Mariana Di Addario Guimarães

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A joalheria tem um início simbólico há mais ou menos sete mil anos, quando nossos ancestrais viram formas na natureza que podiam ser usadas para enfeitar o corpo. Conchas e ossos foram os primeiros colares e broches, mas depois da descoberta do ouro e das pedras preciosas esta arte tomou novas direções.

Hoje, o termo jóia vai muito além do ouro e dos diamantes e o design contribuiu muito para isso. Embora a joalheria de luxo ainda se mantenha firme no mercado, vemos nascer peças de alto valor agregado feito dos materiais mais simples, como as sementes do passado ou as garrafas pet do presente.

Em contrapartida, observamos que o ouro e os diamantes agora fazem parte de alguns objetos do dia-a-dia. A tendência do luxo, que está tão presente na moda, e o estilo bling-bling dos rappers americanos, fizeram aparecer no mercado celulares cobertos de ouro e até dentaduras de brilhantes.

Neste contexto em que tanto o glamour como a sustentabilidade estão em alta, o Brasil se destaca pela criatividade e qualidade de design. O mercado internacional se rende aos encantos da joalheria e da criatividade brasileira, e o mercado interno lentamente passa a valorizar a importância do design.

O Brasil faz jóia

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Gargantilha de ouro, coral e diamantes, Solange Chemin

A situação brasileira no ramo das jóias é animadora. Possuímos ricas fontes de matérias primas – em especial as pedras brasileiras – e o nosso design é reconhecido lá fora. Designers brasileiras, como as mineiras Adna Sales e Carla Abras, a paulista Eliane Gola e a carioca Ludmila Valente já ganharam prêmios internacionais, entre eles o Gold Virtuosi, o World Facet Award e o Diamond International Award, todos reunindo apenas a “nata” da joalheria de luxo.

Vendemos jóias e matérias-primas para cerca de 50 países, especialmente Arábia Saudita e Emirados Árabes. Este mercado movimentou em 2007 mais US$ 1 bilhão segundo o IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos). Somos o maior exportador do mundo de pedras preciosas em estado bruto, no entanto ocupamos o singelo 18º lugar em exportação de jóias prontas. Ou seja, o Brasil tem potencial para expandir ainda mais no setor.

A H. Stern é um dos exemplos de sucesso da joalheria nacional que pode servir de inspiração aos futuros profissionais. A principal joalheria do país foi fundada há 60 anos no Rio de Janeiro pelo alemão Hans Stern (que faleceu em outubro deste ano). Hoje, a rede possui 80 lojas espalhadas nas principais capitais do mundo e suas peças foram parar até nos pescoços, orelhas, dedos e pulsos das estrelas de Hollywood. Mas esta não é a única história brasileira de sucesso como veremos a seguir.

Do Brasil para o mundo

Brincos positivo-negativo Clementina Duarte

Brincos positivo-negativo Clementina Duarte

Clementina Duarte teve um início de carreira pouco comum. Esta recifense formada em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco, quando estudava no Institut D´Arts e Métiers, em Paris, percebeu não havia uma tradição brasileira na arte da joalheria. As possibilidades de criação motivaram Clementina. “Era a grande ocasião e oportunidade para iniciar o desenho de uma jóia verdadeiramente brasileira”, conta.

Logo em sua primeira exposição chamou a atenção do consagrado estilista Pierre Cardin, que, entusiasmado com o trabalho diferente de Clementina, desenhou uma coleção de vestidos especialmente para suas jóias. Quando convidada pelo estilista para trabalhar em seu atelier, Clementina preferiu regressar ao Brasil, decisão que diz ter sido uma das melhores de sua vida. “Estava procurando não perder a minha identidade”, revela a designer.

E realmente o foi. Hoje, Clementina Duarte, com suas peças quase sempre inspiradas na natureza brasileira, é considerada uma das designers de jóias mais importantes do mundo, de acordo com a revista International Jeweler. Algumas de suas criações, como os brincos posito-negativo, já foram editados 8 mil vezes, e ela é a designer das jóias oficiais do Itamaraty.

O mercado consumidor

bracelete Sílvia Döring

bracelete Sílvia Döring

Ainda há muitos passos a serem dados até que o design tupiniquim conquiste seu merecido espaço no mercado internacional. O próprio mercado brasileiro também pode desenvolver mais o seu potencial consumidor. Dentro deste contexto, o desafio do designer brasileiro é criar peças bonitas, mas também vendáveis, especialmente agora que o luxo está na moda!

Silvia Döring sentiu na pele este desafio quando trabalhou como gerente de produtos na Bergerson. Ela conta que em sua primeira coleção para a Bergerson, viveu o sonho de todo designer, teve liberdade total de criação. “Usei diamantes grandes, pérolas especiais. A coleção ficou linda, mas não vendeu o que deveria ter vendido porque ficou muito cara. Demorei cerca de um ano e meio para me adaptar a fazer jóias no padrão da joalheria dentro deste contexto”.

