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Roti Nielba Turin

Este texto foi criado originalmente para o evento Experimenta Design 2001, por Roti Nielba Turin, semioticista. Realizado de 16 de setembro a 31 de outubro do ano passado em Arrábida, Portugal, o evento marcou o encontro de respeitados pensadores e estudiosos de Semiótica de todo o mundo. O material integrou um conjunto de conferências a respeito do tema “Pensamento enquanto Design” que, além de Roti, foram proferidas por Roman Verostko (EEUU), Dan Schechtman (Israel), Daniel Charles (França), Roy Ascott (EEUU), Tamara Lai (Bélgica) e William Ancestasi (EEUU), sob a coordenação de Emanuel Dimas de Melo Pimenta. As ideias de Roti nos permitem uma importante reflexão. São como um descortinar de janelas, um abrir de portas, um desvendar de conceitos e conhecimentos valiosos para que possamos aprender (ou reaprender) e compreender o pensamento enquanto design.

Receosa e constrangida, exponho-me a conhecedores, alguns dos quais norteadores da rota que tenho percorrido nesses últimos anos dedicados ao ensino em escolas de Arquitetura e Design. Não estou aqui para discorrer sobre novas teorias. Tal postura denotaria imprudência de minha parte, uma vez que estou diante de um grupo crítico e criativo, gerador de idéias que alimentam e inovam os processos dos saberes atuais. Opto por expor algumas facetas das experiências de ensino-aprendizado que acumulei nessas quase cinco décadas dedicadas ao mister de “aprender a ensinar a aprender”. São colocações despretensiosas e bastante modestas, diante dos conhecimentos que aqui devo absorver.

É preciso lembrar, em linhas gerais, que venho de um país jovem, emergente, de grandes dimensões territoriais, com profundas diferenças regionais, com uma população mesclada de influências estrangeiras: italiana, alemã, polonesa, ucraniana, japonesa, chinesa, coreana, russa, etc., destacando as influências inaugurais indígena, portuguesa e africana. Portanto, nossa formação hereditária repercute nos traços e substratos de todas essas culturas, nessa mistura obtida pelo caldeirão das diferenças e semelhanças que forjam um pensamento singular em relação ao mundo europeu e oriental.

Sob o ponto de vista de hábitos, rotinas e comportamentos, dados que podem qualificar o modo de pensar de um povo, somos um pouco de todas essas raças. Desempenhamos usos e costumes trazidos no bojo das imigrações repetidas que, incorporados, formam a pluralidade cultural de nosso país presente no idioma, na culinária, nos comportamentos sociais, no sincretismo religioso, na política, na condução do ensino nas escolas e, enfim, em todas as manifestações de linguagens.

Automatizados pelos significados já arraigados na cultura, não nos damos conta de que há cinco séculos conhecemos uma troca contínua, um intercâmbio, uma inter-relação de significações que nos possibilitam inferir que, nas práticas de linguagens, há muito experienciamos uma rede integrada de informações presentes no comportamento social coletivo.

Mas, eis um dos lados negativos dessa constituição cultural: a diluição e descaracterização desses significados importados, permeados pela forte influência da cultura de massas – modelo mundial da atualidade -, nos faz portadores de comportamentos viciados e saberes distorcidos, provocando, muitas vezes, no campo da inovação, concepções que já são obsoletas na sua origem.

Em 1928, Mário de Andrade criava e proclamava “Macunaíma”, o grande “herói sem caráter”, lídimo representante do povo brasileiro. Sem caráter na medida em que somos um pouco de todos e não nos sabemos como unidade, não nos sabemos como um Universo de sentidos, não nos decantamos. É preciso esclarecer que as grandes diferenças sociais – e o desinteresse incessante e contumaz das políticas públicas em relação ao ensino básico, médio e profissionalizante – delineiam contornos que dificultam a construção de um conhecimento sólido, fundamentado em pensamentos claros, adequados às necessidades de nossa realidade.

Através de esforços individuais ou de pequenos grupos, pontuam aqui, ali e acolá centros de excelência em pesquisas avançadas. Mas falta-nos a pesquisa básica, aquela que promove a educação e, consequentemente, o desenvolvimento econômico. Somos um país de aproximadamente 170 milhões de habitantes com 15 milhões de crianças, de 7 a 14 anos, consideradas analfabetas absolutas, além de 33 milhões de analfabetos funcionais, acima de 14 anos. Nas regiões mais carentes, no Norte e Nordeste do Brasil, 9 entre 10 crianças não têm acesso à escola fundamental (creches). O Plano Nacional de Educação não cumpriu suas metas junto ao UNICEF. Faltam recursos públicos e interesse político.

