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Célio Teodorico dos Santos

As coisas da natureza, assim como as coisas criadas pelo homem, são carregadas de signos e imprimem significados, determinando uma linguagem impregnada de valores coletivos e individuais, desde aqueles de ordem material até valores de cunho espiritual. Por isso, um objeto extrapola sua forma física, a simples aparência e mesmo as necessidades que levaram à sua concepção.

Este artigo não tem a pretensão de estabelecer uma teoria para a configuração de produtos, mas pretende destacar a importância da conceituação no processo de criação do designer – sublinhando uma intenção ou propósito – com base na teoria da Gestalt e em outros estudos. São experiências e vivências na busca de um design coerente e mais sensitivo.

Um aspecto relevante refere-se aos objetos que retratam o perfil histórico e sócio-cultural de uma região, de um país ou de uma comunidade, provando que além de atender a uma necessidade, por intermédio de uma função, um produto exerce também uma importante função comunicativa, ligada à “linguagem” que pode carregar.

A teoria da linguagem dos produtos qualifica as funções estético-formais como aqueles aspectos que podem ser considerados independentes do significado e de seu conteúdo. De acordo com a terminologia da semiótica, trata-se da diferenciação entre a sintaxe e a semântica (BÜRDEK, 1994). Da mesma forma que acontece com um idioma, existem regras e definições inerentes à produção e à descrição de um objeto que resultam numa gramática do processo formal. Essa sintaxe está livre de significações.

No design, os signos só adquirem uma dimensão semântica mediante a referência às funções práticas (funções indicativas) ou ao contexto histórico-social (funções simbólicas). Assim como é preciso haver lógica para a formação de palavras, ou mesmo para a criação de uma frase que faça sentido, no design também existem algumas regras para a concepção de produtos bidimensionais ou tridimensionais.

MASER, S. (1972) designou três categorias importantes para caracterizar uma ciência. Segundo ele, uma Teoria Disciplinar do Design pode ser esboçada por intermédio de três componentes: a finalidade, o objeto e o método.

A finalidade consiste no desenvolvimento de uma linguagem especializada, ou seja, na formação de conceitos e propostas que sejam válidos universalmente para a disciplina. Já o objeto é considerado como específico da disciplina. De acordo com esse conceito, na esfera do Design, as questões de forma e contexto, ou de forma e significado, são associadas à idéia de linguagem do produto. Já o método deve ser buscado num âmbito filosófico-científico.

O uso indiscriminado da palavra design – levado ao extremo da banalização – dificulta o entendimento de seus conceitos enquanto atividade. Muitas vezes, a mídia contribui negativamente, ajudando a alimentar a confusão. O designer profissional é visto, pela maioria das pessoas, como o artista da forma e da aparência externa dos produtos de uso cotidiano.

Estas colocações iniciais servem como preâmbulo para a reflexão a respeito das definições e valores estético-formais utilizados pelos designers, presentes nos produtos graças a sua capacidade comunicativa, avaliando de que maneira tudo isso influencia a escolha do consumidor ou usuário em situações altamente complexas.

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A Estética no Design

A palavra estética é causadora de inúmeros equívocos, sendo confundida e empregada, por muitos, de maneira errada. No que se refere aos objetos de uso cotidiano, é costumeiramente chamada de cosmética ou maquiagem dos produtos. Este erro de linguagem limita a atividade do design e o seu próprio sentido, ou seja, o sentido dos fenômenos estéticos, dos cânones pelos quais a estética foi estabelecida pela sociedade e não por sua real abrangência.

Ao contemplar o pôr-do-sol, a lua cheia, as montanhas ou o chão rachado pela falta de chuva; o homem é tomado por algum tipo de sentimento ou de identificação com o que está vendo. O mesmo acontece ao contemplar, adquirir ou interagir com um produto de uso cotidiano, sendo este fenômeno chamado de estética dos objetos.

A Estética dos Objetos

A estética dos objetos é aquela que o homem percebe, a partir do ponto de vista da aparência, das formas e superfícies, seja ao analisar a natureza, seja ao avaliar objetos criados pelo próprio homem. Desta forma, o que vem a ser estética? Para muitos, estética é aparência, maquiagem ou aquilo que se vê superficialmente. Esta afirmação é apenas parcialmente correta.

Verificando as origens do conceito de estética, derivado da palavra grega aisthesis, podemos entendê-la como uma percepção sensorial resultante do processo visual e de conscientização, ao projetarmos nosso olhar para um determinado objeto, compreendendo o que isso desperta em nós.

Na concepção de Löbach (1976), este conceito foi ampliado, definindo-o assim: Estética é igual à ciência das aparências perceptíveis pelos sentidos (por exemplo, a estética dos objetos), de sua percepção pelos homens (percepção estética) e de sua importância para os homens como parte de um sistema sócio-cultural (estética do valor).

A assimilação desta colocação acontecerá a partir da compreensão das definições de: percepção estética, estética do valor e estética dos objetos, do ponto de vista do design.

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Percepção Estética

A Percepção Estética é entendida como o processo no qual a aparência define a importância do elemento observado. É um processo subjetivo, às vezes influenciado pela imagem da percepção atual ou, ainda, por experiências anteriores, como conceitos de valor e normas sócio-culturais (LÖBACH, 1976).

Quando a nossa percepção se dirige a um determinado tipo de objeto como, por exemplo, uma caneta em meio a tantas outras numa vitrine – que ganha destaque pelo material, pela cor, pelo acabamento e, mais ainda, pela sua forma – passamos por um processo perceptivo de refinamento. Neste processo, comparamos as várias canetas e nos identificamos com aquela que mais despertou a nossa atenção.

