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Ericson Straub

Na última edição da abcDesign, iniciamos a série de artigos sobre a história dos cartazes políticos. Como já foi dito na introdução do primeiro artigo, a ligação dos meios gráficos com a persuasão de idéias políticas e sociais é antiga, mas a invenção da imprensa no século XV e, principalmente, a litografia em 1824, intensificaram essa qualidade. Por isso, a partir de meados do século XIX, os cartazes tornaram-se um importante veículo no meio comercial e cultural da Europa

Os maestros dos cartazes políticos russos

O cartaz passou por um período de testes desde meados do século XIX, após sua intensa utilização nos meios comerciais e culturais. Nesse período, provou ser um eficaz meio de persuasão, mais que isso, se estabeleceu como um inestimável recurso sensorial capaz de produzir uma catarse coletiva – necessária para dar uma energia irreal à guerra e aos problemas sociais que o século XX trouxe já nos seus primeiros anos. O cartaz era um excelente meio para dar um ar otimista aos sentimentos dos povos, que vislumbravam na trajetória dos conflitos um futuro de catástrofes. Assim, as mensagens transmitiam a exaltação do patriotismo, o fortalecimento dos pensamentos de igualdade e da vitória e, até mesmo, um desprezo por idéias ou inimigos. A evolução dos cartazes como meio de comunicação e persuasão caminha paralelamente com a evolução dos meios de impressão, os quais começaram a possibilitar a produção de cartazes coloridos de ótima qualidade.

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A Rússia do início do século XX,  sem dúvida, foi uma das mais importantes escolas na utilização das artes gráficas ou das artes em geral como meio de persuasão política. Na Idade Média, os artistas já colaboravam com a divulgação dos preceitos da Igreja e na persuasão do povo por meio de suas obras, porém de forma involuntária. Na Rússia, contudo, os mais importantes nomes das artes estavam realmente engajados em um ideal. O autor italiano Giulio Carlo Argan explica que “a crescente identificação com as idéias revolucionárias e os fundamentos da nova sociedade correm junto com o desejo de converter a arte em uma arma para construir, para transformar a sociedade, a realidade que haviam se apoderado”.

Até perto de 1917, existia uma grande influência francesa nas artes gráficas comerciais russas, somente após esta data é que o estilo russo encontra um caminho próprio, influenciado pelos artistas ligados ao processo revolucionário. Não se sabe ao certo o motivo, mas a Rússia foi um dos mais importantes celeiros de artistas gráficos e fotógrafos do início do século XX. Até mesmo nomes que não tiveram participação no engajamento revolucionário, tais como Vladimir Bobritzky, Sacha Stone e Alexei Brodivitch – assunto de artigo na abcDesign número 9 – possuem um trabalho singular. Essas personalidades emigraram e desenvolveram um importante trabalho de vanguarda nos Estados Unidos, sendo que Brodovitch exerceu importante influência no desenvolvimento de alguns alunos, como Irving Penn, Richard Avedon, Art Kane. Além disso, Brodovitch possui o mérito de lançar ao mercado editorial de moda nomes como Mann Ray e Henry Cartier-Bresson.

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O design gráfico e a revolução

A revolução colocou em movimento não apenas uma nova forma de perceber a sociedade, mas também um questionamento e uma proposta de ruptura com os modelos que estavam em vigor. Acima de tudo, ela propõe uma remodelação da sociedade e, naturalmente, as artes gráficas não ficavam de fora, já que os artistas eram peça fundamental nesse processo. Esse impulso coletivo de diversas vanguardas rechaçava o estabelecido, ou seja, rompia totalmente com o passado recente, inclusive como forma de negar o czarismo. Os construtivistas diziam que haviam recuperado a tarefa da arte de todos os tempos que é construir, alguns artistas inclusive colocavam a renúncia à própria arte em favor da “construção de um novo ideal”. A nova estética proposta utilizava diferentes meios, como a fotografia, a tipografia e, ainda, o incipiente cinema da época. O próprio Lênin apostava no cinema como um poderoso meio de persuasão das massas, já que na época 76% da população era analfabeta.

Acima de tudo, todo o meio artístico estava engajado na construção de uma nova sociedade, a sociedade coletiva e “igualitária socialista”. Talvez este engajamento que aglutinou a nata do meio artístico russo é que tornou esta vanguarda russa, sem dúvida um dos mais importantes – se não o mais importante, segundo o meu ponto de vista – movimentos estéticos, ligados ao design gráfico do século XX.

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El Lissitski, o maestro da comunicação

Um dos principais nomes do design gráfico russo, ou talvez, o principal foi o de El Lissitzky. Ele acreditava na necessidade de propostas de novos modos de utilização para os códigos já convencionados pela retina, prioritariamente a tipografia, não afetando apenas o desenho das letras, mas seu comportamento visual impresso e o vínculo com a nova proposta política. Uma prova disso é o manifesto tipográfico “A topografia da tipografia” escrita por ele.

