Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado porque a noção de identidade nacional é recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o estado-nação como principal modelo de organização social. De outro porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (“Espaço e tempo”, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”.

Acho engraçada a imagem de um intelectual francês tentando compreender a “satisfação” de um povo que, para ascender socialmente, dispõe-se a esgotar o salário com a escola dos filhos, o carro do ano, aluguel, internet/telefone, plano de saúde, previdência etc. É preciso ser bem-humorado, e de fato somos. Conseguimos rir de tudo: do governo que cai e que logo sobe de novo, dos dirigentes que deveriam representar nossos interesses, do próprio “jeitinho” brasileiro que se mantém desconcertante quando invocado nas manchetes internacionais.

Sabe-se que, em macacos, a contração facial que associamos ao riso é geralmente provocada pelo sentimento de medo. Com efeito, rir nos salva por um momento, tiraniza o tirano, exorciza nossas angústias, motiva-nos a prosseguir. Claro que há certo tipo de alienação, mas há também uma seriedade peculiar, uma forma quixotesca de conhecimento, uma afirmação existencial de escolher ser o que já se é. Disso decorre nossa antiga pretensão de “país do futuro”, um futuro que paradoxalmente se conjuga no “dá-se um jeito”, “deixa como está para ver como é que fica”, “no Brasil é assim mesmo”.

Alguns poderão dizer, e com certa razão, que este tipo de postura é o combustível do cinismo, da alienação, de uma vida acrítica, da preguiça de sair do lugar. Só que a legitimidade de tal julgamento depende de algum referencial, preferencialmente estrangeiro, como a promessa de Sartre segundo a qual, se o homem e a existência são incompletos, então é a partir do “nada” que podemos edificar nossa autonomia e identidade. Entretanto, obras como as de Machado de Assis ou as de Lima Barreto passam longe das maçantes teses filosóficas produzidas em nossas universidades e, a meu ver, dizem muito mais sobre nossa forma de pensar/viver do que qualquer narrativa crítica-emancipatória.

Em outros termos, o que caracteriza o cínico é o enunciado de que “nada importa” (então qualquer coisa serve), algo como “não acredito muito nessa bobagem de design, mas aquela cadeira Wassily ficou ótima lá em casa, combinou com meu pôster do Romero Brito”. No caso da brasilidade, porém, há uma sutil diferença: “qualquer coisa serve” não porque nada importa, mas porque é preciso negociar, partindo da premissa de que nada vem de graça e que, portanto, lidar com o acaso inevitável envolve mais esforço do que resignação, mais curiosidade do que desinteresse.

Certa vez, numa entrevista, o compositor Tom Zé disse que, no Brasil, é preciso ser intelectual para ser analfabeto. Ao contrário, pois, do pressuposto de Marx (e de Cristo) de que os filisteus “não sabem o que fazem”, Tom Zé estava totalmente ciente de que seu analfabetismo o colocava numa posição da qual, para continuar vivo, não poderia poupar esforços para sair. Formou-se assim um analfabeto-intelectual, não pelo caminho do coitadismo e da autossuperação, mas pelo esforço que implica rir de si mesmo. Alguns reagem com seriedade, dramaticidade ou ira; quero crer que nós, brasileiros, optamos pela força do riso.

A velha piada, por exemplo, do gringo que percebe que roubaram seu relógio, ou que vê duas pessoas se matando numa briga de trânsito, continua sendo muito mais séria do que nossas colunas jornalísticas. E isso porque, a princípio, o piadista nunca parece levar-se a sério. Penso que, na origem, todo pensamento é uma espécie de brincadeira, um tipo de blefe que muda as coisas de lugar só pra ver no que vai dar, de modo que a vitalidade do pensamento encontra seu limite na “seriedade” que nos leva a sistematizá-lo, legitimá-lo e, enfim, naturalizá-lo.

Se assumirmos que a brasilidade talvez seja indissociável do riso, poderemos inferir que nunca fomos afeitos a uma identidade dada como “natural”, o que indicaria um propósito claro de invenção permanente da própria noção de pertencimento. O filósofo Vilém Flusser, que se mudou ao Brasil, fugindo do nazismo, na década de 1940, descobriu-se “brasileiro” somente nos anos 1960 quando, não mais analfabeto em português, dava aulas incorporando a figura de um ilustre discípulo de Bertrand Russell – pura mentira, mas que certamente o divertia e lhe conferia algum chão, aconchego ou consolo acerca de sua falta de pátria.

E o que é nosso cotidiano cosmopolita senão um discurso típico de só falar mal de nosso país, mas cujo enunciador, em menos de um mês no estrangeiro, morre de saudade de casa? Estereótipos à parte, quero dizer que brasilidade, ao contrário de patriotismo, é algo que se descobre na dificuldade de situar-se em seu próprio meio. Por isso rimos, não para coincidirmos com uma identidade em comum, mas para engravidá-la e reinaugurá-la. Nem descrença total, nem crença cega nas pessoas, mas ímpeto constante de compreendê-las sem garantia alguma de conseguir decifrá-las, restando apenas a oportunidade de rir de si ao lado delas.

Arte por: Rafaela Lech

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