Por Guilherme Corrêa Meyer

"Mantenha ao seu redor coisas e pessoas que te inspirem". Ilustração de Alex Noriega.

"Mantenha ao seu redor coisas e pessoas que te inspirem". Ilustração de Alex Noriega.

 

O tema das emoções vem ocupando um espaço generoso nas discussões sobre o design. Se o seu impacto é notável, como parece ser, ele o é porque mexe em velhos paradigmas. Das colisões que o tema promove, surgem dissidências, formam-se novos grupos de pesquisa, dissolvem-se antigos, aparecem interessados no assunto, fortalecem-se algumas abordagens, e desmoronam-se outras. Provoca-se um movimento de inquestionável fervor. Alguns pensadores preferem desconsiderar a agitação causada, mantendo-se assim fiéis ao que antes vinham estudando e ao cenário costumeiro. Outros se mostram completamente afetados pela nova perspectiva, e a defendem bravamente, agindo sob o lema do “custe o que custar”, como se fossem responsáveis pelo surgimento do tema, e comprometidos por sua longa vida. E ainda outros, estes os mais sensatos (por uma simples questão de equilíbrio e coesão), procuram se apoiar nos problemas que a nova idéia gerou, para ajustá-la devidamente. Assim, confiantes de que somente esta última alternativa seja razoável, procuraremos realizá-la, modestamente.

Os primeiros estudos formais sobre o Design e Emoção, promovidos pela International Conference on Design & Emotion, em 1999, eram orientados pela idéia de que caberia ao design levar em conta o impacto emocional que seus produtos e sistemas gráficos exerciam na sociedade. Estes estudos partiam de uma crítica geral de que os produtos não satisfaziam mais por suas “funcionalidades”, e que haviam chegado num nível de “perfeição técnica” em que o “prazer”, o “desejo”, e os “sentimentos inspirados” passariam a levar a melhor (Overbeeke e Hekkert, 1999, p.5).  Uma vez identificado este nicho de pesquisa, abriu-se espaço para a exploração de um novo aporte teórico, de novos métodos, e novas ferramentas que assessorassem as práticas interessadas nas questões emocionais de uso.

Demir (2008) sintetizou os objetivos destes estudos em dois eixos principais. Um deles, atender as expectativas emocionais dos usuários, de forma a lhes proporcionar uma melhor qualidade de vida (McDonagh e Lebbon, 2000). O outro, entender o impacto emocional dos produtos no momento em que o usuário decide-se pela compra de um produto, de forma a aumentar as chances de venda deste produto.

Os objetivos enunciados indicam, por si só, dois núcleos diferentes. O primeiro repousa sobre a qualidade de vida do indivíduo. O segundo, sobre a venda do produto. Ou, em outras palavras, a um interessa o indivíduo, ao outro, o produto. Mas, apesar desta diferença latente, as críticas, ainda assim, recaem sobre ambos os lados.

Para Love (2009), ambas as perspectivas falham por não partirem de um “entendimento detalhado das interações entre indivíduos e objetos”. A análise do autor destaca, inicialmente, a superficialidade destas pesquisas, que desconsiderariam o detalhamento de aspectos que lhe seriam fundamentais. E enfatiza, mais adiante, a inversão de suas prioridades, que estariam privilegiando detalhes e recursos dos produtos, ao invés da reação emocional dos designers e usuários em relação ao produto.

O detalhamento a que Love se refere, diz respeito aos, não menos genéricos, aspectos biológicos, pessoais, sociais e culturais de uso dos produtos. Damásio pode nos ser de grande serventia para pensar nestes aspectos. Ele nos explica a maneira como as pessoas processam as emoções, e mais precisamente a forma como elas reagem emocionalmente aos produtos com os quais se relacionam. Para o autor, esta reação é influenciada por aspectos sociais, culturais, biológicos e por experiências pessoais, que variam de pessoa para pessoa, de sociedade para sociedade e que não apontam em hipótese alguma, para um denominador comum. Sobre o aspecto da experiência pessoal, imaginemos uma criança que sofre um terrível mal estar provocado por uma briga de torcidas em um estádio de futebol. Quando ela, depois de adulta, retorna ao estádio, é provável que experimente uma sensação semelhante à vivenciada na infância, ainda que a nova ocasião não ofereça qualquer iminência de perigo.

