As capas de vinil tornaram-se peças de comunicação ao extrapolar o limite de uma embalagem e se transformar em símbolo de uma época

Com o crescimento dos movimentos sociais nos anos 1960, o vínculo entre música e design se intensificou. Analogamente, essas duas artes atuavam como importantes ferramentas de expressão; de ideais, de amor, de liberdade e de paz. Durante essa década, conhecida como anos rebeldes, a indústria cultural se apropriava de ícones de movimentos sociais, desenvolvendo-os de forma digerida em produtos gráficos. Nesse contexto, decoração, roupas, acessórios, capas de discos e pôsteres se tornaram tão importantes quanto as próprias músicas, já que ambientavam e criavam uma imagem diretamente associada ao discurso presente nas composições.

Nos anos 70, a rebeldia colorida e ingênua da década anterior foi substituída pela melancolia e agressividade do movimento punk, que, depois de ser influenciado pela moda, tornou-se também produto de consumo, movimentando ainda mais os negócios fonográficos alavancados pelos movimentos dos anos 60.

No cenário setentista, as gravadoras independentes começaram a surgir com propostas ainda mais intrínsecas ao design das capas de discos, utilizando esse recurso como alternativa à publicidade tradicional. No final dos anos 70, com a experiência da casa noturna La Hacienda, que colocou Manchester no circuito cult da época, Tony Wilson abriu a Factory Records. A gravadora, além de dar visibilidade a diversas bandas locais como Joy Division e Happy Mondays, tinha Peter Saville como cocriador e designer responsável por toda a concepção visual das bandas do circuito.

Saville consolidou-se como referência em design de capa de discos após a parceria com a banda Joy Division. A relação entre arte gráfica e música foi fundamental para o posicionamento imponente e sucesso do quarteto pós-punk. Mesmo depois da morte do vocalista Ian Curtis, quando a banda foi rebatizada como New Order, o caráter transgressor das criações sonoras e visuais permaneceu. O estabelecimento dessa personalidade revolucionária fez com que bandas como Pulp, Suede, Roxy Music e Happy Mondays também chamassem Saville para ilustrar seus álbuns.

Como um grande admirador da Nova Tipografia de Jan Tschichold, Peter Saville incorporou conceitos desse movimento da década de 1920 na concepção de diversas capas de álbuns, como em Movement, de 1981, e Power, Corruption and Lies, de 1983, ambos do New Order. Esses discos foram importantes indicativos do que seria visto na sequência dos anos 80 em termos de design gráfico.

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Movement, de 1981.

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Power, Corruption and Lies, de 1983.

Muito desse caráter transgressor vem da liberdade concedida a Saville nas suas criações. Em entrevista à designer Debbie Millman, o artista contou que tinha liberdade total sobre o que seria feito na gravadora e isso lhe deu a possibilidade de desenvolver capas de discos como ele próprio gostaria de ter em sua prateleira.

Mesmo com o surgimento de outros recursos como o CD, o MP3 e, mais recentemente, plataformas como o Spotify, os vinis perduraram. Na contemporaneidade, o disco tornou-se ícone colecionável e artistas gráficos como Sean McCabe, Matt Cooper e o brasileiro Giovanni Bianco, que já assinou capas de CDs e vinis de Madonna e Marisa Monte, são reconhecidos e procurados para executar trabalhos que se propõem a unir design e música na composição de uma narrativa impactante e transgressora.

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