por, Chico Homem de Melo20090309_dinheirogrande

É claro que quem dá as cartas no jogo da economia global é o dinheiro. Por acaso alguém duvida disso? No design gráfico não poderia ser diferente. Mas é.

No extenso rol de parâmetros que regem o processo de projeto, o mais natural é pensarmos que o fator de maior peso é o econômico. Para aqueles que não têm simpatia pela ideia, trazemos aqui uma boa notícia: a prática cotidiana do design ensina que o fator de maior peso não é o dinheiro, mas sim seu irmão siamês: o prazo. São as limitações de prazo que efetivamente ditam os rumos dos nossos projetos, e não as limitações de orçamento.

Os prazos estabelecidos pelos clientes costumam ser inacreditavelmente curtos – e tendem a encurtar cada vez mais. Para piorar, na maioria dos casos, esses prazos são reais: é a data de abertura do evento, é o limite para a entrada do livro na gráfica, é o lançamento do produto numa determinada feira. Se não entregarmos o trabalho a tempo, o cliente e o produto serão efetivamente prejudicados.

A explicação mais frequente para o atropelo em que vivemos é a aceleração da vida contemporânea em virtude da disseminação dos recursos de comunicação instantânea. Essa aceleração é uma realidade inquestionável, mas será mesmo ela a raiz do problema?

O prazo define a solução projetual

Desde os bancos escolares, o prazo costuma ser relegado a um plano secundário no desenvolvimento de um projeto, normalmente colocado como uma questão externa ao elenco de fatores a serem considerados. Há um equívoco básico aí: longe de ser um fator externo, o prazo é parte intrínseca do problema.

Tomemos como exemplo um projeto padrão, encomendado por uma empresa acostumada a contratar serviços de design gráfico – um projeto editorial, um projeto de embalagem, um projeto de identidade. O cliente fornece como ponto de partida um briefing (ou escopo de trabalho, como se queira chamá-lo). Pois bem, se o prazo for de um mês, a resposta projetual será uma; se for de uma semana, será outra; se for de um dia, será outra; se for de uma hora, será outra (logo, logo, chegaremos ao minuto). Quem acaba ditando as regras do jogo projetual é o prazo.

E onde entra o componente orçamentário? No mais das vezes, as verbas disponíveis para projetos de perfil rotineiro não são tão variáveis assim. Salvo propostas extravagantes – “Que tal imprimirmos o livro de 400 páginas em papel artesanal importado do Japão?” – o orçamento para a produção é mais ou menos padronizado, e costuma ter até uma certa flexibilidade. O que não costuma ter flexibilidade é o prazo. Uma máxima do mercado diz: “Trabalho bom é trabalho pronto”. Na verdade, a versão completa é: “Trabalho bom é trabalho pronto… no prazo”.

Voltando à indagação sobre o porquê dos prazos serem invariavelmente tão curtos, a resposta é simples: pela absoluta falta de planejamento. Mas seria de quem essa falta de planejamento, dos designers? Nada disso, falta de planejamento dos clientes.

Lembremos que estamos falando de empresas que contratam habitualmente serviços de design. São, portanto, empresas estruturadas, de médio ou grande porte, contando em seus quadros com administradores profissionais. Na última década, o discurso da gestão tomou conta dos ambientes corporativos a ponto de ninguém dizer mais nada sem rechear sua fala com a novilíngua empresarial. E como esses “gestores profissionais” costumam ver os designers? O olhar que em geral nos dirigem é um misto de admiração pela “criatividade” e de condescendência pelo que consideram um “desligamento” em relação às regras do mundo dos negócios.

Tem alguma coisa mal explicada aí

Há um paradoxo nessa história. O cotidiano desse dito mundo dos negócios revela que os profissionais da gestão, com espantosa frequência, mostram-se incapazes de gerir o mais reles cronograma de produção. E quem acaba consertando essa impressionante incapacidade de gestão? Exatamente quem você pensou: os designers, esses incorrigíveis nefelibatas. Somos nós que, ao fazermos os projetos em prazos inacreditavelmente curtos, acabamos consertando as falhas dos “gestores profissionais”.

Os termos são fortes, mas a realidade também é. Os projetos ao qual estamos nos referindo são projetos cujo cronograma total é de muitos e muitos meses, ou mesmo de anos. Quanto aos prazos efetivamente dados aos projetos de design… seria cômico se não fosse trágico.

Um caso eloquente: editora de grande porte; coleção de 40 livros para venda em bancas de jornais, com distribuição nacional; cronograma total de dois anos, entre o início do trabalho editorial e a comercialização final; ordem de grandeza do investimento: um milhão, dois milhões, cinco milhões de reais? (difícil calcular, mas estamos falando de dinheiro grande). Prazo dado para a apresentação de proposta de capa dos 40 volumes (ou seja, para o projeto que vai dar a cara do mega-empreendimento editorial): 48 horas.

Não, 48 horas não é metáfora; não, esse caso não é inventado; não, não é uma brincadeira para ilustrar com tintas fortes um argumento. É fato real, daquele mundo real citado acima, habitado pelos “gestores profissionais”. E também não é exceção, um caso isolado, algo nunca antes visto. É um caso particularmente eloquente, mas é a rotina, nada mais. Pior: também não é descaso para com o design, estamos falando de gestores que acreditam no papel estratégico desempenhado pelo design.

Alguém acha que, num exemplo como esse, é uma hipotética limitação orçamentária que está definindo os rumos do projeto de design? O que está em jogo é outra coisa, é a competência dos gestores desse processo. Essa inacreditável falta de planejamento repercute diretamente na qualidade do design e, por consequência, na qualidade do produto. Perdem todos, rigorosamente; perde-se, inclusive, dinheiro.

Exemplos não faltam: prazo de uma semana para apresentar uma proposta para um projeto editorial cujo cronograma total é de 18 meses. Após 40 dias de espera, a resposta: queremos ver uma segunda alternativa. Prazo para apresentar essa segunda alternativa: três dias, porque o tempo previsto para essa etapa já se esgotou, e o material precisa entrar em gráfica na semana que vem. Na verdade, alguém deixou o trabalho dormindo em cima de alguma mesa, e com certeza esse alguém não foi o designer. Quem perde: novamente todos, rigorosamente.

O design que fazemos

Design não se faz sozinho. A qualidade do design que fazemos depende em grande medida da capacidade de gestão do cliente, porque é ela que vai definir o prazo que teremos para o desenvolvimento do trabalho. Se entendermos a gestão empresarial como uma cultura — algo que ela de fato é – então temos aqui um consolo para os designers que não gostam de atribuir ao fator econômico a precedência no processo do design: não é o dinheiro que comanda o projeto, é a cultura.

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