ABCDESIGN > MATÉRIA-PRIMA DA CRIATIVIDADE

José Bártolo é professor, crítico e curador de design em Portugal. Ele nos enviou, ainda hoje, o Manifesto para o Design português, publicado por 24 importantes designers, professores e críticos da área no início desta semana, nas mídias daquele país. O texto, de acordo com ele, “defende um maior envolvimento social e político dos designers e anuncia a criação do grupo de trabalho de defesa do ativismo de cidadãos-designers”.

Conheça o manifesto publicado por eles logo abaixo.

 

Manifesto para o Design Português

 

  1. Nós, abaixo assinados, somos designers, professores de design e críticos de design, que iniciaram a profissão depois do 25 de Abril de 1974. Nós, que sempre trabalhámos num contexto politicamente democrático, culturalmente plural e economicamente liberal, defendemos que os valores da democracia participativa devem ser, de forma permanente e ativa, enunciados, renovados e praticados; que o pluralismo cultural nos obriga a respeitar a diferença e afirmar identidades; que o liberalismo económico pode e deve ser criticado e mediado de forma a ser sempre um meio e nunca um fim da cidadania.

 

  1. Num momento em que a nossa autonomia enquanto estado-nação é atacada por uma insuportável ingerência externa, num contexto em que o país está preso a orientações de credores externos, na mesma altura em que a carga fiscal ultrapassa os 48% do PIB, em que o desemprego é de 16%, em que o descrédito nos políticos é total, em que o desalento e o pessimismo nos dominam, nós assumimos a nossa quota parte de responsabilidade na sensibilização, mediação e mobilização sociais; na construção crítica do presente; na procura de alternativas futuras.

 

 

  1. 3.       Nós não nos revemos, identificamos ou conformamos com a atual situação cultural, social, política e económica do país; defendemos uma maior e mais efetiva responsabilização coletiva – dos governantes e dos governados – e defendemos a procura de formas alternativas de fazer política, de fazer cultura, de fazer negócios e de fazer design. O design é um processo ativo de transformação contextual; nós defendemos a consciencialização dos designers para uma compreensão do projeto enquanto realização de um ação socialmente eficaz.

 

 

  1. 4.       Nós rejeitamos a ditadura do financeiro e defendemos a defesa de valores fundamentais, de respeito pelo trabalho, de equidade, de pluralismo, de participação, de liberdade. Nós defendemos a importância do papel do design na comunicação e construção de alternativas. Acreditamos que a democracia é o governo através da discussão. Defendemos o envolvimento dos designers nos assegurar a amplitude e a qualidade da discussão, tornando-a o mais o quotidiana e pragmática possível.

 

  1. 5.       Nós defendemos que o design deve ter uma agenda que resulte da discussão dos valores, da discussão acerca da utilidade e da eficácia da disciplina, conseguida de forma alargada e em mais do que um fórum: no movimento associativo; nas escolas; nas empresas de design; nos meios de comunicação social.

 

  1. 6.       Nós defendemos que essa agenda seja capaz de posicionar o design português, de forma clara, objetiva e pragmática, perante questões sociais, políticas, culturais, económicas, tecnológicas e éticas que afetam o país e os cidadãos. Nós comprometemo-nos a criar um grupo de trabalho, aberto à participação de todos, capaz de desenvolver ações que garantam a prossecução das intenções do presente manifesto.

 

  1. 7.       Nós defendemos que o design e os designers portugueses sejam valorizados, promovidos e defendidos; nós apelamos às associações e às escolas para assumirem a sua responsabilidade na defesa intransigente de uma proposta crítica e exigente para o design e a sua prática profissional. Nós apelamos a uma maior politização da prática do design, a uma maior interferência dos designers na programação cultural e social, a uma maior consciencialização dos designers do seu papel produtivo.  