Essas poucas considerações descrevem, de maneira sucinta, as qualidades e deficiências do ambiente em que se movem e se alinham a grande maioria das escolas brasileiras. Minha história e o design do meu pensamento se confundem com salas de aula e instituições de ensino, as mais variadas públicas e privadas, equipadas ou muito carentes – dispersas por alguns Estados brasileiros, principalmente no Sul e Sudeste, regiões mais desenvolvidas do país.

Em grandes centros urbanos, cidades interioranas e escolas periféricas, convivi e convivo com estudantes muito preparados e, também, com estudantes que apresentam deficiências incríveis, fruto de um processo de escolarização insuficiente e defasado. Professores mal pagos e mal formados, sem nenhum entusiasmo, reproduzem modelos de ensino de baixa qualidade, inibindo as potencialidades para a aquisição do conhecimento presentes em todos os indivíduos.

“O fluxo do pensamento é o fluxo da vida” (Peirce, 1972, p. 67). Para conseguir esse objetivo, tenho como eixo condutor a Semiótica ou Lógica das Linguagens. Valho-me da Semiótica como ciência que instrumentaliza a reflexão e que possibilita ler o mundo nas suas diversas representações. A expansão dos códigos e suas inter-relações exige dos seus usuários uma capacidade reflexiva e ordenadora. Nesse sentido, a Semiótica nos fornece os parâmetros para um entendimento lógico das linguagens, dos signos que as constituem e dos processos mentais que as concretizam.

Vivemos e pensamos segundo o modo como fomos iniciados a processar as substituições sígnicas que fazem parte de nossa cadeia de representações. E é esse modo que qualifica a trajetória de como iremos ler o mundo. Pensamento é ação, ação tradutora. Quando pensamos, não é o objeto, o fenômeno, o fato que está sendo pensado e, sim, as imagens mentais que deles emanam adquiridas pelas nossas vivências, experiências e aprendizados das linguagens que nos cercam. São os diagramas, as redes de associações que nos permitiram inteligir, que indiciam o design de nosso pensamento.

Normalmente, nossos aprendizados nos são ofertados de maneira linear e automática, sob forte influência de padrões rígidos, deixando de lado a percepção dos processos que originaram as representações. Sabemos que a forte influência dos hábitos mentais transformam o real em contínuo e homogêneo. “Terrível é ver como uma única idéia obscura, uma única fórmula sem significado, furtivamente instalada no espírito de um jovem pode, por vezes, agir como obstáculo de matéria inerte numa artéria, impedindo a nutrição do cérebro e condenando sua vítima a consumir-se no total domínio de seu vigor intelectual e em meio à intelectual plenitude”. (Peirce, 1972, p. 53)

Essa internalização de conhecimentos, em sua superficialidade, impossibilita a observação do pensamento como engenho capaz de se reorganizar a cada instante de elaboração, já que as linguagens e o mundo são mutantes e dinâmicos, exigindo, a cada nova aproximação do fenômeno, novas representações, novas significações. Uma das grandes lições da lógica peirceana é a busca da clareza das idéias. Não entendo a Semiótica como uma aplicação indiscriminada de suas categorias classificatórias. Esse tipo de aplicação pode nos conduzir à perda da riqueza dos processos de representações e suas articulações e possibilidades associativas infindas.

“Conhecer o que pensamos, dominar nossas próprias tensões daria sólido alicerce a um pensamento poderoso e ponderado.” (Peirce, 1972, p.52)

“… umas poucas idéias claras valem mais do que muitas idéias obscuras”. (Peirce, 1972, p.52)

Aprendizados feitos de palavras e conteúdos explícitos, que não despertam a curiosidade e a dúvida, pasteurizando a diversificação e multiplicidade da realidade das manifestações de linguagem, são os obstáculos que mais encontramos nos projetos de ensino com os quais nos defrontamos. São conjuntos de barreiras que se interpõem entre o querer e o saber o que querer.

Resgatar pensamentos inaugurais, regenerar sentimentos esquecidos ou não adquiridos, estabelecendo um elo com os primeiros passos de aquisição das linguagens, estimular entusiasmo diante da descoberta de que somos capazes de autotransformação pela via do conhecimento, tem sido a pedra de toque de minha atuação no magistério. Creio que nada confere mais sentido às coisas do que ser capaz de mudar o sentido, sentindo que foi o autor da mudança. Saber motivado, entendendo como motivação o fazer com entusiasmo aquilo que se está fazendo. Esse gesto mental consciente, organizado segundo a lógica da clareza de ideias, legitima o conhecimento, alimenta ações mentais futuras e, liberado o pensamento, se permite imaginações capazes de transformações.

O caminho é a busca de “… conceitos simples aplicáveis a qualquer assunto”. (Peirce, 1972, p.17)

Num universo de interatividade, todas as manifestações de linguagem fazem parte de um todo. Portanto, nesse resgate do passivo para o ativo (ação consciente dos processos do pensamento), busco a realização através do método das semiosis profundamente sentidas. Todos os sentidos se equivalem. O mental e o carnal não se dissociam. Esse continuum está presente em todos os momentos do ensino-aprendizagem.