Como vivemos em sociedade, não podemos esquecer que valores e normas são estabelecidos a todo o momento e, durante o processo de escolha, a nossa decisão também considera o contexto no qual estamos inseridos.

A Estética do Valor considera que qualquer objeto de uso cotidiano possui um grau de utilidade e um preço de mercado. Esta relação se caracteriza de duas maneiras. A primeira diz respeito às funções práticas do objeto, ou seja, ao seu desempenho durante o uso. A segunda está ligada às funções semânticas do objeto, ou seja, aos valores subjetivos que ele carrega. Quando o homem adquire um determinado objeto, este possui um valor de uso, um valor estético e um valor simbólico. Evidentemente, dependendo das características do objeto, estes valores terão maior ou menor relevância.

Segundo Mukarövsky (1981), o conteúdo da consciência individual é dado, até a sua maior profundidade, pelos conteúdos da consciência coletiva. Por isso, cada vez mais os signos e a significação assumem um importante papel, definidos em um contexto geral pelos fenômenos ditos sociais, tais como a filosofia, a política, a religião, a economia, a tecnologia, etc. É por esta razão que a arte consegue, mais do que qualquer outro fenômeno social, caracterizar e representar uma determinada época. Por sua vez, os objetos de uso cotidiano passaram a fazer parte da vida das pessoas de tal forma que também são utilizados para apontar a evolução histórica e a atividade do design no mundo.

Partindo deste princípio – da arte -, o design passa a ser o intérprete de uma necessidade, estabelecendo a interface entre o objeto criado e o usuário, em consonância com uma sociedade e seus valores. Sabemos que a semântica é responsável pelas questões de signo e significado, enquanto que a sintaxe é responsável pelos aspectos de ordem, definidos como a lógica utilizada para o desenvolvimento e a configuração de um determinado produto.

Os elementos que fazem parte da configuração do produto são de ordem técnica e de ordem subjetiva. Os elementos de ordem técnica são aqueles ligados aos aspectos tecnológicos, aos meios e processos de fabricação e, ainda, ao processo de utilização do produto. Os elementos de ordem subjetiva são vinculados às funções estéticas e às funções simbólicas do produto, mais diretamente relacionados com a comunicação do objeto.

O lógico se refere à sintaxe, à estrutura utilizada em forma de ferramentas do design, ao fazer baseado em princípios e conceitos inerentes à sua atividade, ao modo pelo qual o designer soluciona o problema.

Já o psicológico transcende a prática. Porém, do mesmo modo, o designer faz uso da semântica como um elemento de comunicação do produto, buscando uma identificação e um significado contextual ou individual.

O parapsicológico, por sua vez, se baseia em crenças e costumes que, de uma forma ou de outra, desperta um valor simbólico nas coisas criadas pelo homem (cultura material e espiritual), exercendo força, poder, confiança e proximidade com seus “deuses”. Assume também um caráter individual. Muitos elementos rupestres, criados há milênios pelo homem, são aplicados em objetos de uso cotidiano e de ornamentação. Esses elemento – ou grafismos aplicados – muitas vezes, traduzem os movimentos artísticos do momento em que foram concebidos. Da mesma maneira que a forma de um produto ajuda a definir os valores de uma sociedade, os grafismos aplicados quer sejam bidimensionais ou tridimensionais, também fazem parte dos valores e do repertório dessa sociedade.

Fenômeno Estético

Para finalizar, vale ressaltar que os fenômenos estéticos estão ligados ao comportamento de uma coletividade. Funcionam como uma balança da religião, da economia, da tecnologia e dos costumes de um povo. São como algo que foi adotado e virou convenção. Por exemplo: alguém decidiu utilizar tinta verde em um torno mecânico, provavelmente pensando que esta cor transmite mais robustez ou confiabilidade ao produto. A partir daí, outros fabricantes adotaram a mesma cor – ou tons aproximados – para o produto em várias partes do mundo. Passou a ser um fenômeno aceito.

Para dar tempero à sua criação o designer busca equilíbrio e harmonia, aplicando alguns dos conceitos que foram comentados aqui. Como profissional, deve ter uma visão prospectiva e generalista, além de ter clareza de objetivos dentro de uma percepção variável, sendo capaz de solucionar problemas específicos do universo do design. Além disso, o designer deve perseguir uma estética duradoura, buscando elementos muito além da forma física dos objetos. Acima de tudo, é preciso pensar nas pessoas (consumidores e usuários), vivenciando o mundo real, sem jamais deixar de sonhar e brincar.

PARA SABER MAIS

BÜRDEK, E, B. DISENÕ. História, teoria y práctica del disenõ industrial. Barcelona: Gustavo Gili, 1944.

FUCHS, S. e BURKHARDT, F. Produto, Forma e História, 150 anosde design alemão. Stuttgart: Heinrich Fink Ltda. & Cia., 1988.

LÖBACH, B. Disenõ Industrial. Barcelona: Gustavo Gili S.A., 1981.

MUKAROVSKY, YAN. Escritos sobre estética e semiótica da arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1981.

REVISTA DA ALDEIA HUMANA. Florianópolis: SENAI/LBDI, 1995 – Série Brasil – nº1

TEODORICO, S.C. O Design no Desenvolvimento de Produtos: uma análise e prospecção de princípios e métodos utilizados.
(Dissertação de Mestrado) UFSC, 1998.

Célio Teodorico dos Santos

Designer Industrial pela Universidade Federal da Paraíba, Mestre em Engenharia da Produção pela UFSC/Gestão do Design e do Produto, Chefe  de Departamento e Professor do curso de Design da UDESC, Professor da Universidade Tuiuti do PR, Diretor da PARADESIGN

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