Mariana Di Addario Guimarães

O Centro de Design Paraná e a Impress Decor trouxeram ao Brasil Mechele Popcorn, da empresa americana BrainReserve. Parte do 11° Design To Business, a visita da consultora teve o objetivo de apresentar a estudantes e profissionais brasileiros as principais tendências de consumo para os próximos anos.

“Se você soubesse o que vai acontecer amanhã, o que faria diferente hoje?”. É essa questão é que motiva os trabalhos do escritório BrainReserve, em atividade desde 1974. Os trabalhos são comandados pelas irmãs Faith e Mechele Popcorn, especialistas em estudar o comportamento da sociedade a fim de prever o que irá nortear o consumidor nos próximos anos.

A dupla é tão boa, que as irmãs são consideradas gurus no universo do marketing. Isso porque a outra especialidade da empresa são as consultorias. Com as informações estratégicas em mãos elas ajudam na reformulação e desenvolvimento de novos produtos e avalia o posicionamento da marca, sugerindo mudanças quando necessário. Pela competência, a lista de clientes da BrainReserve reúne nomes de peso como BMW, IBM, GE, McDonald’s, Pepsico, Avon e a lista continua.

O Design To Business foi realizado em paralelo à Formóbile, feira do setor moveleiro, e muitos dos expositores também foram convidados à palestra. Por isso, Mechele acabou apresentando apenas quatro das 17 tendências que existem no trendbank (banco de tendências) da BrainReserve. As previsões apontaram muitas possibilidades para o desenvolvimento de produtos, tendências na arquitetura, design de interiores, e uso de materiais.

Uma amostra do hoje

Cocooning (encasulamento) – “a necessidade de nos protegermos em casa da crueldade e da imprevisibilidade do mundo” – é uma das previsões mais antigas da BrainReserve (de 1991), mas não poderia ser mais atual. O medo causado pela violência, desastres naturais, acidentes, pessoas de má fé, aliado à tecnologia e às facilidades, como a internet e os deliverys, fizeram com as pessoas se isolassem em suas casas. Desde que foi previsto, o Cocooning inspirou inúmeros produtos e serviços, mas há duas outras grandes tendências que levam para outro nível projetos para nossos “casulos”.

Being Alive (sentir-se vivo) é uma tendência que surgiu por causa da longevidade que a vida moderna proporcionou. Se há alguns anos a expectativa de vida era de 50, 60 anos, hoje é possível viver mais e muito melhor graças aos avanços da ciência e da medicina. Por esse motivo, as pessoas buscam mais saúde, com alimentação e hábitos saudáveis e ambientes que contribuam à qualidade de vida.

“Será que nossas casas podem salvar nossa saúde”? É a pergunta lançada por Mechele ao público da palestra. A resposta é óbvia: com certeza há muito potencial, e, segundo a consultora, já existem empresas explorando isso. Um exemplo interessante é o banheiro inteligente, que equipado com tecnologias capazes de medir pressão e nível de açúcar poderá ser quase um novo “consultório médico”.

Uma boa noite de sono também é essencial para se manter a saúde. Durante muito tempo a industrial farmacêutica foi a principal aliada de quem tem problemas para dormir. Hoje, ao invés de apostar nas pílulas a preferência é por investir no design adequado dos dormitórios, colchões e travesseiro. Segundo as pesquisas da BrainReserve os americanos preferem gastar mais em seus colchões do que em televisões, sendo que produtos de luxo atingem U$S 60 mil.

S.O.S é uma tendência que trata de um conceito muito debatido ultimamente: sustentabilidade. As opções onde se aplicar sustentabilidade na casa são infinitas e a cada dia os consumidores estão mais exigentes. Mechele apresentou alguns dados interessantes: 96% da população chinesa estão tomando alguma providência pessoal para tentar amenizar os efeitos do clima. Já os americanos preferem pagar até 6% a mais se souberem que o produto é bom para o meio ambiente e pagam até US$ 9.000 na construção da casa se houver redução nas contas.

