Elio Palumbo

Elio Palumbo

Sócrates, que viveu no século V antes de Cristo, nunca escreveu uma só palavra. Tudo o que se conhece a respeito de sua sabedoria foi transmitido por seus discípulos, sobretudo Platão e Xenofonte. Porém, a relação mestre-discípulo talvez seja anterior à filosofia grega. É provável que esteja na essência tribal do homem, onde o conhecimento era repassado de pai para filho, a fim de dar continuidade à cultura de cada povo. Não foi diferente com Jesus Cristo e a disseminação de sua doutrina através de seus discípulos. Também foi assim na Grécia antiga e na Roma Imperial.

Na Idade Média, a cultura e o ensinamento eram repassados em grandes e escuros monastérios ou, ainda, nas pequenas aldeias onde as artes e ofícios também eram transmitidas aos mais jovens pelos mestres mais velhos. No Renascimento, a figura do mestre foi institucionalizada nas artes. Importantes pintores como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Rafael, assim como Albrecht Dürer, chegavam a ter dezenas de aprendizes, o que era motivo de honra para um discípulo. A figura do mestre sempre foi associada às mais diversas formas de expressão artística. artes em geral. Em Curitiba, na antiga Impressora Paranaense, celeiro do aprendizado de inúmeros artistas da gravação, existia o cargo de mestre, aquele que conhecia plenamente o seu ofício e tinha a capacidade de formar novos profissionais.

Desde cedo meu pai me ensinava e incentivava o que sabia sobre desenho, já que sempre dominou muito bem a técnica, porém como autodidata.

03-trompeteSeus conselhos ponderados e incentivos de um bom mestre, me fizeram optar por seguir a carreira nas artes gráficas, porém tive o privilégio de ter também como mestre alguém que pôde me ensinar seus conhecimentos e sua importante e longa experiência. Para representar os mestres que, seguramente, cada um já teve, entre pais e professores, resolvemos falar de um caso especial no universo das artes gráficas em Curitiba: Elio Palumbo.

O tempo ensina. E uma das coisas que aprendi com o tempo é ver com meus próprios olhos e tirar minhas próprias conclusões. Antes de conhecer Elio Palumbo pessoalmente, ouvi alguns “profissionais” comentarem que a capacidade criativa dele já não era mais a mesma e que o mestre estava ficando desatualizado. Por sorte, logo aprendi que é fundamental não dar ouvidos à antropofagia maldosa, peculiar àqueles que carecem de mais espiritualidade.

Nascido na Itália e criado na Argentina, Elio Palumbo trabalhou com artes gráficas desde a juventude. Na década de 50, foi o diretor de arte responsável pela concepção gráfica da FIAT na América do Sul. Foi naquele período que ele criou verdadeiras obras de arte feitas em ilustrações a guache; trabalhos maravilhosos que, muitos anos mais tarde, eu viria a ter o privilégio de conhecer, observando-os cuidadosamente, da mesma forma que um colecionador de livros observaria a Bíblia impressa por Gutenberg. Antes de chegar à Curitiba, ele havia trabalhado na McCann-Erickson de Montevidéu, capital do Uruguai; e depois atuou em agências de publicidade em Porto Alegre.

Em 1988, quando tive o privilégio de conhecê-lo, e de ser seu assistente em uma agência de publicidade, Elio Palumbo já tinha 64 anos bem vividos. Naquela época, ele já estava no Brasil há um bom tempo, tendo chegado com sua esposa, Maria Mercedes, no início dos anos 70. Na mesma década, Palumbo foi diretor de arte da Exclam Propaganda, onde também deixou discípulos, destacando-se Neusa Palmieri, sua mais fiel discípula e principal amiga que soube retribuir com todo o carinho e dedicação tudo que o grande mestre pode lhe ensinar. Assim como para a Neusa, para mim e também inúmeros admiradores e amigos como Rodi Janz e Ernani Buchman, Elio Palumbo sempre foi especial. Desde o início, sua personalidade me chamou a atenção. Seu jeito alegre alternava brincadeiras quase infantis com um refinado senso de humor. A maneira elegante de vestir-se, herança de anos portenhos, harmonizava-se perfeitamente com o bom jazz que costumava escutar. Ao mesmo tempo, Palumbo era intempestivo, fazendo valer o sangue italiano que lhe corria nas veias. Eram características com as quais aprendi lidar ao longo dos cinco anos em que trabalhei como seu assistente.

