Luciano Cassisi*

Uma reflexão sobre os motivos que levam a existência dos concursos  de ideias, sobre sua conveniência para todas as partes e sobre a qualidade dos resultados  que costumam produzir.

Uma das modalidades da contratação dos serviços de arquitetura, desenho industrial, publicidade, entre outros, é o chamado concursos de ideias.

Há os concursos abertos a um setor profissional, e os fechados, convidando um grupo reduzido especialmente a participar. Os primeiros são mais frequentes no setor público e nas ONG’s, enquanto os concursos fechados são mais comuns no mundo da empresa privada.

Por que os clientes procuram a modalidade concurso?

Sem dúvida, o principal motivo para convocar um concurso de ideias é  precisamente a falta de ideias: uma organização se encontra  numa situação,  que exige a intervenção em seus recursos de comunicação, infra-estrutura e/ou imagem, mas não tem  muito claro como  levar-lhe adiante.  Muitas vezes não conhece a fundo a natureza do problema que enfrenta, não domina todas suas dimensões e não sabe exatamente qual tipo de solução necessita, portanto, não está em condições de elaborar um programa completo que oriente a intervenção. Assim a possibilidade de obter muitas propostas de solução representa  uma alternativa mais que sedutora.

Certamente, a ausência de programa jamais é expressa: a organização não admitirá a sua incapacidade de gestão e sua carência de rumo.

Ainda  nos concursos públicos, existe um leque de necessidades escrito, e nos concursos fechados, uma reunião informal e simples com cada profissional, a demanda  quase sempre resulta excessivamente em aberta. No lugar de definir o rumo (o programa) e depois chamar os profissionais idôneos para o caso, os organizadores  decidem  passar o problema  completo aos participantes.

Os concursos têm um custo baixo para a empresa que convocam. O prêmio poucas vezes supera o valor médio do mercado do mesmo trabalho contratado diretamente. Isto representa um grande incentivo para os organizadores, que efetivamente esperam obter por meio do concurso mais ideias diversas ao mesmo tempo, e até por um menor custo.

A busca da quantidade e diversidade, responde à fantasia – geralmente errada – de que esses ingredientes aumentarão as probabilidades de achar a melhor solução.  Nos casos  mais complexos, também pode responder  a  “esperteza” de acumular ideias para construir uma  “super ideia”, que incorpore o melhor de todas elas, e dizer,  pra “roubar ideias”.

Ao beneficio da quantidade, a diversidade e o baixo custo só falta somar-lhe a vantagem de tirar de cima vários problemas que exigiriam tempo, a dedicação, a idoneidade, e a capacidade de gestão: estudar a fundo o problema, os casos homólogos, definir o programa, investigar no mercado qual procura por profissionais idôneos para o caso, negociar com eles o valor do serviço, participar ativamente na elaboração da solução, facilitando  todo tipo de informação (até confidencial), etc.

Existe outra razão para organizar concursos que não vai necessariamente  acompanhada das anteriores. Os concursos de arquitetura, desenho industrial, e desenho  gráfico no setor público ou nas ONG’s servem para conceder – pelo menos na aparência – transparência e legitimidade na gestão.

Por que  os profissionais  participam dos concursos?

Felizmente, não se trata da forma mais habitual de contratação. Existe uma fascinação por este tipo de  evento: a dos estudantes é compreensível, não precisa de explicação, no entanto, a aceitação quase incondicional que costumam dar aos profissionais às regras do jogo, sempre desvantajosas, merece pelo menos de uma análise.

Geralmente o incentivo maior que leva  a participar de concursos não é o valor econômico do prêmio – que costuma ser baixo-, mas sim o desejo do prestígio  profissional. Nos concursos de desenho gráfico e industrial, os profissionais geralmente não conseguem mais que isso, e muitas das vezes  não é suficiente. Em alguns concursos de arquitetura,  soma-se ao incentivo básico, a possibilidade  de assegurar certo fluxo de trabalho e/ou ingressos por uns meses, seja por obter a direção da obra ou ampliações do projeto original. O mesmo acontece nos concursos fechados de publicidade em que, o que está em jogo é um contrato  por um período de tempo.

Em cada caso, a oferta  pode parecer justa para muitos, sempre e quando se observa só a partir do ponto de vista do ganhador. E é claro, ninguém participa de concursos pensando em outra coisa senão em ganhá-los.