Em relação à arquitetura e ao design de produtos e móveis, segundo a consultora, uma das principais tendências é a reutilização de materiais. Há empresas especializadas em resgatar materiais de construção civil de casas que são demolidas (que ainda podem ser utilizados, é claro) para construir novas casas. No melhor estilo irmãos Campana, empresas e instituições apostam na reutilização de materiais para o desenvolvimento de novos produtos. Um exemplo legal foi o IKEA Hackers, um grupo que por gostar tanto da loja sueca reutiliza os móveis danificados da empresa para criar outros. A IKEA não só aprovou a iniciativa como está apoiando seus “freelancers”. Isso porque as empresas sabem que o consumidor espera ações das marcas por um mundo melhor e como Mechele diz: “Fazer o bem é um símbolo do sucesso”.

A casa sustentável também leva em conta a estimativa de que, nos próximos anos, 50% da população viverão em centros urbanos. Ou seja, menos espaço para todos. Mas isso não é necessariamente ruim. Pesquisas da BrainReserve mostram que 60% dos americanos preferem casas menores com utensílios mais práticos e eficientes. Os espaços se tornam “multi-uso” e mais personalizados.

Espaços menores significam também se livrar da “tranqueira”. Um modo mais simples de se viver que está totalmente relacionado à tendência sustentável, mas que ainda vai de encontro com nossa sociedade consumista e baseada no excesso. “Estamos em uma fase de adaptação e é ainda difícil de saber as conseqüências disso”, comenta Mechele. Talvez seja por isso que surgem iniciativas como a www.nsgcd.org, voltado àqueles que sofrem de desorganização crônica e dificuldade de se desfazer das coisas. Quanto ao futuro do mercado, repleto de empresas, com excesso de ofertas e desperdícios em nome do consumismo, só o tempo irá dizer.

Emoção e Fantasia

Uma das preocupações dos designers atualmente é desenvolver produtos que trabalhem com a emoção. Nesta edição, você confere um artigo pelo professor Antônio M. Fontoura sobre o tema, e na edição 24, outro texto da Universidade Caxias do Sul.

Mas não é só o design que explora a emoção do ser humano. No marketing há empresas especializadas em ações de conteúdo. O objetivo é vender a marca por meio de experiências e entretenimento que cativem o consumidor. “Hoje o interessante é sussurrar e não gritar a marca” aponta Mechele. São campanhas como Claro que é Rock, onde todas as bandas foram escolhidas pelo público, o selo musical criado pela Starbucks, a rádio SulAmérica (de seguros) com 24 horas de programação sobre o trânsito, e as pistas de skate construídas pela Nike.

Esses exemplos são uma amostra de como é possível explorar a quarta tendência apresentada por Mechele Popcorn: o Fantasy Adventure. Segundo a consultora, as pessoas – dada a quantidade de trabalho, a opressão da violência e da pressão social – procuram um pouco de aventura em suas vidas. Uma rica fonte de inspiração para criar produtos e serviços.

Cada um tem o seu ideal de aventura. Pode ser pular de pára-quedas, explorar a savana africana ou visitar o espaço (como já é possível hoje em dia). Para quem pode, é possível pagar caro para realizar suas aventuras. Há quem esteja disposto a pagar US$ 11 mil em uma poltrona que flutua, outros que investem em um observatório em sua própria casa. Atém mesmo cozinhar pode ser uma aventura se é em uma cozinha luxuosa desenvolvida pela marca de carros Porsche. O luxo não deixa de ser uma aventura, pois é um momento de gastar e algo que nos deixa feliz, mas nem toda aventura precisa ser cara.

Mas o comodismo, o medo e falta de recursos leva as pessoas a também explorarem a aventura sem os riscos do real e para isso, a internet é o espaço perfeito. No Second Life, é possível brincar, jogar e se tornar alguém muito próximo da sua fantasia idealizada. E não é uma onda passageira. Somente no Brasil, segundo pesquisas da BrainReserve,15% da população participa do Second Life.