O entendimento detalhado da relação das pessoas com os produtos, sob a instrução de Damásio, passa também por uma etapa de avaliação não automática, em que nos postamos frente aos produtos de acordo com aquilo que nos foi ensinado. São emoções que correspondem com o que a cultura postula. São ensinadas, portanto, correspondências emocionais para dados objetos e situações, que não dizem respeito a uma reação inata.  Um exemplo é o consumo de produtos que não agridam o meio ambiente, cuja realização costuma provocar emoções agradáveis em pessoas que aprenderam o valor do consumo consciente.

Ao que parece, a falta de aprofundamento que incomoda a Love diz respeito à maneira como alguns estudos do Design e Emoção têm deixado escapar estes aspectos. Uma vez concordado que as respostas emocionais das pessoas frente aos produtos sejam influenciadas por eventos tais como as experiências pessoais, e as lições culturais de cada sociedade, tornam-se questionáveis as virtudes de qualquer mecanismo que proponha universalidade. Afinal, como falar em parâmetros universais num contexto em que cada pessoa e cada sociedade devam ser tomadas como referências únicas?

Talvez por isso as críticas sobre as técnicas e ferramentas utilizadas para se mensurar a relação emocional das pessoas com os produtos sejam tão incisivas. A promessa destes instrumentos, de medir universalmente a emoção provocada por um produto, sensibiliza nitidamente a comunidade de pesquisa de design (basta que se veja a presença do tema nos congressos e nos periódicos de design), e as empresas que trabalham com produtos e serviços. E não é por menos: afinal conhecendo os aspectos mais favoráveis ao bem-estar subjetivo de seus usuários, as empresas como que aumentam as chances de acertar em cheio ao lançar um produto.

Somada às duvidas sobre a capacidade destes instrumentos, as críticas também repousam sobre a finalidade comercial das pesquisas sobre o tema. Isto ocorre porque o viés comercial dos estudos acaba por comprometer, em algum nível, a qualidade de vida da sociedade, assim como o bem estar comum, as condutas responsáveis, e a transformação de “realidades existentes em outras mais desejáveis” (Frascara, 2000, p.19).

Mas apesar de toda a desconfiança depositada sobre o cenário dos estudos do Design e Emoção, não se pode fechar os olhos diante dos avanços que algumas pesquisas têm alcançado. Além disso, o fato de estas críticas recaírem sobre este novo empreendimento do design, não é privilégio do tema. Lembrando Popper, o processo de investigação de um objeto qualquer passa por um exercício marcado por conjecturas e refutações, de que não se pode furtar. Assim, a partir destas contestações, começam a aparecer meios de se sobrepujar os problemas das abordagens incipientes. No caso do tema das emoções no design, encontramos o material das ciências sociais e da antropologia, que, por exemplo, vem revelando grande serventia. Entre eles talvez se destaquem com maior proeminência a etnografia, a observação participante, o grupo de foco, entre outros instrumentos qualitativos.

Deve-se destacar, apesar destas agruras todas, que para se tratar adequadamente os problemas de um tema qualquer, é fundamental antes observar seus elementos constitutivos. É somente através deste exercício que podemos identificar os instrumentos pelos quais o campo pede. Estas escolhas não podem ser feitas através de outro sentido, estabelecendo-se os métodos antes de conhecer-se o objeto a ser investigado. No caso do Design e Emoção percebemos, algumas vezes, esta inversão. E nos damos conta de que quando tal operação ocorre, desvirtuada, chega-se a um resultado parcial e fragilizado. E o percurso para avançar-se no tema torna-se, invariavelmente, mais longo e tortuoso.

Bibliografia

DEMIR, E. The field of design and emotion: concepts, arguments, tools and current issues, 2008. Disponível em

http://jfa.arch.metu.edu.tr/archive/0258-5316/2008/cilt25/sayi_1/135-152.pdf (acesso em fev. de 2010).

FRASCARA, J. Diseño Gráfico para la gente: Comunicaciones de masa y cambio social. Buenos Aires: Ediciones Infinito, 2000.

MCDONAGH-PHILP, D. and LEBBON, C. (2000) The Emotional Domain in Product Design, The Design Journal, 3(1) 31-43.

LOVE, T. Design and Emotion: Time for a New Direction?, 2009. Disponível em http://www.iasdr2009.org/ap/Papers/Orally%20Presented%20Papers/Behavior/Design%20And%20Emotion%20-%20Time%20For%20A%20New%20Direction.pdf (acesso em março de 2010).

Overbeeke, C. J., & Hekkert, P. (Eds.) (1999). Proceedings of the 1st International Conference on Design and Emotion. Delft: Delft University of Technology

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