proposta de Marcos Beccari: o gosto. Ou, ainda melhor, o gosto pelo gosto, pelas aparências, pela superfície das coisas e dos discursos — isto é, pelo imaginário que não se apresenta como um indicador de um suposto real por trás dele, mas que se afirma como máscara, ficção. O design aparecerá, nas páginas que seguem, como o grande representante desse gosto: sem procurar nenhum tipo de fundo por trás das superfícies, ele pode atuar alegremente como um articulador simbólico, um articulador de ficções. Convido então o leitor a seguir a trilha reflexiva de Marcos Beccari, levando consigo um comentário que Nietzsche teceu a respeito dos gregos, mas que poderia valer igualmente para o design: ele é superficial — por profundidade!

 

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