Como profissional, Elio Palumbo tinha qualidades que considero fundamentais para um bom designer. Conhecia como ninguém os conceitos gráficos de proporção, cores, composição e, principalmente, tipografia e caligrafia. Com ele, seus discípulos aprenderam a marcar visualmente os espaços entre cada letra e a conhecer serifas e curvas nos mais íntimos detalhes. No meu caso específico, Palumbo foi o principal motivador da minha atração pela tipografia. Outra qualidade do mestre era a sua versatilidade expressa das mais variadas formas: desde ilustrações despojadas até bonitas aquarelas de teor mais realista. Tudo tinha um toque gestual e bem humorado.

Posso afirmar que, nos dias de hoje, nem os mais avançados softwares o deixariam desatualizado. Afinal, um bom designer vai além da solução tecnológica. Aos seus 69 anos, idade em que deixei de trabalhar com ele para seguir meu caminho, percebi o quanto continuava criativo, em plena atividade e com um poder fantástico de dar soluções gráficas aos problemas. Mesmo afastado fisicamente do mestre, sempre mantive uma crescente admiração por ele. E foi com muito pesar que recebi a notícia da morte de Elio Palumbo, em setembro de 2001, em Buenos Aires, na Argentina, aos 76 anos de idade. Por tudo isso, decidi escrever este artigo. Primeiramente queria prestar uma homenagem ao genial mestre Palumbo e, através dele, reverenciar todos os mestres que fazem de suas vidas um constante repasse de conhecimento, matéria prima do mais alto valor para aqueles que, sinceramente, desejam conquistar um lugar ao sol como profissionais de qualidade.

Depoimento de Rody Janz

Quando Elio Palumbo se transferiu para Curitiba na década de 70, Rody Janz era Presidente da Exclam Propaganda. Em pouco tempo Rody e Elio já criaram um laço de amizade que se estendeu durante todo o período em que Palumbo esteve em Curitiba. Segundo Rody, só os verdadeiros gênios são capazes de se dedicar com tanto amor e exclência ao trabalho. E Elio era um desses. Era humilde e odiava “puxa-saquismo”, pensamento que sempre teve coerência em sua vida.

“ Além do relacionamento profissional com o Elio também tinhamos uma grande amizade pessoal. Amigo é uma palavra que deve ser usada com muito cuidado. Nâo, porém, em relação ao Elio. Quem teve a sorte de tê-lo como amigo, sabe do que estou falando. Elio sempre foi muito franco, sem frescura, como dizia. Por isso, também gostaria de ser franco com ele. Maior que lamentar a sua perda, é ter a alegria dele ter existido”.

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Depoimento de Neusa Palmieri

Meu mestre, meu amigo, meu pai e meu filho. Este é o significado de Elio Palumbo na minha vida profissional e pessoal. Eu o conheci em 1978, quando fui para a Exclam para ser sua assistente. No começo, o trabalho foi muito complicado porque eu não entendia nada do que ele falava, misturando espanhol com italiano e português. Ele me passava os “roughs” e eu finalizava os “lay-outs”. Quando estava tudo pronto, feito com o maior capricho, eu ia até a mesa dele e perguntava:

– Está bom Elio?
Ele respondia:
– Está “una” bosta!
Eu voltava para minha mesa, furiosa, amassava tudo e começava de novo. De repente, ele chegava e perguntava:
– “Donde” está o layut?
– Estou fazendo novamente…

Então ele dizia que era brincadeira; que só queria ver a minha cara. Depois de passar por vários apuros, e refazer muitos “lay-outs”, acabei me acostumando e passei a adorar as suas brincadeiras. Me lembro o quanto eu ficava admirada com o domínio que ele tinha usando o papel, as tintas e o bico de pena. Sua mão deslizava desenhando letras maravilhosas. Era impressionante o que ele conseguia fazer. Era uma habilidade de dar inveja a qualquer pessoa que ficasse observando.

Para mim, assim como para muitos profissionais que hoje estão trabalhando no mercado, ele foi um grande mestre. O Elio que aprendi a conhecer – e até a imitar seus palavrões – foi uma das pessoas mais importantes na minha vida. Era super amigo e estava sempre presente. Ele foi meu padrinho de casamento, nunca esqueceu a data do meu aniversário, não faltou a nenhum aniversário dos meus filhos e só sei que está fazendo muita falta.

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