por, Chico Homem de Melo

Relato de uma experiência: durante quatro meses, vinte estudantes de arquitetura desenharam livremente. No final, um terço dos desenhos giraram em torno de uma mesma referência cultural. Adivinhe que referência é essa.

Explicações necessárias

  • Contexto: disciplina optativa de último ano de curso de arquitetura, ministrada em universidade pública, no primeiro semestre de 2008.

 

  • Número de estudantes: 20.
  • Material fornecido a cada estudante: um caderno de 120 páginas. Exercício solicitado: cada estudante deveria fazer um desenho por dia, 120 desenhos no total.
  • Tema livre, técnica livre. Orientação dada aos estudantes: desenhe qualquer coisa; pode ser do seu cotidiano, pode ser o que você está vendo, pode ser o que você não está vendo, podem ser rabiscos, podem ser linhas soltas. Tanto faz, o importante é desenhar todo dia. Uma ressalva: só não vale colagem, tem que ser desenho autográfico (ou seja, feito a mão); não pode pegar o papel de bala e colar na página; se quiser, desenhe o papel de bala, ou a nota fiscal do supermercado, ou a fotografia da revista. Pode tudo, desde que seja feito a mão.
  • Total de desenhos: 20 alunos x 120 desenhos por aluno = 2.400 desenhos.

No final do semestre, cadernos entregues, o que temos como balanço? Qual ou quais são os temas recorrentes, as referências culturais e visuais que compõem o repertório mobilizado cotidianamente pelos estudantes?

Uma surpresa: cerca de 800 desenhos — um terço do total! — adotaram uma referência muito precisa. Nenhum outro tema chegou sequer perto disso. Vamos tentar adivinhar que referência é essa; em outras palavras, vamos tentar adivinhar o que essa moçada tem na cabeça.

Primeira hipótese: a cidade

Qual é o signo mais potente da cultura contemporânea? A cidade, sem dúvida. A cultura atual poderia com tranquilidade ser chamada de cultura urbana. Portanto, qual seria a aposta certa quanto ao tema mais frequente dos desenhos? A cidade, em todas as suas infinitas possibilidades de olhares e de desenhos.

Balanço: o tema da cidade não chegou a 40 desenhos. 2% do total, aproximadamente.

Segunda hipótese: a arquitetura

Os estudantes que fizeram os desenhos são estudantes de quê? De arquitetura. Em que lugar vivemos todos nós? Em espaços construídos, em edifícios. Nada mais natural, portanto, que sejam eles os temas recorrentes dos desenhos. Planos gerais, detalhes, composições, modulações, ritmos, um universo sem fim de estímulos para o desenho.

Balanço: o tema da arquitetura não chegou a 40 desenhos. 2% do total, aproximadamente.

Terceira hipótese: a arte

Onde está ancorada nossa cultura de desenho? Na arte, ora essa. É ela que nos ensina a desenhar. E a arte abstrata, então? Gestos soltos, geometrias rigorosas, é um nunca acabar de opções para o desenho. Grandes artistas e grandes obras povoam nosso imaginário. Vão predominar as referências das artes visuais, com toda certeza.

Balanço: o tema da arte não chegou a 20 desenhos. 1% do total, aproximadamente. E ninguém pense que surgiram referências de arte contemporânea, de arte brasileira, do abstracionismo informal ou geométrico. Apareceram alguns Monets, alguns van Goghs, dois ou três Klimts, e só.

Quarta hipótese: o design

O que conforma o nosso cotidiano? O design. Estamos cercados de design por todos os lados. Vivemos hoje o mundo das marcas, dos objetos. O design está nas revistas, nos anúncios, nas embalagens, nas capas dos cds; ou ainda no mobiliário, nos carros, nos objetos — na caneta, no celular, na garrafa do refrigerante. Em tudo. É o design que vai predominar, não tem escapatória.

Balanço: o tema do design não chegou a 40 desenhos. 2% do total, aproximadamente. Nem uma marquinha sequer, nem um mísero swoosh da Nike, uma Coca-Cola, nada, nada, nada. Algumas cadeiras, algumas luminárias, uma ou outra tipografia, e olhe lá.

Quinta hipótese (bingo!): a internet

Parafraseando o dito célebre: — É a internet, estúpido! Esses jovens fazem parte da primeira geração que nasceu sob a égide do computador. Seu ambiente não é mais a sala de estar, é o espaço virtual. É uma geração que opera em rede. A internet já penetrou no DNA. Discutir as referências da cultura contemporânea passa inapelavelmente pela internet.

Balanço: a visualidade da internet não foi abordada por um único desenho sequer. Repetindo: nem um único desenho sequer. 0%. Nada vezes nada.

Sexta hipótese: os games

Claro, claro, não é a internet, são os games que efetivamente mobilizam essa moçada. Baralho, pipa, bola de gude, Lego? Em que século nós estamos, afinal? O espaço do lúdico migrou para a mídia eletrônica, é lá que estão as verdadeiras aventuras, os verdadeiros desafios. Um universo paralelo, auto-suficiente. O game é a nova realidade onde vive a juventude.

Balanço: a visualidade dos games não foi abordada nem por um singelo desenhinho. Nada de nada. 0%.

Sétima hipótese (última tentativa): seria a televisão, o cinema, o vídeo, a fotografia? Seria a moda? O grafite, a pichação? Seria o futebol, os esportes radicais? Quem sabe sexo, drogas e rock’n’roll?

Não, não, não não. Nenhuma Rede Globo, nenhum Indiana Jones, nenhum retrato de celebridade, nenhuma camiseta esperta, nenhum grafite, nenhuma pichação, nenhum gol do domingo, nenhuma prancha de surf, nenhum erotismo, nenhuma pornografia. Nada. 0%.

Chega. Afinal de contas, qual foi o tema desses 800 desenhos?

A resposta

Quadrinhos. Isso mesmo: quadrinhos. Um leque razoavelmente variado: Snoopy e Calvin, mangás, super-heróis. Mangás mais para as meninas, heróis mais para os meninos. Nenhum Disney. Graphic novels, só um pouco; parece que Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Dave McKean & companhia ainda não correm soltos nas veias da moçada.

Explicando melhor o resultado: nenhum estudante desenhou uma história em quadrinhos. O que se observa é que os quadrinhos foram adotados como referência visual desses 800 desenhos. E a referência identificada é a dos quadrinhos impressos, não a do desenho de animação, ou dos personagens de games. Quem alimenta os desenhos e a cultura visual dos estudantes são os personagens que habitam as páginas dos gibis.

[Uma pergunta provável: e o que apareceu no restante dos desenhos? Nenhuma outra temática específica se destacou; desenhos de figura humana, de folhagens, rabiscos soltos, anotações casuais, o gato, o cachorro. Alguns bons desenhos, outros fracos, nada que chamasse especialmente a atenção, ou que permitisse identificar uma referência cultural mais nítida. Cerca de 400 folhas em branco, também.]

Não é uma conclusão científica, não tem força de lei, mas tudo indica que, quando se trata de desenhar livremente, essa moçada tem quadrinhos na cabeça, mais do que qualquer outra coisa. Algo para se pensar a respeito.

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