Custo não é o único desafio de um designer de jóias. Na opinião de Silvia e de Clementina, o mercado brasileiro ainda não valoriza o design como fator fundamental para a beleza e continuidade de uma peça. “O mercado brasileiro ainda está em formação, e muitos dos compradores acabam adquirindo peças da moda sem considerar a qualidade da jóia”. Sílvia concorda, e acrescenta “na Europa valoriza-se mais o design e existe público para peças diferenciadas e com materiais alternativos”.

Para Silvia, um dos públicos mais difíceis de agradar é o dos jovens, pois eles procuram especialmente peças grandes. A vontade de fazer peças com mais estilo e “peso” foi um dos motivos pelos quais a designer encerrou suas atividades na Bergerson, depois de oito anos de empresa, para reabrir seu ateliê próprio. Seu objetivo agora é fazer peças em prata e bijuterias, além de acessórios como bolsas e cintos. Silvia deixa a dica: “Sempre estamos de olho nas tendências da moda, mas é importante fazer peças atemporais. Afinal, uma jóia não é algo que se compra com freqüência”.

As possibilidades do design

Colar Margaux Lange 1

Colar Margaux Lange 1

Os ateliês próprios e as peças autorais são as opções preferidas dos designers de jóias que procuram liberdade de criação e uma assinatura própria. Muitos destes profissionais estão seguindo a tendência dos materiais diferenciados, como resinas, acrílico, couro, fitas, cerâmica e até mesmo concreto, que já estiveram presentes nas mais badaladas passarelas e feiras especializadas.

Solange Chemin é umas das designers que aposta na mistura de materiais. Esta artista plástica é apaixonada pelo luxo das jóias e há mais de 20 anos ela desenvolve suas peças e dá cursos práticos na área. Em seu trabalho está clara a preferência por peças grandes com a mistura pedras brasileiras, prata, ouro e fitas, criando jóias suntuosas e elegantes.

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Brinco Salma Nasser

Salma Nasser é uma designer que já apostou na utlização de materiais que poderiam ser considerados lixo para fazer luxo. Ela chegou a fazer uma coleção com objetos catados no chão, dando vida, caráter e luminosidade às peças. O trabalho foi muito bem recebido e acabou sendo exposto na galeria Zonad de São Paulo, por meio do projeto Nova Jóia que dá espaço e incentivo à jóia contemporânea.

Mana Bernardes é uma designer que levou ao extremo a mistura de materiais. Garrafas pet, colherinhas de café e bolas de gude chegam à mão da artista plástica que os transformam em peças singelas e irreverentes. Seus trabalhos chegaram a lojas moderninhas de Nova York e Paris e foi até convidada pelos irmão Campana a expor na Fundação Cartier na mostra J’ en Revê, que reuniu novos artistas de todo o mundo. Prova que o design brasileiro, seja em ouro ou em plástico, está tendo o reconhecimento que merece.

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Colar de palitos e pérolas, Mana Bernardes

Vale o quanto pesa?

Como foi dito antes, o luxo está em alta, e grande parte disso é conseqüência do efeito bling-bling, “movimento” do hip hop americano que “luta” pelo direito de se encher de brilho. Brincadeiras à parte, realmente o rap americano está contribuindo muito para a venda do luxo.

Artistas como P. Diddy, 50 Cent, entre outros aparecem nas festas mais badaladas usando pingentes enormes, brincos de diamantes, e foram além. Criaram novos acessórios como cadarços de ouro, Kickbars (barrinhas de brilhantes e ouro para serem usados nos tênis), e como deixar de esquecer os grillz, que nada mais são que dentaduras douradas ou adornadas com pedra. Gosto não se discute, mas a moda pegou. Até mesmo Britney Spears entrou na onda.

Mas A tendência do bling-bling não se limita aos acessórios. Hoje, quase tudo pode ser tocado pelo ouro. Computadores podem ser personalizados com ouro e brilhantes, pen-drives, canivetes, mp3 players, celulares, e por aí vai.

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Em alguns casos, a extravagância chega ao limite. A empresa de cosméticos Shu fez com exclusividade para a Madonna um par de cílios postiços com diamantes pela batagela de 10 mil dólares. O laboratório suíço La Prairie criou uma linha de tratamento feito à base de partículas de ouro 24 quilates. A marca Dior lançou uma versão especial de seu perfume J´adore, também com partículas douradas.

Os estilistas Dolce e Gabbana, depois de lançarem a sua versão do celular Motorola – todo dourado, é claro – abriram um espaço em Milão feito de ouro do chão ao teto. A marca Absolut, de vodka, também se cobriu de ouro para este ano, lançando uma campanha inspirada do bling-bling.

O Brasil não ficou de fora, e neste ano no São Paulo Fashion Week – durante a exposição Calor Glacial – promovida pela AngloGold Ashanti, foi apresentado um vestido longo feito com 4.500 paetês de ouro desenhado pelo estilista Victor Dzenk em parceria com o joalheiro Manoel Bernardes. A peça vale 500 mil reais e pesa sete quilos!

Mariana Di Addario Guimarães

Jornalista formada pela PUCPR. Ama design e até tentou a faculdade, mas descobriu que sua vocação mesmo é editorial. Atualmente faz pós-graduação em Branding na Unversidade Positivo.

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