Se analisarmos  do ponto de vista dos participantes, quando os perdedores  não recebem nada  em troca de seu trabalho e investimento de tempo e dinheiro – em quase todos os casos-  sem dúvida  esta modalidade constitui  uma verdadeira farsa, habitualmente encoberta  por trás de falsos ares de “espaço de oportunidades participativo e democrático”. O certo  é que  dentro do processo  do concurso acontecem  fatos nada democráticos: a seleção dos membros do jurado, a eleição da ideia ganhadora, e a mesma tomada de decisão de anunciar o concurso.

Esta atitude  de “inconsciência masoquista”, se manifesta de forma individual – ao participar dos concursos-, mas também colegiadamente: as associações profissionais, os meios especializados e as casas de estúdios, são os principais patrocinadores dos concursos, entendendo que eles são “realizações” da profissão e os reclamam como “direitos” dos profissionais, e portas de acesso a níveis superiores da prática.

Esse entusiasmo fervoroso resulta em perigo, porque os concursos públicos sempre são utilizados pelas empresas privadas para baixar custos, e muitas vezes  pelos governos, para legitimar diante da sociedade intervenções conflitivas. Nesse jogo  ficam implicados – numa  cumplicidade  quase inconsciente – os concursantes, assim como os membros do jurado, e os entusiasmados (ou  cegos) patrocinadores.

Por que os resultados  geralmente são ruins?

A insuficiência  de programas  em que profissionais  se confrontam  nos concursos, obriga a análise da situação, e a elaboração de um programa próprio, sem contar com a totalidade da informação e retro alimentação necessárias.

Assim, as ideias respondem a uns programas ridiculamente diversos, baseados em hipóteses, e conjecturas, não verificadas com o cliente, no lugar de responder todas a um programa único e ajustado. As possibilidades que nesse esquema possam surgir ideias eficazes, são realmente baixas. Não se pode pedir a um médico que alivie uma doença grave com uma só consulta, mas ao perceber pode-se pedir aos “criativos” desenhistas, publicitários e arquitetos.

Quando as organizações necessitam contratar advogados, auditores, assesores, de marketing, assesores financeiros,  especialistas em software, etc.- todos os serviços que também precisam de boas ideias – por algum motivo -, não a chamam de concurso.  No caso dos serviços  relacionados à imagem e comunicação, a diferença  aparente  está, em que nestes sempre concluem a definição da forma final de produtos, porque que eles podem  tocar-se,  e olhar-se . Produtos percebidos com menos assuntos  de engenho, criatividade, decoração e bom gosto, certamente todo mundo se sente capaz para avaliar.

A verdadeira diferença é que os clientes que a chamam de concurso, compram produto ao invés de contratar um serviço. Como o produto não existe, não se pode conseguir procurando nas vitrines, aproveitam assim o desejo de prestígio ou a necessidade de trabalho dos profissionais para criar-se seu próprio “shopping” de ideias, a baixíssimo custo. É evidente que contratar um serviço como se estivesse comprando um produto, dificilmente poderá dar como resultado um bom serviço.

No trem de ganhar prestígio ou trabalho, e diante da impossibilidade de oferecer  um serviço de qualidade, os participantes no máximo farão um esforço, disparando um tiro no ar, na espera de acertar num alvo; pensando mais nas  preferências que imaginam que terá o jurado, que na verdade é a eficácia da solução.

Mas aqui não acaba  o problema. Na hora de avaliar as ideias, o jurado – geralmente integrado em sua maioria por membros não-técnicos – que também não tem estudado corretamente o problema e não tem um programa com o qual possa comparar o ajuste das propostas, se vê forçado a improvisar um novo programa ou a tomar uma decisão “amadora”, baseada fundamentalmente em “seu bom gosto”.

Seja por inconsciência ou por necessidade, ao acatar e avaliar as condições dos concursos, os profissionais – que  tão frequentemente caem na “megalomania” de considerarem fazedores do progresso e defensores das causas justas – não cuidam  do nosso profissionalismo e a dignidade de nosso próprio trabalho.

Ao aparecer, o “vírus” dos concursos produz mais “infecções” no mundo  empresarial que no nosso. Por isso é provável que os profissionais já tenham começado a produzir “anticorpos”: têm surgido fortes iniciativas de conscientização  que apontam que os concursos sejam considerados o que realmente são:  “demanda especulativa de trabalho” (spec work em inglês).

* Luciano Cassisi é designer gráfico, graduado pela Universidade de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Buenos Aires, e desde 1992 é professor nesta mesma instituição, além de dar aulas na Universidade Nacional de Quilmes e na FADU/UBA. Trabalhou com diversas empresas e junto a outros três colegas, criou, em 2005, o FOROALFA, do qual hoje é diretor.

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