Ericson Straub

Há algum tempo eu vinha pensando em ter um texto na revista sobre o tema que vou expor a seguir. Cheguei a convidar alguns colegas designers que possuem vivência acadêmica na disciplina chamada Ética (apesar do assunto não ser apenas ética), por acreditar que podem dar uma importante contribuição sobre o assunto. Até gostaria de tentar, mais algumas vezes, levar o convite a outros designers. As portas estão abertas e a discussão é ampla. No entanto, um fato específico, ocorrido recentemente, me fez voltar com urgência ao assunto e eu resolvi escrever.

Na madrugada de 22 de novembro, infelizmente, um de meus alunos perdeu a vida em um acidente de trânsito, em Curitiba. O acidente foi provocado por um outro jovem que, dirigindo embriagado, cruzou o sinal vermelho. Para alguns, o fato pode ter sido obra do destino. Outros podem nomeá-lo como uma fatalidade ou apenas como um crime irresponsável. Na verdade, não estou escrevendo mais um depoimento pedindo justiça. O que pretendo é, a partir deste fato triste e real, questionar o nosso papel na sociedade. Será que como designers, educadores ou mesmo como estudantes podemos fazer algo para construir uma sociedade com mais valores e mais responsabilidade?

Este fato foi apenas o estopim para o início deste texto. Ao longo do tempo, minha percepção de designer (que creio ser aguçada) me forçou a fazer diversas leituras do dia-a-dia e a questionar o nosso (e principalmente o meu) papel na sociedade. Escrevo este artigo em um momento no qual um importante ícone da política nacional foi cassado, fato que, até certo ponto, vem gerando um sentimento de desesperança quanto à possibilidade de termos um Brasil melhor. Afinal, quantas foram as cassações até agora e quantos são os políticos apontados como participantes do escândalo conhecido como “mensalão”? Quantos são os que fazem campanhas políticas com caixa 2? Quantos estão envolvidos em desvios de dinheiro público e outras falcatruas?

Devemos lembrar que, acima de tudo, a política é um espelho da nossa sociedade, assim como a maior de todas as nossas paixões: o futebol. E por falar em futebol, acho que a maioria dos leitores deve lembrar de um ou mais times que, durante um campeonato brasileiro, foram rebaixados para a 2º divisão e, em uma espetacular e típica virada de mesa, voltaram rapidamente para a 1º divisão. Isto sem falar em jogos anulados, em envolvimento de juízes com bancas de apostas, em campeões que vencem no tapetão e não mostram o mesmo valor quando estão em campo. No entanto, os mesmos torcedores que, sem dúvida, vibram com uma decisão a favor de seus times – ainda que injusta -, sem dúvida são os mesmos que reclamam da criminalidade, dos políticos, da falta de valores, das guerras de torcidas. Entendo que o amor verdadeiro é incondicional, mas será que tudo isso não faz parte de uma mesma engrenagem onde apenas o tamanho das peças é que muda?

Isso me faz lembrar uma palestra do designer canadense Alexander Manu. Ao ser questionado sobre a teoria e a prática do design e a sua relação com o meio ambiente, Manu disse, de forma bem clara, que o design com consciência ecológica é feito nas pequenas ações de nosso dia a dia, muito mais do que em atos de radicalismo. É lógico que sua explanação foi simplificada, mas sem dúvida expressa seu conceito básico que tem estreita relação com o meu ponto de vista. O próprio professor Antônio Fontoura, articulista desta revista, escreve com freqüência sobre o EDADE, um projeto de pesquisa no qual o design é parte integrante da educação das crianças, permitindo o entendimento não apenas da relação do homem com os objetos, mas também de valores éticos e sociais.

Toda vez que vou a algum hiper ou supermercado, minha percepção da realidade acaba por meu causar desconforto e tristeza. Boa parte dos clientes, depois de acomodar as compras em seus carros, simplesmente empurra o carrinho de compras atrás do veículo estacionado ao lado do seu, ao invés de guardá-lo no estacionamento de carrinhos. Na Europa, a maioria dos grandes locais de compra obriga o cliente a depositar uma moeda para retirar o carrinho que, ao ser entregue, é devolvida. Se este procedimento fosse implementado no Brasil, acho que os mesmos clientes que deixam o carrinho de compras atrás do carro ao lado diriam que isso é um desrespeito para com eles. Infelizmente, não é necessário ficar de plantão por alguns minutos nestes estacionamentos para ver cenas de desrespeito, basta ficar em qualquer fila que logo aparece a figura do “esperto”, aquele que gosta levar vantagem em tudo.

Muitos podem estar se perguntando: mas o que o design tem a haver com isso? Acho que não apenas o design, mas tudo tem a haver com isso. É triste ouvir, por exemplo, exaltados discursos de formandos de Direito criticando o País, a política e o sistema judiciário se, mais tarde, esses futuros magistrados nada fazem para mudar o sistema ineficiente da máquina judicial, preocupando-se apenas em manter os privilégios conquistados por seus pares, numa atitude que evidencia o que há de pior no corporativismo.

Acho que como designers, docentes, estudantes, clientes, fornecedores, cidadãos, enfim, devemos assumir nossos atos e cobrar que todos assumam os seus próprios atos. Isso é respeitar a si e aos outros. Como docentes, será que nossa importância não ultrapassa os limites do design? Que bom se eu tivesse, neste artigo, divulgando a todos os leitores a descoberta de uma fórmula para a conscientização. Mas sabemos que não existem soluções mágicas nem rápidas. Sabemos, acima de tudo, que podemos e devemos começar agora, hoje, já. Podemos e devemos discutir, debater, questionar para, quem sabe um dia, poder esclarecer qual é o nosso verdadeiro papel.

Contudo, ao contrário de muitos, tenho uma visão positiva do futuro. Para aqueles que dizem que a juventude perdeu seus valores, eu digo que a maior parte dos que abandonam carrinhos de compras atrás dos carros dos outros nos estacionamentos dos supermercados é formada por pessoas de meia idade. Indo mais longe, afirmo que os valores (ou “desvalores”) do jovem irresponsável de 21 anos que, no trânsito, tirou a vida de um futuro designer, também de 21 anos, foram herdados de seus pais ou familiares, daqueles que o criaram.

Depois de assistir inúmeras vezes a deprimente cena do “carrinho do supermercado” (tolice), até pensei em fazer uma campanha para a implementação do sistema de moedas nos carrinhos dos supermercados (outra tolice). Pensando bem, nada de campanha, acho que essa discussão pode e deve ficar viva dentro da gente, sendo transportada, dia após dia, para a vida real, para nossos atos cotidianos. Em nosso caso, basta pensar como os designers podem levar mais valores éticos à sociedade. Será este o nosso papel? Vamos começar já?

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