Pierre Mendell

Pierre Mendell

A exposição ”Pierre Mendell – Cartazes” trouxe ao Brasil obras de um dos grandes frutos da escola suíça Basel School of Design: Pierre Mendell. Sua principal contribuição com a história das artes gráficas foram precisamente os cartazes, sendo que sua produção mais vasta foi para duas instituições da Alemanha, a Neue Sammlung – Museu para Artes e Design, e a Bayerisch Staatsoper – Teatro Nacional de Munique.

Nascido em 1929, em Essen, Mendell só fez a faculdade de Desenho Industrial na Suíça quando estava com 29 anos. Até lá, o artista havia vivido na França, Estados Unidos e trabalhou na loja de tecidos da família. Em 1961 abriu o Studio Mendell & Oberer rendendo quase 40 anos de parceria. Mas em 2000, o escritório se re-estruturou, passado a ser somente Pierre Mendell Design Studio.

O designer também manteve uma longa parceria com o Museu para Artes e Design e com o Teatro Nacional. Por mais de 20 anos trabalhou com toda a comunicação visual, livros e cartazes do Neue Sammlung, rendendo obras dignas de serem frequentemente revisitadas pela própria instituição. A contribuição com o Bayerisch Staatsoper é mais curta, começa em 1993, mas não perde nada em qualidade. Pierre também trabalhou com identidades visuais corporativas da Siemmens e demais empresas alemãs.

Cartaz "I love Design", de 1991 para a Neue Sammlung

Cartaz "I love Design", de 1991 para a Neue Sammlung

A coleção trazida ao Brasil não é extensa, mas é significativa. Conta com 50 cartazes feitos para exposições, peças, óperas, e algumas obras de cunho social. O expectador não demora muito para perceber quais são as principais qualidades de Pierre como designer.

Para não repetir as palavras já ditas por tantos outros profissionais que avaliaram o trabalho de Mendell, reproduzimos aqui o texto escrito por Florian Hufnagl, Diretor da Die Neue Sammlung e da Pinakothek der Moderne, Munique.

O designer como equilibrista

“I love design”. Uma barra preta, com uma esfera amarela rolando sobre ela – uma bola, talvez. Em cima desta balança um coração vermelho: um artista. E acima flutua um quadrado azul, tão leve quanto uma idéia. O designer como equilibrista?

(…) As cores primárias amarelo, vermelho, azul: as formas básicas do círculo, do quadrado e não, não de um triângulo, mas… um coração. Não é simples?

É o mais difícil de tudo ser simples, ou ainda aprender a ser simples. Simplicidade significa deixar coisas de fora, concentrar, destilar, focar no essencial. Pierre Mendell está convencido de que, dado o fluxo de imagens que atravessam nosso mundo a cada dia, uma formulação simples e direta funciona melhor para transportar uma mensagem. (…) O poder persuasivo dos seus cartazes também está definitivamente relacionado à sua composição: superfícies grandes, contornos claros, poucas cores, um mínimo de cópia, tipografia altamente concentrada. Mas há mais que isso. Há humor, e diversão ao brincar com as formas. Esses cartazes não estão direcionados somente aos olhos, mas também à mente. E então há fervor e poesia em muitos deles. E, não menos importante, eles também falam ao coração.

Generoso embora preciso. Claro, mas não estridente. Poético mas não piegas. Penetrante, mas de coração. Passional, mas com razão. O equilibrista Pierre Mendell alcança essa harmonia, com força e com a leveza de uma pluma”.

Para a peça "O rapto de Lucrécia", de 2004

Para a peça "O rapto de Lucrécia", de 2004

As qualidades estão ali, fáceis de serem percebidas, e esse talvez tenha sido um dos maiores trunfos de Mendell. Em uma entrevista cedida a Wolfgang Beinart, em virtude do lançamento do seu primeiro e único livro “À Primeira Vista”, Mendell explica um pouco sobre sua forma de trabalhar. De acordo com o entrevistador, Pierre primeiro trabalha com diversos croquis, dos quais os melhores serão re-trabalhados com a ferramenta mais adequada (colagens manuais ou no computador). Depois de uma segunda seleção, os eleitos são confeccionados em tamanho original. “O resultado deste processo fornece somente uma peça – que para esta indústria é realmente raro. Isto reflete novamente sua atenção à qualidade do projeto. Porque não pesam o tempo gasto ou a quantidade de sugestões iniciais, mas o bom desenvolvimento do produto final”.

