O branco é um recurso recorrente tanto na arquitetura como no design modernista. Não é de se admirar, pois não há nada melhor do que uma superfície branca para afirmar o caráter inaugural de uma linguagem.

 

“Quando as catedrais eram brancas” é um livro célebre do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. O autor, mestre do modernismo, chama a atenção para o fato de que o branco era a cor predominante das imponentes catedrais europeias, ao invés do cinza produzido pela pátina dos séculos e já incorporado à imagem que fazemos delas. Convenhamos, não é fácil imaginar a Notre Dame de Paris branca… No mais das vezes, os edifícios modernistas optam por deixar à vista os materiais com os quais são construídos. Quando não é o material que está à vista, o tratamento visual mais frequente das superfícies dos edifícios modernistas é a pintura branca. Não é à toa que, se formos a Brasília visitar as obras projetadas por Oscar Niemeyer, nada se destaca mais do que a luminosidade cegante do branco onipresente.

No design gráfico de raiz modernista essa opção pelo branco também é recorrente. Aqui estão reunidos cinco exemplos de capas de livros, um campo onde o design modernista demorou para entrar, mas que quando o fez teve no branco um de seus recursos expressivos mais frequentes.

Da década de 1950, início da disseminação do design modernista no Brasil, temos dois exemplos contundentes: a capa projetada por Milton Dacosta para um livro de contos de Autran Dourado, e a capa de Décio Pignatari para os Cantares de Ezra Pound.

 

Na capa de Dacosta, podemos reconhecer o pintor por trás do designer: trata-se de uma composição abstrata, onde os textos são tratados como linhas que participam de um jogo espacial com o quadrado verde. A proporção dos elementos em relação ao campo da capa faz sobressair o branco como um espaço vazio onde flutuam os participantes desse jogo cujas regras são ditadas pela geometria.

1950s_NoveH

 

Já na capa concebida por Décio Pignatari é o texto que impera. O bloco no alto da página afirma de maneira peremptória o preto das letras sobre o branco do papel. O tipo Futura Extrabold dá massa às letras, tornando-as quase uma matéria em que se pode pegar. A poesia concreta tem na valorização da dimensão sígnica do texto um de seus eixos propositivos. Temos aqui a mesma ideia reafirmada na forma de design gráfico.

1959-60_EzraP

 

Da década de 1960 vem a capa projetada por Moysés Baumstein para a coleção Debates, naquele que é talvez o mais marcante projeto gráfico modernista da história editorial brasileira. É um projeto de coleção que aposta todas as fichas nas invariantes: nada muda de um livro para outro, a não ser a cor das faixinhas superiores e as informações grafadas: área de conhecimento, autor e título. O fundo de todas as centenas de capas, é claro, só poderia ser o branco da neutralidade e da sobriedade. E é exatamente essa hipotética neutralidade e sobriedade que acabou se tornando tão marcante a ponto da capa permanecer viva até hoje.

1960s_UEco

 

Por fim, da década de 1970, temos a coleção Depoimentos, com projeto gráfico do já citado Oscar Niemeyer, e a extensa série de livros de Fernando Sabino, com capas de Gian Calvi. Na Depoimentos, os textos e o desenho são relativamente pequenos em relação ao campo da página, de modo a enfatizar o plano branco do papel. Já nas capas de Gian Calvi, essa mesma ênfase no plano branco do papel é obtida por meio de outro recurso: todo o texto é reunido no canto superior esquerdo, de modo a ampliar o espaço da capa deixado vazio.

1970s_AForma

 

O modernismo negava o ornamento e tudo o mais que não fosse estritamente necessário. Além disso, ele pretendia se afirmar como o momento inaugural de um novo tempo e de uma nova linguagem. Bem, tendo esses princípios como plataforma, não é de se admirar que um dos recursos expressivos mais adotados pelo design gráfico modernista tenha sido o branco.

 

 

por, Chico Homem de Melo

Designer, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e diretor da Homem de Melo & Troia Design, um escritório com atuação voltada à educação e à cultura.  Também é autor de livros, entre eles “Os Desafios do Designer” de 2003 e “Signofobia” de 2006.

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