 

  1. 8.       Nós acreditamos no design como uma forma de produção social, e não como ato isolado de criatividade. Nós defendemos uma prática do design centrada na prestação de serviços do designer a um cliente, envolvendo respeito mútuo, empenho na procura da melhor solução, de forma a que cada projeto contribua para a valorização da profissão e para a qualificação dos valores da cidade e da cidadania. Mas, também, defendemos a procura de práticas alternativas, autopropostas e autogeridas, sejam ou não pro bono. Defendemos a valorização dos designers, a sua liberdade autoral e condenamos a sua menorização e exploração; valorizamos a formação em design, a diversidade de formas, processos e manifestações de projeto; combatemos os estágios não remunerados, a precariedade profissional e quaisquer formas de descriminação que não se fundamentem em critérios qualitativos transparentes.

 

  1. 9.       Vivemos tempos de urgência que exigem a nossa participação ativa. O presente manifesto comunica um conjunto de intenções, visa tornar público um compromisso para a construção de uma comunidade operativa constituída por cidadãos-designers que através da presente tomada de posição dão um passo para a construção de um grupo de trabalho com a coesão ou as ramificações necessárias a uma maior eficácia da sua ação.

 

 

  1. 10.   Nós, abaixo assinados, lutaremos para que o design português possa gerar narrativas fortes, que de forma pragmática e ideologicamente fundamentada, possam voltar a enunciar, de modo pertinente e efetivo, palavras como utopia, liberdade, igualdade ou revolução.

 

 

 

Redator:

José Bártolo

 

Subscritores:

Alejandra Jaña

Ana Rainha

António Modesto

Aurelindo Jaime Ceia

Carlos Guerreiro

Eduardo Aires

Emanuel Barbosa

Joana Bertholo

João Alves Marrucho

João Bicker

João Martino

José Bártolo

José Carlos Mendes

Luís Alvoeiro

Luísa Barreto

Marco Balesteros

Marco Reixa

Mário Moura

Nuno Coelho

Pedro Marques

Sofia Gonçalves

Vera Tavares

Valdemar Lamego

Victor M Almeida.

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Matéria-prima da criatividade. | imprensa@abcdesign.com.br

1 comentário

  1. Senhores e colegas,

    Vejam que Portugal tem uma classe de profissionais unida e atuante. Que estão ao seu modo enfrentando situações semelhantes as que enfrentamos por aqui, apesar de conviverem com paises Europeus que declaradamente subsidiam e apoiam nossa profissão, por considerá-la extremamente estratégica.

    Cabe a nós aqui no Brasil pegar o mote de nossos colegas Lusos para depois do segundo turno das nossas eleições, voltarmos a nos unir para que finalmente, ainda este ano, consigamos todos a tão almejada e postergada homologação oficial de nossa profissão Dessa forma começarmos finalmente e bem atrasados, fazer o piso juridico necessário e profissional que um mercado internacionalizado de trabalho e projetos exige de um Designer em qualquer lugar deste planeta, que queira sobreviver dentro dessa movediça profissão!

    Vamos todos nos unir em volta do Congresso Nacional, vendo a luta atual de nossos “Patricios” de além mar como um aviso / alerta ,um exemplo de atuação profissional. Vamos acordar nosso alunos de Design alheios a uma situação que julgam não ser com eles e infelizmente estão no meio da tormenta! Aos Profissionais ,Professores, Escritórios, Centros Governamentais ,Empresas, Associações e todos que trabalham com Design no Brasil e sofrem pelo aviltamento acelerado da profissão em sua própria cidade, tirando-lhes chances e oportunidades até de sobreviverem condignamente para se sustentar e as suas familias.

    Vamos nos espelhar no texto dos Portugueses e juntos fazer a pressão para que tudo saia como desejamos em Brasilia, de forma legal e o mais rápido possivel. Pois Design deixou há muito tempo de ser uma profissão local, de atender a esquina do bairro, hoje o seu profissional tem que ser internacional para poder sobreviver e para todos nós chegarmos a esse patamar de cabedal já alcançado em outros paises, temos que começar resolvendo esse dever de casa. A homologação oficial de nossa profissão no Brasil. Acordem todos!!!

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