Neste ano, a Patricia e o Joaquin foram os correspondentes da abc em Cannes. Eles ficaram por dentro de tudo que rolava de mais interessante na área do design para contar em primeira mão para gente. Foram dias de Periscopes ao vivo direto de Cannes, assista aos vídeos:

Dia 20 de junho

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Dia 21 de junho

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Dia 22 de junho

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Dia 23 de junho

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Dia 24 de junho

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Além de duas reflexões feitas ao longo da premiação aqui no site da abc!

Para fechar com chave de ouro a cobertura de Cannes da abc, a Patricia e o Joaquin, pontuaram os altos e baixos do festival:

 

Autores: Joaquin Fernandez Presas e Patricia Piana Presas, designers e sócios da Pontodesign 

Cannes Lions Festival. Que dizer dele? É o maior Festival de Criatividade do mundo. Para dar uma escala este ano foram mais de 15 mil participantes, de 95 países diferentes e 43.101 peças inscritas.

O Festival é uma experiência totalmente envolvente. Não é algo que você consiga “ir de leve”. Durante Cannes você se torna escravo do relógio, correndo de uma palestra para outra, com direito a 10 minutos parado na fila, entre elas.

Você irá passar os 8 dias do festival com a incômoda sensação de que você está perdendo algo bem legal, seja uma palestra, uma conversa, conhecer pessoas novas e/ou reencontrar os amigos. Por exemplo, em um determinado momento tive que escolher entre ver o Iggy Pop ou assistir uma das palestras que mais queria ver sobre design. Resumo, mesmo que a palestra onde você está seja boa, você sempre irá sentir que está perdendo algo, pois são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

E como todo final de tarde os trabalhos no ‘Palais des Festivals’ se encerram com um happy hour regado a muita cerveja e rosé, a transição dos trabalhos do dia para as festas da noite, acaba sendo imperceptível e quando você se dá conta, já são duas da manhã, você está pregado e sabe que terá que acordar cedo…

Por isso que só agora, depois de eu e a Patricia nos sincronizarmos ao fuso horário e ao frio de Curitiba, é que conseguimos colocar as ideias no lugar, refletir e escrever nossas conclusões pessoais, sobre Cannes 2016, na ótica de um designer gráfico.

Para facilitar a expressão de nossa opinião, vou iniciar os tópicos sempre apontando se achamos bom ou ruim, depois vou tentar dizer o porquê.  Só uma coisa antes de começar: acho relevante dizer que este é nosso terceiro festival, então algumas coisas não impressionam tanto e outras coisas chamam mais a nossa atenção. Em suma, são conclusões pessoais, então ninguém é obrigado a tomar como verdadeiras, inclusive, adoraria discutir sobre elas : -)

 

BOM: Cannes Lions é SIM um prêmio de Design.

Para quem nunca foi, algumas infos: não existe a exposição para o público de todos os trabalhos inscritos em cada categoria. Para ver todos os trabalhos você precisa consultar um a um em tablets disponíveis no salão inferior do Palais. O que existe é a exposição dos trabalhos selecionados para o Short List, no caso de design, são expostas as pranchas.

Passeando por esta exposição posso afirmar, sem sobra de dúvida, que é, sim, uma exposição de trabalhos de design. São trabalhos de criação de marcas, de algumas tipografias, alguns livros e calendários, tem embalagem e também tem muito cartaz. Enfim, percebemos que é, basicamente, uma exposição de design gráfico.

MAS (sempre tem um “mas” né?! eheheh) tem também um monte de outros trabalhos que são mais complicados de categorizar. Só sei que não concordo com a categorização que o festival dá, ou aceita que as agências deem.  Só para dar argumento à crítica e incentivar a polêmica, vejam esse exemplo: a prancha hoverboard, criada pela agência Chi & Partners London, para a Lexus, que levou Leão de Prata, foi classificada em item promocional.

Vejam o case e me digam, vocês concordam?!?

 

RUIM, muuuuito RUIM: Cannes Lions não premia escritórios de Design.

