tipografia romana

Tipografia Romana

Ericson Straub

A autora Beatrice Warde, já dizia que a tipografia é a voz da página. Em um mundo onde a informação se torna cada vez mais preciosa, sabemos que a importância da tipografia ultrapassa os limites de livros e materiais impressos. Talvez possamos dizer que hoje a tipografia é a voz de um mundo que fala por sinais, signos e palavras. Porém, mais que apenas um elemento que materializa os significados, a tipografia, ou a arte e o processo de criação de caracteres, sempre esteve ligada à cultura e à identidade dos povos que tinham inscritas algumas de suas características em seus tipos específicos de escrita.

Naturalmente, assim como na própria essência do design de objetos, a escrita nasceu da necessidade do homem de poder se comunicar e transmitir informações e conhecimento. Quanto mais o homem se organizava em grupos sociais e evoluía, mais necessitava de um sistema de escrita eficiente para poder registrar suas normas sociais, seus escambos e, no caso dos governos, seus impostos e taxas. No ano 3.400 a.C., os sumérios criaram um sistema de escrita rudimentar chamado cuneiforme. Esse sistema era baseado na formação de conjuntos silábicos, compostos por mais de 600 signos, que representavam objetos. O modelo influenciou, principalmente, os assírios e babilônios.Com o passar do tempo, esses povos simplificaram o sistema, acrescentando novos signos de acordo com a cultura local.

Com a expansão comercial e as expedições militares, esse sistema de escrita foi levado a outras regiões e povos do oriente. Por volta do ano 1.300 a.C., os fenícios desenvolvem o primeiro sistema alfabético de escrita, composto por 22 letras que, de forma abstrata e simples, tinham equivalência fonética com os sinais. Segundo Tubaro (1994), o alfabeto fenício é a base de praticamente todos os alfabetos que deram origem à escrita da grande maioria dos povos. Sua influência vai desde os semíticos setentrionais como o hebreu, sírio, árabe, armênio e mongol, até o etíope, amárico, coreano, birmano, javanês, cingalês, hindu e sânscrito, chegando ao grego e ao latim.

Para os gregos, o idioma e a escrita tinham valor fundamental em sua cultura, representando sua principal forma de ligação e unidade, o que superava, em importância, até mesmo o espaço geográfico que a eles pertencia. Prova disso são os inúmeros teatros e praças públicas onde expressavam suas idéia. O grego antigo tinha como base o alfabeto fenício e começou a ser difundido por volta do ano 900 a.C. A partir da escrita grega é que foi introduzida a direção da esquerda para a direita como forma de gravar as letras. Estas, por sua vez, também possuíam uma forma geométrica e regular, utilizando ângulos retos em seus desenhos.

Neste sentido, a estética grega, demonstrada claramente na escultura e na arquitetura, era também aplicada na tipografia, definida por cânones de harmonia e simetria. A disciplina grega facilitava a repetição e a multiplicação seriada das imagens simbólico-informativas. Essas imagens tomavam como modelo canônico a relação de proporção e simetria do corpo humano. Para Satué (1988), toda a estética grega, representada por sua arquitetura, escultura e tipografia, trazia em sua essência uma rigorosa organização em torno de um programa de comunicação intencional.

Tipografia Sumério

Tipografia Suméria

Apesar dos antecedentes do desenho tipográfico estarem ligados a Grécia, foram os romanos, sem dúvida, que deram um status de importância e extraordinária beleza à tipografia. Deve-se lembrar que, em toda a Antigüidade, a tipografia esteve diretamente ligada à gravação sobre pedras, suporte que existia em abundância. Assim como ocorreu no mundo grego, a importância e o status da tipografia romana se consolidaram a partir de necessidades práticas do estado romano. Para que pudessem ser cumpridas, as leis editadas pelo Senado deviam ser rapidamente enviadas às colônias espalhadas pelo extenso império. Essas leis eram então gravadas em grandes lápides de pedra e colocadas em locais públicos em cada colônia. Naturalmente, era necessária uma tipografia que pudesse ser escrita por meio de um modelo, proporcionando identidade ao império. Conta-se que Júlio César, prestes a dar seu golpe de estado, decretou que os atos do senado seriam divulgados semanalmente, como forma de ridicularizar os senadores pouco afeitos ao trabalho (qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência).

