A rua como arena de livre expressão das identidades é uma invenção moderna. Se essa história se inicia com o renascimento das cidades, no final da Idade Média, é no século XVIII que a ideia de um lazer em público ganha força, com a adoção do hábito dos passeios urbanos pelas cortes europeias (ou brasileira: a sociedade carioca fará o mesmo no Passeio Público, inaugurado no Rio de Janeiro, em 1783). É interessante pensar no impacto que essa exposição dos indivíduos nas ruas, que só fez intensificar-se desde então, terá para a construção das identidades. A possibilidade de ver e ser visto aprofunda a dinâmica psicológica entre diferenciarse e identificar-se com o outro, acelerando a formação e a difusão de novos fenômenos de moda e estilo. Ao propiciar afinidades entre semelhantes, esse novo espelho que é a rua faz emergir no indivíduo o sentimento de pertencer a grupos – eis o início da história das subculturas urbanas, que tiveram seu apogeu no século XX e não cessaram, ainda, de exercer fascínio, especialmente em uma cultura dominado por valores jovens, como a nossa. De fato, desde os anos 1950, a rua é o espaço em que a identidade jovem se constrói e se reafirma em sua essência: o Baixo Augusta paulistano, para citar um exemplo, é a atual configuração espacial, com personagens contemporâneos, de um roteiro que se repete e se desloca, de tempos em tempos, pela malha urbana.

No presente, a ressignificação da rua tem dois vetores especialmente relevantes. De um lado, as cidades passam por uma verdadeira onda de renovação e de requalificação de áreas degradas, uma tendência que é global e que não se limita mais às regiões nobres ou centrais, estendendose às periferias e às favelas. Esses projetos, que traduzem a necessidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas, expressam também o desejo de embelezamento dos espaços públicos, dentro da tendência mais geral à estetização de todas as esferas do cotidiano, em que o design joga um papel fundamental.

Por outro lado, estamos vivendo um processo de reapropriação do espaço urbano pelos indivíduos. Se já faz tempo que “a praça é do povo”, a vocação contemporânea da rua também é de pertencer a todos. Em 2011, a cidade de São Paulo teve suas ruas ocupadas, em média, doze vezes por dia, num total de 4.497 eventos! Foram protestos, marchas, festas, bicicletadas, feiras, “churrascões” debochados, performances; as mais variadas, manifestações culturais e artísticas… A difusão da “bicicultura” é outro aspecto dessa tendência, com famílias inteiras pedalando por avenidas reconvertidas em ciclo-faixas (ainda que apenas por algumas horas, nos finais de semana). As ruas da cidade reencontram a sua vocação para o lazer, para a fruição do tempo, para uma experiência menos alienada com o entorno, mal percebido pelos indivíduos na pressa do dia a dia.

Em um cotidiano mais focado no bairro, até por conta das dificuldades de escala que a cidade apresenta, há um interesse renovado pelos arredores, um cuidado maior com a pracinha da esquina (por vezes transformada em horta urbana). Graças às redes sociais, as pessoas debatem como nunca sobre o conforto dos pontos de ônibus ou a qualidade dos bancos públicos: o mobiliário urbano ganha relevância inédita nessa micropolítica do cotidiano, que toca os interesses mais diretos de cada um e que pode ser tão ou mais transformadora das relações sociais do que as grandes plataformas políticas, cada vez mais distantes dos indivíduos. É claro que nem tudo é positividade. Inevitável citar a violência urbana alarmante, os processos de gentrificação promovidos pelo mercado imobiliário, a “brasilianização” dos condomínios cercados, o aumento dos acidentes de trânsito e dos conflitos envolvendo automóveis, motos, pedestres e ciclistas. Ainda assim, tendencialmente falando, os sinais de reapropriação do espaço urbano têm um significado especial para as metrópoles, porque relativizam as previsões pessimistas sobre o desaparecimento da socialidade e o enfraquecimento dos laços na urbe cruel e selvagem – excitante e dinâmica, por certo, mas aniquiladora da dimensão propriamente humana da vida…

É precisamente o cenário oposto que a retomada das ruas nos faz vislumbrar.

Arte por: Fernando Ratis

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