El Lissitsky, sem dúvida, foi o grande maestro da propaganda russa, atuando tanto na concepção gráfica quanto textual, já que era também poeta e literato, primeiramente reconhecido por essas atividades, apesar de acreditar que texto e imagem fazem parte de um mesmo processo. Ele atuou na área do design gráfico, principalmente, na produção de livros e cartazes e também na área do design tridimensional, além de trabalhar como pintor. Junto com o poeta Maiakovski, desenvolveu uma nova estratégia de comunicação, na qual a tipografia era um dos principais valores.

Tanto El Lissitzky, quanto Maiakovsky estavam empenhados em um projeto de alfabetização estética das massas. El Lissitski produziu uma imensa quantidade de cartazes, revistas, livros, logomarcas e anúncios publicitários, alguns em co-autoria com Alexander Rodchenko. O fato de ter estudado na Alemanha, passando também um longo período na Suiça, com certeza, imprimiu um caráter internacional ao seu trabalho, tanto por receber influências quanto por levá-las a importantes nomes do design gráfico, como Moholy-Nagy, Kurt Scwitters, Gerrit Rietveld, Theo Van Doesburg, além de dadaístas. Em 1919, quando lecionava desenho em Vitebsk, na Rússia, foi colega de outro grande “gênio” do construtivismo, o importante artista Malevitch, que sem dúvida influenciou seu trabalho gráfico com o suprematismo.

El Lissitski desenvolveu importantes trabalhos gráficos utilizando colagens e uma aprimorada técnica de fotomontagem, mesclada a uma estética tipográfica renovada. Segundo Tchichold, tipógrafo e teórico suiço, autor do livro Die neue tipographie, “Lissitki aproveitou seu tempo na Europa para transformar seus projetos gráficos de livros em autênticas maravilhas tipográficas, para expor suas teorias em revistas, para divulgar sua obra e de seus colegas empenhados na educação das massas”.

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Alexander Rodchenko

É oportuna e inteligentíssima a citação do autor espanhol Enric Satué, que diz que a ligacão de Lissitski e Rodchenko com o design não se deve somente a grande quantidade de trabalhos gráficos desenvolvidos na trajetória profissional, mas, acima de tudo, a um compromisso que assumiram com uma comunicação dirigida que possuía, por trás, objetivos muito claros e destinados a um público específico. Desse modo, as concepções formais precisavam ser rápidas e eficazes, por isso, o par renunciou ao título de artistas, já que deveriam transmitir informações de maneira rápida. Rodchenko fazia parte dos construtivistas, os quais aderiram a Wladimir Tatlin e ao manifesto Produtivista e que pregavam um engajamento doutrinário e totalmente revolucionário, passando pelo campo da arte ligada à produção.

Rodchenko começou a trabalhar com o poeta Maiakovski, em 1923, desenvolvendo, em aproximadamente dois anos, uma significativa produção de design e publicidade. Contabilizam-se mais de 50 cartazes, cerca de 100 logomarcas, anúncios e diversos outros produtos. Provavelmente, Maiakovski foi um dos primeiros redatores publicitários, uma vez que somente por volta dos anos de 1950 surgiria nos Estados Unidos o “copywriter” – profissional responsável pela produção de textos e slogans dentro das agências de publicidades.

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Rodchenko pregava a produção de peças simples, com mensagens muito claras, visto que a maioria das pessoas que viam a obra, principalmente os cartazes, eram analfabetas. Por isso, ele valorizava a tipografia, utilizando tipos sem serifa e em grande dimensão, os quais junto com elementos da fotomontagem tornavam seus trabalhos gráficos um encontro entre sinais, imagens e significados, que ao mesmo tempo, se convertiam em algo atrativo. Também esteve ligado ao design editorial, sendo responsável pelas revistas Kino-fot, Novii Lef e mais tarde a URSS em construção. Além destas revistas, Alexander Rodchenko trabalhou na maioria das editoras de Moscou desenhando capas de livros das mais diversas áreas.

Os irmãos Stenberg

Os irmãos Vladimir e Georgy Stenberg não tiveram o status de El Lissitski e Rodchenko. A produção dos dois, entretanto, justifica a colocação deles em um local de extrema importância na produção de cartazes políticos russos. Eles possuíam experiência na produção cenográfica para teatros, meio no qual também trabalharam El Lissitski e Rodchenko. A grande contribuição estética dos irmãos está no fato de que, diferente de outros designers gráficos do construtivismo, eles não trabalhavam com a fotografia, mas utilizavam as fotografias e os fotogramas cinematográficos como referência para seu trabalho. Batizado de “realismo mágico”, essa técnica se baseava na ilusão tridimensional. A empresa durou cerca de dez anos e acabou após a trágica morte de Georgi Stenberg em um acidente de carro.

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Provavelmente, a maior contribuição para o design gráfico do século XX foi a vanguarda russa. Porém, o grande paradoxo é que, ao mesmo tempo em que na Rússia os “artistas gráficos” buscavam uma linguagem estética que servia de forma eficaz a um público com pouca instrução ou das massas operárias e camponesas, na Europa esses mesmos trabalhos eram cultuados nos mais importantes meios intelectuais do design, como a própria Bauhaus. O fato é que eles, descompromissadamente, desenvolveram algo próprio que influenciou não apenas uma época, mas todas as gerações que vieram nas décadas seguintes.

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