Sem desconsiderar a influência e a dependência romana em relação aos modelos gregos, é preciso admitir que a tipografia evoluiu e se tornou uma das principais marcas do império. Para Satué (1988), a frieza da escultura romana diante da emoção da escultura grega favoreceu o tratamento dos signos de comunicação e objetos simbólicos públicos, incluindo também a tipografia. Jan Tschichold definiu a coluna de Trajano, construída no ano 114, como o melhor catálogo de letras existente, agregando harmonia, claridade e equilíbrio com a composição espacial. Os elementos arquitetônicos públicos, bem como a tipografia romana, tiveram um papel fundamental na determinação de um também rigoroso programa de comunicação intencional difundido por todo o império. Como já tive a oportunidade de escrever no artigo a respeito de Marcas, publicado na edição Nº 2 da ABCDesign, os objetos simbólicos romanos tinham a valiosa função de demarcar uma região, assim como os animais silvestres demarcam seu espaço com a própria urina, caracterizando sua marca mais pessoal e o domínio do território. Talvez isso explique o fato de alguns aquedutos e monumentos romanos estarem localizados, muitas vezes, em regiões que não tinham importância significativa para o império.

A partir da Idade Média, um novo universo simbólico, determinado pela Igreja Católica, assumia o poder. Para isso, foi criada também uma nova tipografia, a uncial, de acordo com as novas ideologias, rompendo totalmente com o passado pagão romano expresso em seus templos e sua estética. A tipografia da Europa feudal se encaminhava para os principais centros de cultura da época: os mosteiros. Suportes como o pergaminho, utilizados na confecção de bíblias, necessitavam de uma tipografia que facilitasse a confecção a partir de tinta e penas cortadas em seção. Mais uma vez a tipografia passou a integrar um importante programa de símbolos gráficos de um período histórico. A propósito, Satué (1988) afirma que as melhores realizações nos programas de identidade a serviço do totalitarismo foram produzidas na Europa feudal e na Alemanha nazista.

O que se percebe é que, até a invenção da imprensa, os desenhos de tipos geralmente surgiam em função de necessidades específicas e, com o passar do tempo, passavam a fazer parte dos intensos programas de símbolos e identidade aplicados pelas diversas instituições. No entanto, no século VIII, Carlos Magno, o soberano francês que conseguiu estabelecer a unidade na Europa feudal – que se encontrava despedaçada -, determinou que fosse desenhada uma tipografia única, visando demonstrar a imponência e a magnitude de seu império. Surgiu, então, a minúscula carolíngia. Essa tipografia naturalmente continuou mantendo a estética da uncial com diferenciais próprios em sua forma.

Carlos Magno também desenhou seu próprio monograma com suas iniciais, em forma de anel, com o qual assinava os documentos reais. O fato é que Carlos Magno se tornou o mais importante soberano da Europa medieval, sendo o responsável pelo restabelecimento de uma nova ordem social e cultural que resgataria a força da Europa no cenário mundial. A Igreja, então, apercebeu-se da importância da tipografia como símbolo gráfico e de identidade. Antes de Carlos Magno, por volta do século VI, já tinham surgido novas modalidades tipográficas em mosteiros de diferentes regiões da Europa, tais como a beneventiana, a merovíngia e a irlandesa. Esses tipos também funcionavam como uma marca de cada instituição, agregando aspectos culturais das regiões onde estavam situados os mosteiros.

Tipografia Fenício

Tipografia Fenícia

A partir do século X, novas perspectivas se abriram para a Europa, alavancadas, principalmente, pelas cruzadas e pelo comércio com outras regiões. A expansão comercial e cultural testemunhou o nascimento de importantes cidades. Naquele período, surgiram também as primeiras universidades. E, junto com elas, vinha a necessidade de uma maior produção de manuscritos. Num universo de mudanças sociais e culturais, a forma da escrita também começava a se moldar para uma nova realidade. Influenciada pela carolíngia e pela estética gótica, ligada aos antigos povos bárbaros que haviam se cristianizado – deixando sua herança estética materializada em imensas catedrais pontiagudas – , surgiu a tipografia gótica.

Seguindo os mesmo conceitos estéticos da arquitetura , a tipografia gótica tinha uma disposição rigorosa: módulos repetitivos verticais, ângulos acentuados programas de identidade a serviço do totalitarismo foram produzidas na Europa feudal e na Alemanha nazista.

O que se percebe é que, até a invenção da imprensa, os desenhos de tipos geralmente surgiam em função de necessidades específicas e, com o passar do tempo, passavam a fazer parte dos intensos programas de símbolos e identidade aplicados pelas diversas instituições. No entanto, no século VIII, Carlos Magno, o soberano francês que conseguiu estabelecer a unidade na Europa feudal – que se encontrava despedaçada -, determinou que fosse desenhada uma tipografia única, visando demonstrar a imponência e a magnitude de seu império. Surgiu, então, a minúscula carolíngia. Essa tipografia naturalmente continuou mantendo a estética da uncial com diferenciais próprios em sua forma.

Carlos Magno também desenhou seu próprio monograma com suas iniciais, em forma de anel, com o qual assinava os documentos reais. O fato é que Carlos Magno se tornou o mais importante soberano da Europa medieval, sendo o responsável pelo restabelecimento de uma nova ordem social e cultural que resgataria a força da Europa no cenário mundial. A Igreja, então, apercebeu-se da importância da tipografia como símbolo gráfico e de identidade. Antes de Carlos Magno, por volta do século VI, já tinham surgido novas modalidades tipográficas em mosteiros de diferentes regiões da Europa, tais como a beneventiana, a merovíngia e a irlandesa. Esses tipos também funcionavam como uma marca de cada instituição, agregando aspectos culturais das regiões onde estavam situados os mosteiros.