Como é uma “acusação” delicada (e sei que posso estar errado) passei duas horas estudando a lista de premiados e levantando quais prêmios são, efetivamente, assinados por Escritórios de Design. Inclusive, visitei os sites de empresas que não conheço de nome para saber se eram ou não empresas de design.

E nossa pesquisa mostrou o seguinte: dos 111 Leões que foram dados na categoria Design, em 2016, apenas 5 foram para empresas exclusivamente da área de design: a Landor, com o projeto 20/80; a Interbrand Austrália, com o brilhante trabalho para a Opera House de Sydney, e as Japonesa Taku Satoh Design Office, com a série de posters Pleats Please Issey Miyake Animals e a Iyamadesign com a exposição para Masking Tape. Não sei quanto a vocês, mas para mim – um dono de escritório de design – isso é muuuuito pouco.

Para não ficar só na critica, gostaria de complementar com outra opinião nossa (minha e da Patricia). Nas três idas a Cannes tivemos a oportunidade de participar de uma conversa fechada com jurados da categoria de Design, sempre no dia depois da conclusão do julgamento. Esta questão – o baixo número de escritório de design premiados – é sempre um assunto muito comentado e, todos os anos, os diferentes jurados com quem falamos reportam sempre a mesma coisa: as agências de publicidade sabem apresentar e defender muito bem os seus trabalhos.

E uma frase que um jurado inglês disse para mim nesse encontro em 2015 martela na minha mente até hoje: “Nós não estamos aqui para julgar o que achamos que eles queriam e conseguiram fazer. Estamos aqui para julgar o que nos foi apresentado. Por isso a capacidade comunicativa dos trabalhos das agências de publicidade faz diferença”.

Enfim, isto é uma questão que acho que deveria ser muito conversada entre nós, designers, pois o que o jurado inglês disse naquele ano faz muito sentido (para mim) e não consigo pensar em argumentos fortes o bastante para derrubar o que ele disse.

 

BOM: Cannes valoriza a grande ideia.

Ressalvando a questão dita acima, que se avalia o que se conseguiu comunicar e nem sempre o que realmente é o projeto. Olhando os premiados, fica claro que sempre existe uma boa ideia por trás.

Com certeza existe muito, mas muito espaço para discussão se um trabalho deveria ter entrado no short list e/ou porque outro trabalho entrou, mas a maioria das peças premiadas tem uma ideia forte por trás.

Algumas coisas chamam muito a atenção, seja pela execução, que é sempre primorosa, mas principalmente, pela ideia. Tem coisas que eu nunca tinha imaginado que eram possíveis, como o Projeto Type Voice, da Ogilvy One de New York, para o Webby Awards que levou Leão de Prata:

 

RUIM: Cannes supervaloriza trabalhos “não comerciais”

Hehehehe, não sei se posso afirmar isso, mas é a sensação que fica e a lista dos premiados reforça essa impressão.

Não posso dizer que se supervaloriza o trabalho de causas sociais, filantrópicas ou “coisas para o bem” ou se se desvaloriza o bom e velho trabalho comercial.

Ao dizer isso posso estar parecendo “insensível” e “dinheirista”, mas tenho que dizer isso, pois me incomoda essa “aparente” dificuldade em premiar marcas comerciais.

Sou dono de uma empresa de design e ao mesmo tempo sonho em fazer trabalhos brilhantes, preciso ajudar meus clientes a resolver seus problemas e fazer seus negócios “girarem”.

Inclusive, faço um comentário. Percebi que na publicidade (que também era assim) este ano mudou um pouco, vi menos coisas feitas de graça para organizações “do bem” e mais coisas “normais” feitas para empresas reais venderem mais.

 

BOM, muuuuito BOMM: A importância da parceria cliente-agência é evidente.

Já tinha sentido isso ano passado e este ano isso foi muito evidente. Muitos dos grandes trabalhos foram projetos onde cliente e agência trabalharam muito bem juntos na definição do que iria ser feito, como deveria ser feito e, muitas vezes isso tinha idas, vindas e erros e nem por isso, os projetos foram abandonados.