“Saber ver é prever”. Leonardo da Vinci. (Valery, 1979, p.37)

“Pensamento que se aprofunda é pensamento que se aproxima do seu objeto”. (Valery, 1979, p.25)

“A educação profunda consiste na destruição da primeira educação”. (Valery, 1979, p.25)

São afirmações simples na sua aparência, porém revolucionárias na sua essência de significações. Portadoras dos caminhos do reconhecimento dos processos de aquisição, uso e significação das linguagens. Descobri que por uso de caminhos adversos e diversos perseguia essa integração, essa busca de harmonia entre o conhecer e o sentir. Tudo porque, até hoje tenho dificuldade de repassar aquilo que não foi por mim metabolizado e transformado em fluxo de vida e de pensamento. O organismo precisa pulsar para o impulso do aprendizado.

As classificações cenopitagóricas e todas as suas possíveis relações triádicas é que nos permitem o uso da Semiótica Geral com uma efetiva aplicabilidade. Geral, na medida em que se instrumentaliza na própria ação mental. Normalmente, o corpo docente se ergue para discursar, convencer, replicar e cobrar ensinamentos despidos de estímulos para o conhecimento legitimado. Para Peirce o “pragmaticismo não é um sistema filosófico, é apenas um método de pensamento.” (Peirce , 1958, 8.206) Só estamos prontos para ensinar e aprender quando nos reconhecemos nos processos de organização das linguagens. Os elementos de todo conceito entram no pensamento lógico através dos portões da ação utilitária; e tudo aquilo que não puder exibir seu passaporte nesses portões deve ser apreendido pela razão como elemento não autorizado “. (Peirce, 1958, 8.212)

“O efeito do pragmaticismo é simplesmente abrir nossas mentes para receber qualquer evidência; não para fornecer evidências”. (Pierce, 1958, 8.259)

A familiaridade e intimidade geradas pelo exercício da experimentação factual e mental, a aproximação junto aos objetos e fenômenos se traduz em ensino-aprendizado agradável, tornando-se integrador de atitudes mentais claras e ordenadas, auxiliares de capacidades participativas e criadoras.

Recapturar e ressemantizar nossas capacidades adaptativas, elevando-as a um patamar de compreensão que redesenhe o modo obscuro com que fomos ensinados a pensar, nos facilita o percurso para um pensamento poderoso e ponderado. Passamos a confiar em nossos insights, nas associatividades que nos) em outras representações que são outros signos. Operações tradutoras conscientes põem a nu o objeto de representação, expondo suas mais diversas facetas, tornando concreto e visível o aparentemente invisível e revelando o velado.

A organização de operações metalingüísticas propicia e alimenta essas traduções, projetando as relações estruturais que possibilitam a necessária consciência da linguagem, franqueando a sua natureza de código. Opero num espaço de decifrações (processos heurísticos), conduzidos por uma rigorosa fundamentação teórica que instrumentaliza e possibilita o vislumbre de novas leituras dos códigos institucionalizados.

Observando as experiências e os processos que as formalizam é que estaremos prontos para abrir nossas mentes a qualquer evidência. Processos associativos e relacionais serão captados num sentido produtivo, na formação de novas semiosis, já que a noção de experiência é empreender, por à prova, vivenciar. Experiência, aqui, equivale a experimentação, ou seja, ensaio, verificação. Portanto, a experiência como signo descontextualizado não tem valor de aprendizado. O valor reside no seu processo, nos degraus de passagem de um estágio a outro na incorporação do conhecimento.

A informação rara, o estranhamento fazem parte do jogo. Existe a tentativa de não reproduzir experimentos já encontrados. Quando os aprendizes captam esse processo, depois de um paciente investimento por parte do mestre, eles passam a ser os grandes colaboradores da sua própria transformação. Torna-se um projeto existencial, capaz de redesenhar o percurso de seus pensamentos e, consequentemente, de suas vidas.

Por conseguinte, pensar com clareza e reflexão é estabelecer uma cadeia semiótica, como manifestação fenomenológica de si mesmo e de sua relação com o Outro, com o ” fora de si “, interno e externo, com o familiar e o alheio, com o conhecido e o desconhecido. Só assim poderemos decifrar nosso ambiente mental e o ambiente no qual nossos pensamentos operam. Acredito que essas são razões sensatas para que possamos desempenhar nossa missão no mundo em que atuamos, nos tornando gestores do design de nossos pensamentos.

Roti Nielba Turin

MSC em Semiótica e Comunicação. Profª em cursos de Arquitetura e Design na Universidade de São Paulo e Universidade Positivo

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