A partir do século X, novas perspectivas se abriram para a Europa, alavancadas, principalmente, pelas cruzadas e pelo comércio com outras regiões. A expansão comercial e cultural testemunhou o nascimento de importantes cidades. Naquele período, surgiram também as primeiras universidades. E, junto com elas, vinha a necessidade de uma maior produção de manuscritos. Num universo de mudanças sociais e culturais, a forma da escrita também começava a se moldar para uma nova realidade. Influenciada pela carolíngia e pela estética gótica, ligada aos antigos povos bárbaros que haviam se cristianizado – deixando sua herança estética materializada em imensas catedrais pontiagudas – , surgiu a tipografia gótica.

Tipografia Grego

Tipografia Grega

Seguindo os mesmo conceitos estéticos da arquitetura , a tipografia gótica tinha uma disposição rigorosa: módulos repetitivos verticais, ângulos acentuados e terminações pontiagudas. Ela se difundiu na Alemanha, a partir do século XV, dando origem a inúmeros outros tipos com desenhos mais populares que facilitavam a reprodução rápida. Sem dúvida, a tipografia gótica merece uma atenção especial quando se trata de ligação com aspectos culturais. Afinal, ela talvez tenha sido um dos maiores símbolos gráficos da cultura germânica, ao longo de séculos, expressando, em sua estética, muitas das características do povo germânico. Gutenberg usou tipos góticos para compor sua famosa Bíblia de 42 linhas, impressa em 1450.

Ao inventar a imprensa com tipos móveis, Gutenberg não tinha idéia de que sua criação revolucionaria a humanidade. Afinal, não se tratava apenas de um novo método de produção, mas começava a se desenhar a possibilidade da democratização do conhecimento. Assim, a invenção de Gutenberg viria a influenciar e ter função ativa em todos os grandes eventos sociais, políticos e culturais que aconteceram nos séculos seguintes. Naturalmente, após a invenção da imprensa, a tipografia seguiu uma nova trajetória estética, ligada ao Renascimento e aos ideais clássicos. Porém, por sua importância, profundidade e abrangência, este assunto exige uma nova e ampla abordagem, tema que exigiria um espaço muito maior do que aquele que dispomos para este artigo.

Alguns autores afirmam que o desenho tipográfico só teve início depois da invenção da imprensa. Eu, particularmente, entendo que a partir da existência de métodos de construção, começou também a existir o desenho tipográfico. Sendo assim, toda a trajetória histórica dos antecedentes do desenho tipográfico demonstra que a escrita e a tipografia sempre estiveram ligadas à necessidade do ser humano de se comunicar e de deixar registros de suas atividades. Porém, a tipografia sempre demonstrou uma estreita relação com o universo cultural e regional no qual estava inserida, distinguindo e proporcionando características únicas.

Segundo Villas Boas (2000), cada cultura possui uma singularidade intrínseca. Ainda segundo o autor, ela possui uma autenticidade potencial que a distingue, justifica e legitima enquanto cultura. Mais do que isso, esta cultura está vinculada a um sistema de representação único e singular em relação a outros. Não se pode esquecer que, acima de tudo, o design possui funções bem definidas, estabelecidas pelas necessidades uma instituição, povo ou nação.

A tipografia não é somente algo que nos serve como elemento funcional para a transmissão de informações. Ao contrário, possui seu valor do mesmo modo que uma marca faz parte da identidade de uma instituição. Além de seus valores funcionais, a tipografia também pode conter um universo simbólico que reflete determinados períodos, culturas ou mesmo personificar a informação.

Para saber mais:

BLACKWELL, Lewis – Tipografia del siglo XX. Gustavo Gilli – Barcelona, 1987.

FEBVRE, Lucien – O aparecimento do livro – Editora Unesp, 1992 – São Paulo.

FILLI, Louise e Steven Heller – Typology. Type design from the Victorian era to the digital age. Chronicle Books, São Francisco, 1999.

GOTTSCHALL, Edward M. – Typographic Communications Today. The MIT Press, Londres, 1989.

MAcLEAN, Ruari – Typography. Thames and Hudson. Londres, 1980.

TSCHICHOLD, Jan – The New Typography – University of California Press – Berlim/Londres, 1987.

TUBARO, Antonio e Ivana – Tipografia. Estudios e Investigaciones sobre la forma de la escritura y del estilo de impresión. Universidad de Palermo – 1994.

SATUÉ, Enric – El disenõ gráfico. Alianza Forma, Madri, 1988.

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