Fico muito feliz por isso e, com certeza, vou manda vários links de trabalhos que tiveram essa dinâmica para os meus clientes. Minha felicidade se deve simplesmente ao fato de que acho impossível conseguir um grande resultado se o briefing criado pelo cliente vem por e-mail, é imutável e tem que ser seguido à risca. Na Pontodesign, pelo menos, NUNCA tivemos algo premiado que tenha sido feito desta forma. Bons trabalhos nascem com o envolvimento do cliente no projeto e com espaço para que o escritório tente, teste e se achar que deve, mude de rota.

Para exemplificar que esta parceria é fundamental comento algumas coisas. O Grand Prix de Design – Life is Electric, criado pela Dentsu para a Panasonic que começou com um briefing totalmente aberto e demorou três anos (isso mesmo, 3 anos!!) para chegar ao que foi apresentado:

 

E isso é cada vez mais presente em todas as categorias. O Grand Prix de Titanium o prêmio foi para “Opt Outside”, para a empresa REI (https://www.youtube.com/watch?v=FOVaEawGNMM), que tinha como essência a difícil decisão de fechar as portas durante a Back Friday. Essa ideia saiu das 3 agências que atendem o cliente – a de comunicação, de RP e a digital. Pergunto se sem essa parceria entre agência e cliente, essa ação seria viabilizada? Na publicidade tradicional também está claríssimo isso.

Na palestra da Droga 5, foi super claro de perceber que a relação entre ele (agência) e o dono da Under Armor (cliente) é impressionante. É evidente que os resultados que eles estão tendo está fundamentado nos pilares da sinergia imensa entre eles. Só pra situar, ano passado a campanha que tinha a Giselle Bundchen como estrela, ganhou o Grand Prix e este ano levou Leão de Ouro com o filme que estrela Michel Phelps: https://www.youtube.com/watch?v=1l4ox-N3kcA

Pessoal, eu poderia ficar aqui escrevendo por horas a fio, mas acho que já perdi grande parte dos leitores, então vou comentar por alto outras coisas que me chamaram a atenção e gostaria de falar.

 

Inteligência Artificial: Ano passado, com a criação do Cannes Innovation, isso começou a aparecer mais e mais. Sinceramente, não dei muita bola. Mas este ano me assustou um pouco, pois foi apresentado um comercial dirigido exclusivamente por uma Inteligência Artificial. SIM, isso mesmo. Um computador dirigiu um comercial. Vejam aqui e comecem a pensar como será o futuro onde o trabalho criativo poderá ser feito por computadores:

 

VR ou RV (realidade virtual): Novamente, vi isso pela primeira vez no Cannes 2015. Mais uma vez, não dei muita bola. Pensei comigo, é coisa para “gamer”… hehehe… bobinho eu.

O que vi este ano me leva e dizer que em muito pouco tempo a realidade virtual irá chegar ao “mainstream”.

Sei que ainda vamos ouvir muito disso, mas muito mudou do ano passado para cá. Temos o barateamento e melhoria dos óculos (um muito bom da Samsung custa em torno de U$ 99,00) e, graças ao Google Cardboard os óculos de VR em papelão são bens comuns. Além disso, temos a produção de mais e mais conteúdo e principalmente o Youtube já veicula vídeos com a opção de assisti-los em VR. Mas para mim, o mais marcante para me levar a dizer que isto chegará ao “mainsteram” é o prêmio que o New York Times ganhou com a reportagem “Displaced”. Acredite, uma reportagem jornalística ganhar prêmio em Cannes é muito difícil, agora uma reportagem ganhar um Grand Prix é algo realmente único e merece ser visto. Conheçam o case:

Outra coisa que acho que vale a pena ver (especialmente se você tem os óculos) é o filme da “releitura” da obra de Salvador Dali em VR. Mas se você não tem os óculos fique mexendo nas setas no canto superior esquerdo da tela. É impressionante:

 

Enfim pessoal, como disse eu teria muito mais para dizer. Espero que tenham gostado e, aceitamos críticas e discussões.

Abraços

Joaquin Fernandez Presas e Patricia Piana Presas

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