O oriente médio para muitos ainda é um mistério. Uma cultura, valores e relações completamente distintos dos nossos, aqui no ocidente. Mas esse ano, o Icograda tentou desvendar alguns desses mistérios, aproximando as palavras design e oriente, no Mousharaka Icograda Desig Week.

Uma das iniciativas do Conselho Internacional foi entregar bolsas para estudantes de diversas nacionalidades para que eles vivenciassem a cultura do Qatar. Aqui do Brasil, tivemos a Estelle Flores, estudante de design de Curitiba como representante, e ela resolveu dividir um pouco dessa experiência com a gente.

Estelle foi sozinha ao Qatar, mas chegando lá teve a oportunidade de conhecer pessoas das mais diferentes naturezas. “Havia até um garoto do Zimbabwe que, assustado quando eu disse que eu nunca havia visto um leão, me disse que seu vizinho criava leões no quintal, lembra ela com bom humor. “Mas é bem conhecer essas pessoas, culturas, universos diferentes que é o mais enriquecedor em viagens”.

De diferente, também, foi a cozinha do Oriente Médio, que Estelle confessa ter estranhado. “Foram raros os dias em que eu comi bem. O almoço e milhões de coffeebreaks eram oferecidos pelo evento, mas a comida lá era boa 1 de cada 7 vezes. Comidas indianas, para nós, acho, têm uma aparência duvidosa. Nos restaurantes era mais interessante, mas as minhas melhores refeições lá foram aquele McTasty e o dia que eu tomei uma sopa de tomate ^^”. Mas de modo geral, era interessante… todo dia coisas novas”.

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A cidade de Doha, capital do Qatar, Estelle descreveu usando termos construção (me lembrou o Tyler e a Flavia descrevendo a China). “O Qatar deixa claro aos seus visitantes sua pretensão de ser gigante, sinais de investimento massivo estão por toda parte, mas ainda é muito cedo para colher seus frutos”.

Como na China, o investimento por ser grande gera também alta demanda de mão de obra. No entanto a educação ainda não acompanha a demanda, e a “importação” de profissionais é alta. “Conversando com profissionais locais, percebemos muitos sequer falam árabe. As empresas Qataris estão acostumadas a pagar um preço alto por essa qualidade estrangeira e oferecem benefícios tentadores. Para se ter uma idéia, o salário médio de um estagiário de design no Qatar se equipara aos salários de um designer pleno no Brasil. No entanto, esse é o preço que se paga para que um estrangeiro se acostume a viver dentro de uma sociedade muito diferente, que é infinitamente interessante quando você está de passagem, mas que pode não ser tão legal para viver por tempo indeterminado”.

A estudante não chegou a conhecer nenhum escritório de design no Qatar, e constatou que é um país com uma recente história design gráfico, e sem um movimento próprio e fértil. “O que é bom no design Qatari está sendo feito agora ou em uma margem de tempo consideravelmente recente, apresentando marcas cosmopolitas de qualquer outro design, seja ele americano ou alemão, com algumas exceções que incorporam algumas referências locais”.

Os palestrantes do evento do Icograda também foram, em sua maioria, estrangeiros. Entre os preferido de Estelle estiveram Mark Kingwell, professor de filosofia de Toronto e o designer Brocket Horne.

Kingwell abordou a cidade como uma obra espontânea dos próprios cidadãos, na palestra “The City as Collaborative Artwork”. Horne, em “NO CLIENT: Five Ways Designers Are Changing Their Practice and The World”, falou sobre um novo modo de educar, algo que, segundo Estelle permeou todo o evento.  “Brocket Horne colocou em palavras uma questão que sempre me intrigou: se existem tantos problemas que o design pode resolver no mundo, porque os professores sempre passam jobs fictícios aos seus alunos? porque recém-formados saem da faculdade sem nunca terem de fato produzido suas criações, industrialmente, em larga escala? Nessa mesma palestra, Horne além de propor um novo sistema de ensino (que ele já põe em prática no curso que coordena), traçou um passo-a-passo de como sobreviver no mercado sem possuir clientes.

Estelle também destacou a palestra do Dr. Sami Mohsen Angawi e seu filho, que descreveu como inspiradora de respeito e admiração. “Ele falou sobre o design local e a mistura de referências regionais e mundiais dentro de seu trabalho”.

Mas nem tudo foi solene. A diversão foi garantida pelos amigos de várias nacionalidades e as aventuras pelo Qatar. “Vimos uma apresentação emocionante apresentação do Delaware, uma banda japonesa de música eletrônica que mistura estímulos visuais dentro de sua música, saímos por alguns bares para tomar cervejas a preços exorbitantes, ‘invadimos’ praias privativas durante a madrugada e, claro, fumamos muito narguilé”.

Depois de uma experiência em um país tão diferente, era inevitável que Estelle voltasse com alguma referência visual de uma cultura tão de rica. “Para mim, ficou a imagem do deserto, a cidade incrustada no deserto, a tempestade de areia, as roupas, culturas locais e a arquitetura. A paleta de cores do Qatar, milhões de tons de areia, tudo sem saturação, deixou um pouco de influência no meu trabalho. Acho que consegui ver beleza e um “q” de místico na falta de contraste entre cores”.

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(Todas as fotos e trabalhos aqui apresentados são de autoria da Estelle: http://www.flickr.com/photos/estellef)

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