Mesmo que não arranque dinheiro do consumidor, explorar a fantasia das pessoas pode ser um mercado lucrativo. Atém porque, como Mechele aponta muitas vezes esse “luxos” são caros por se tratarem de novidades, “na medida em que algo se populariza a tendência é que barateie”.

O que dizem as cartas?

O banco de tendências da BrainReserve possui outras 13 tendências às quais designers e comunicadores devem ficar muito atentos. Para quem quiser conhecer todas é só entrar no faithpopcorn.com e acessar o trendbank. Mas aqui destaco mais algumas.

A 99 vidas diz respeito ao fato de assumirmos diversos papéis por causa de nossa vida corrida e dividida entre trabalho, amigos e família e vida virtual. Somos parte de uma sociedade esquizofrênica incentivada pela mobilidade que celulares e internet proporcionam. Portanto, é possível criar produtos e serviços que nos acompanhem em cada em dessas nossas vidas.

As irmãs Popcorn acreditam que essa vida corrida nos faz questionar sobre a nossa satisfação em relação a objetivos pessoais e profissionais. “Algumas pessoas acabam optando por uma vida mais simples” diz Mechele. É a tendência Saldando Lucros. Talvez seja por isso que elas também tenham verificado a nossa necessidade de Ancoramento que se refere à busca pelas nossas raízes espirituais, revendo aquilo que nos fazia seguro no passado para nos prepararmos para o futuro.

Um futuro nos assusta porque vivemos em meio a um caos social, econômico e político, e isso dificulta a nossa habilidade de imaginar o amanhã. É a Tensão Futura. Por isso, nos sentimos ansiosos, e como consumidores acabamos valorizando pequenos prazeres ou, até mesmo, “chutando o pau da barraca” em certos momentos. A isso a empresa chama a Vingança do Prazer.

Uma tendência importante é o papel das mulheres na sociedade, que ganha cada vez mais destaque no mercado. Segundo a tendência EVEolution, o modo como mulheres pensam e se comportam tem impelido o mercado a mudar o modelo hierárquico para um modelo baseado na relação individual. Mas não é só isso. As características femininas, como a capacidade de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo, a intuição e a cooperação também estão se mais importantes que a competitividade, a objetividade e a ação, típicos do comportamento masculino.

Em meio a uma sociedade de bilhões de pessoas, que é massificada pelos meios de comunicação, o individualismo também desponta. A Egonomia trata do incentivo a personalização de produtos, dada a nossa vontade de sermos reconhecidos como indivíduos.

Contudo, cada vez mais nos unimos a grupos de gostos e pensamentos semelhantes aos nossos, nem que estas pessoas estejam do outro lado do mundo. O Clanning (sem tradução para o português) se refere à necessidade de validarmos as nossas próprias crenças.

Mechele e Faith apontam também o surgimento do Consumidor Vigilante que, por estar cada vez mais ciente de sua responsabilidade, exige das empresas determinadas ações e exerce pressão por meio de protestos. Este poder coletivo e o enfraquecimento das instituições contribuem também para a Queda dos Ícones, tendência que aponta a um questionamento de certos pilares da sociedade, como o governo, a igreja e a escola.

O futuro é agora

Logo no início de sua apresentação, Mechele Popcorn fez questão de explicar ao público brasileiro que identificar tendências não é a parte mais complicada do trabalho. É preciso apenas manter os cinco sentidos atentos ao que está acontecendo, seja na mídia, na internet ou na própria rua, para percebemos o que está sendo oferecido no mercado e como o consumidor está se comportando. Detectar uma tendência é tentar antecipar as conseqüências destes comportamentos.

Contudo, o desafio mesmo é saber como aplicar estas informações de forma eficiente e imediata no mercado. A isso Mechele e Faith Popcorn chamam de “Futurismo Aplicado” que é a verdadeira especialidade do BrainReserve.”As pessoas pensam que as tendências que detectamos só vão acontecer daqui a alguns anos, mas a verdade é que estão acontecendo agora. A dificuldade é sabermos como agir agora de acordo com estas tendências para termos bons resultados amanhã”, ressalta Mechele.

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