Ericson Straub

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A vida e a arte de Tide Hellmeister, o grande mestre brasileiro da colagem, do jeito que ele prefere revelar: sem formalidades, sem muitos detalhes, contendo apenas a essência com boas doses de colagem.

“Predestinado, desde sempre, à colagem”. É assim que o crítico Frederico Morais define o mestre Tide Hellmeister. Quando criança, Tide fez seus primeiros desenhos puxando e repuxando a fina pele das mãos da idosa madrinha. Já a produção de colagens começou quando ele ainda era um moleque. O ansioso Tide, que não tinha a menor paciência para esperar a tinta a óleo secar, até tentou fazer um curso no Instituto Nobel, mas desistiu por não suportar a obrigação de desenhar o mesmo busto de mulher todos os dias.

Sem as muletas da teoria, Tide continuou a colar, mas sempre com medo de mostrar seus trabalhos ao público. Então, rasgava e jogava fora tudo que criava. Um dos dias mais felizes de sua vida foi quando o consagrado e revolucionário artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee viu um de seus trabalhos e, pessoalmente, o incentivou a continuar colando. Em compensação, sua família detestava todas aquelas colagens que, segundo Frederico Morais, “parecem verdadeiros monstrinhos domesticados”.

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Enquanto duelava com seus fantasmas internos e aperfeiçoava a sua arte, Tide realizou diversos trabalhos, sempre ligados à produção visual ou gráfica. Aos 17 anos já trabalhava nos cenários de Cyro del Nero, na TV Excelsior. Atuou como capista e programador visual na editora de Massao Ohno. Foi diagramador e editor de arte, participou da reforma gráfica de vários jornais brasileiros (entre eles, o Jornal da Tarde), cuidou da “arquitetura gráfica” de livros e catálogos de arte editados pelo Banco Novo Mundo, fez capas de livros, ilustrações e um sem-número de trabalhos gráficos. Além disso foi o ilustrador da coluna do Paulo Francis na Folha de São Paulo durante 10 anos.

Em todas as criações, a singularidade, a competência e a ousadia eram suas marcas inconfundíveis e lhe renderam muitos prêmios no Brasil e no exterior. A primeira exposição individual de seu trabalho com colagem ocorreu em 1963, como parte da Primeira Exposição de Poesia Ilustrada, e mostrava 12 imensos painéis de 3m x 1m. Mais de 40 anos depois, sem jamais se desgrudar da colagem, Tide é considerado um virtuose.

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Os traços de genialidade encontram vazão na personalidade libertária do homem que jamais deixou de ser criança e, por isso mesmo, vive buscando o novo, vive interessado nas coisas do mundo, segundo sua leitura sempre particular e inovadora. “Eu sou um grude”, diz ele numa tentativa sincera e divertida de autodefinição. Está certo: grude tem cola, cola remete à colagem e isso é a essência de Tide Hellmeister. O homem capaz de se reinventar e reinventar a arte – o tempo todo – é considerado, por unanimidade, o grande estimulador e defensor da colagem como arte maior no Brasil. Mas ele não liga muito para títulos. Precisa seguir colando.

Tide Hellmeister: útil inútil

Texto contribuição: Claudio Ferlauto

Tide Hellmeister preparou, especialmente para a abcDesign, uma mostra dinâmica e divertida de seus trabalhos mais recentes. Quando se fala em “especialmente” sobre o Tide deve ser entender no sentido literal do termo.

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Ele se debruçou sobre sua obra e buscou nela o que, nesse momento, acha que tem de melhor neste momento e preparou pequenas e grandes peças para o nosso olhar. São coisas divertidas, criativas e indagadoras dentro da tradição do útil [design] e do inútil [arte].

Sua visão atual da arte, da colagem e do design editorial vem a corroborar sua maestria dentro das artes gráficas brasileiras. Em tempos de muita criação eletrônica, ele propõe o gestual e o genial. No meio das fórmulas prontas, ele identifica formas de ponta: uma vanguarda rebelde e atemporal, sem photoshops e sem templates. Arte “desplugada”, mas não desligada. Participante e interessante.

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Se um dia seu sinal particular esteve nos manuscritos de textos e nos detalhes ampliados, dúbios ou duplos, é uma caligrafia pela caligrafia, cuja escritura não carrega conteúdos verbais e que, no passado, o crítico Frederico Morais chamou de “textos inúteis”. Hoje a atenção de Tide Hellmeister está voltada – entre tantas coisas – para um certo design foto-tipo-gráfico e, ainda, para uma arte calcada na técnica e na imaginação.

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