A simplicidade faz parte da alma deste designer, mesmo que para ele isso não significa ter um estilo. Aliás, para Pierre Mendell, em seu trabalho não há uma filosofia. Há a vontade de trabalhar de forma a resolver o problema. “A palavra “filosofia” nunca me ocorre quando começo um novo projeto. Eu apenas tento resolver o problema de um modo pragmático. Certamente busco soluções simples de comunicação, pois estou ciente que nosso mundo está inundado por um exagero de imagens e que soluções simples e diretas podem transmitir melhor a mensagem. À primeira vista, por assim dizer. Nesse contexto pode também haver algo como uma ecologia visual que me motiva. Se é preciso haver uma filosofia, contudo, eu diria que sinto que a maneira como as pessoas se comunicam umas com as outras também define sua cultura. E se puder trazer um pouco de cultura ao design gráfico cotidiano, tanto melhor”

E foi isso mesmo que Pierre conquistou. Seu trabalho já foi reconhecido com diversos prêmios importantes como a medalha de ouro dos Art Director Club de Nova York e da Alemanha, o primeiro lugar na Bienal Internacional de Cartaz de Teatro, na Polônia e o Grand Prix International de l´Affiche Paris. Seus cartazes também fazem parte do acervo de Museus de importância mundial como o Moma (Museus of Modern Art) de Nova York. “Gosto de receber prêmios, mas não influenciam meu trabalho”, diz Mendel com humildade.

Para a peça "O caçador furtivo" de 1998

Para a peça "O caçador furtivo" de 1998

Para ele, o seu maior mérito é fazer com que, nas ruas de Munique, os transeuntes parem em frente ao cartaz que os chama para algo a mais. Essa é a função deste tipo de material. Aqui no Brasil, a vinda das obras de Mendell sugeriu exatamente essa reflexão. Dois grandes designers brasileiros estiveram na mesa redonda promovida pela exposição para discutir a obra de Mendell e ir um pouco além.

Alexandre Wollner propõe a questão: porque no Brasil não se dá o devido valor al cartaz como forma de comunicação? “Sempre me questiono se existe, como nos casos da música e do futebol, uma identidade brasileira a ser reconhecida internacionalmente, como a alemã, a suíça, a japonesa, a americana, a holandesa e a polonesa. Ou teria o Brasil perdido o bonde, como a Itália, a França, Inglaterra e a China? Esta é a grande oportunidade de apreciar os trabalhos de Mendell e fazer uma reflexão: porque não registramos nossas inúmeras exposições nacionais e internacionais em cartazes gráficos identificados com uma identidade visual própria? O cartaz (digo, o verdadeiro cartaz A1, e não os comuns cartazetes A3) funciona como um laboratório de ricas possibilidades para definir a expressão visual dos designers brasileiros”.

Fernanda Martins acrescenta: “Na coleção de cartazes da ópera através dos diversos programada percebe-se como se pode usar o cartaz como ferramenta da identidade visual corporativa. São cartazes que não perdem a contemporaneidade. Julgo importante comentar a importância de se apresentar um trabalho de cartazes exatamente no momento em que São Paulo passa por esta transformação, causada pela retirada dos outdoors. Não seria oportuno valorizarmos o cartaz como peça fundamental da divulgação sem poluição visual? Que oportunidade para os designers se a prefeitura instalasse porta-cartazes em formato grande, nos moldes dos que existem na Europa!”

Como já foi dito, Pierre Mendell concentrou sua produção de cartazes em duas instituições culturais na cidade de Munique. Peças de teatro, ópera e exposições foram seus principais temas ao trabalhar na folha 594 x 841, rendendo imagens como um de seus cartazes mais famosos: “Design é arte que se faz útil”, exposição promovida pela Neue Sammlung, e cujo mote pode ser facilmente associado a Mendell. Para as exposições do Museu para Arte e Design, o designer privilegia as cores primárias ou ainda o emprego da tipografia à apresentação do objeto original, procurando instigar quem vê este convite em forma de cartaz.

Para a mostra "Design de livros na Suíça", 1994

Para a mostra "Design de livros na Suíça", 1994

Sem querermos ser injustos, gostaríamos de destacar seu cartaz para a mostra de embalagens japonesas, pelo qual o designer foi premiado e o trabalho para a exposição de “Design de Livros da Suíça”, no qual o Pierre brinca com a tradicional cruz da bandeira da Suíça. Seu trabalho para a exposição do colega de faculdade Armin Hoffman também chama a atenção. Armin está representado por alguns materiais de desenho e um fundo preto e branco, cores sempre presentes na obra de Hoffman, que também é um dos designers preferidos de Mendell.

Para o Teatro Nacional de Munique o “estilo” tem mudanças significativas. Ele cria um novo repertório de formas utilizando recortes e colagens, esquematizando as formas à maneira de pictogramas, criando uma sutil interação entre motivo e o fundo. Entre eles podemos destacar – novamente sem querer ser injusta às outras obras – suas criações para a Ópera Don Giovanni, Mozart, para a peça “O retorno de Ulisses à Pátria”, ou para a produção da obra de William Shakespeare “O Rapto de Lucrecia”.

Para saber mais: www.pierremendell.com.br.

Mais imagens: www.fllickr.com/photos/abcdesign

Todas as as imagens foram concedidas por Bebel Abreu, responsável pela mostra no Brasil.

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