Faltam quarenta minutos para Fulano sair da agência, onde ocupa aquele cargo para o qual tanto estudou e batalhou durante anos. Olha para o relógio, disfarça a ansiedade, concentra-se no jazz que só toca em seus ouvidos e responde aos três e-mails mais importantes do dia. É preciso cumprir o cronograma. Oito horas de sono, oito horas de trabalho, oito horas “livres” para descansar e enfrentar outro dia desafiador e gratificante de labor. Mas como o prazo apertou, Fulano ainda precisa falar com Beltrano antes de voltar para casa.

Beltrano orgulha-se de não ter emprego fixo, esta labuta compassada e tediosa de Fulano. Seu chefe é seu smartphone, que o mantém sempre à disposição para quem precisa de alto rendimento em curto prazo. Ao invés de bens materiais, prefere manter e ampliar um “capital humano” de bons contatos. Mas como nem sempre a maré está alta, Beltrano também vende palestras e workshops sobre por que trabalhar não deveria ser entediante, e como estamos alienados por uma sociedade doentia baseada na culpa e na lógica da dívida/crédito.

Tanto a vida de Beltrano quanto a de Fulano não são nada entediantes. Ambos possuem a sensação de que, por meio do trabalho, tudo é possível. Ora, se é preciso dinheiro para sobreviver, gostar de trabalhar é o único meio para uma vida feliz. Não gostar de trabalhar é como estar doente, não trabalhar é o mesmo que estar morto. Como lidar com a morte dos outros? Da mesma forma como lidamos com a nossa, relevando-a. “No pain, no gain”.

São necessárias “tintas fortes” para evidenciar o dogma que em nosso cotidiano se prolifera silenciosamente, com perseverança e uma pitada de orgulho: ser e parecer bem-sucedido a todo custo. Não se trata apenas de reconhecimento social, uma vez que todo laço social se sustenta em convenções arbitrárias. O problema é buscar tal reconhecimento a partir de uma noção de trabalho que estaria além das convenções, como parte da natureza humana, como necessidade inelutável. Neste sentido, ser bem-sucedido implica medir o que não tem métrica: a satisfação do outro não tanto em relação à minha, mas em relação à satisfação que o outro reconhece em mim. Esta lacuna é precisamente o que mantém a busca pelo prazer a uma distância segura de sua obtenção. Como foi criada esta lacuna?

Da Idade Média até os dias atuais, o significado de “trabalho” foi homeopaticamente transformado em “necessidade”, sobretudo à medida que produtos passaram a ser fabricados para serem rapidamente vendidos e descartados. A capacidade de compra passou então a ser entendida como via mais digna para obtenção de prazer, conforto e bem-estar, o que se justifica no seguinte acordo: para usufruir a vida, deve-se pagar o tributo do trabalho. Desnecessário dizer que uma esfera interpenetra a outra: trabalho confunde-se com felicidade e o lazer é cada vez mais regrado com base na superação do desempenho do outro.

Com isso, alguns chegam a crer que a antiga divisão social entre os que servem e os que gozam tem se dissolvido mediante a democratização do prestígio (tecnologias do “aparecer”) e do sacrifício performático (autossuperação motivacional). Ao invés de diluição, porém, o que ocorre é uma segmentação democrática da própria lógica de exploração: lute e vença a qualquer custo, nem que para isso você precise fingir gozar. É o slogan do Roberto Justus: quanta dor e humilhação você é  capaz de suportar para ser um(a)  vencedor(a)?

A pergunta forja um mundo que nos parece óbvio: todo risco é válido se o retorno potencial for alto. Afinal, o que temos a perder em meio a um martírio mútuo pautado no estranho dever ético de disputar a glória e a alegria de viver que todo mundo já demonstra usufruir? A jogada básica consiste em emular o gozo para restringir a ameaça do mais-gozar alheio, de modo que qualquer fruição pareça já prevista,  ontingencial. Tem-se a impressão de que todos estão engajados a caminho do sucesso, quando de fato cada um está vigiando o outro.

Deste modo, você não apenas age de acordo com o que as pessoas esperam de você, mas antes segundo o que você espera que as pessoas esperam. A mulher perfeita idealizada pelo homem perfeito é aquela que sonha ser idealizada por aquele, e vice-versa. O desejo de ser desejado desdobra-se em frigidez ou em mais desejo? Combustível do desejo é a importância que a ele atribuímos. Só que as narrativas que buscam sentido para a existência humana se confrontam e geram, pela atual abundância de acesso, ruído e falta de sentido, espécie de niilismo invisível que parece alojar-se por trás de qualquer esperança.

Como escapar deste ciclo perverso? Não tentando efetivamente escapar (a recusa já faz parte do ciclo), nem sequer estabelecendo novas metas a atingir, mas simplesmente despojando a vida de seu suposto tributo ao trabalho. É preciso pagar as contas, mas também é bom ter em mente que um dia o trabalho pode falhar, assim como nosso corpo, nosso amor, nossos valores, nossos vínculos, nossas certezas. O que sobra, caso isso aconteça, é apenas nosso desejo de viver e a possível importância que damos a ele.

Não podemos decidir o que os outros julgam importante, mas podemos conscientemente escolher o que tem ou não importância para nós. Nosso trabalho é tão importante a ponto de determinar o que nossa vida e nossos desejos significam? Trabalhar é menos entediante que viver? Importar-se com a vida é difícil mesmo, pois implica saber que ela não é obra nossa, mas vivê-la como se fosse. Sem obrigação alguma, sem mérito algum. Como dar o primeiro passo de uma mesma história, como um sonho que deseja despertar e continuar sonhando.

Arte por: Fernando Ratis

Compartilhe: