por, Zé Henrique Rodrigues

 

"A imagem do padre e da freira que se beijam, eu a fiz porque me interessava verificar se a reação provocada pelo olhar pode vencer o tabu do conhecimento estabelecido. (...) O fato de tratar-se de um padre e de uma freira passou para segundo plano, diante da ternura daquele beijo casto e, no fim das contas, irreal", observou o designer e fotógrafo Oliviero Toscani, criador das peças da famosa campanha da Benetton.

“A imagem do padre e da freira que se beijam, eu a fiz porque me interessava verificar se a reação provocada pelo olhar pode vencer o tabu do conhecimento estabelecido. (…) O fato de tratar-se de um padre e de uma freira passou para segundo plano, diante da ternura daquele beijo casto e, no fim das contas, irreal”, observou o designer e fotógrafo Oliviero Toscani, criador das peças da famosa campanha da Benetton.

 

Muito tem sido falado, ultimamente, a respeito da importância do design na construção de marcas e mercados. A cada dia, novas expressões como branding, por exemplo, somam-se às complexas estratégias de negócios, com seus planos de marketing elaborados e ações de comunicação detalhadas. Somos envolvidos, mais e mais, em “táticas de guerra” para criar campanhas e peças de design que gerem lucro e dêem resultados. Entretanto, a pergunta que faço aos designers é simples: será que conseguimos tocar o coração das pessoas com o design?

Vivemos na era do marketing pessoal, one-to-one, comunicação dirigida, mídias segmentadas, foco no cliente e mensagens personalizadas. Acredito, porém, que nós – os criadores – é que estamos perdendo o foco. Pelo que tenho observado, nossas atenções estão voltadas ao mecanicismo, às fórmulas prontas, aos clichês visuais. Somos levados a isso, muitas vezes, pela falta de tempo, de motivação ou de coragem. Vemos poucas peças gráficas sobre as quais podemos afirmar: “isso me chamou a atenção” ou, ainda, “fiquei comovido lendo aquele cartaz”.

Costumo dizer que design eficiente é design surpreendente. E não existe coisa melhor do que surpreender um desconhecido, em um momento qualquer de sua vida, levando-o a refletir alguns minutos sobre determinado assunto. Isso é o verdadeiro “BOM DESIGN”. Preocupado com a tendência apresentada pelo mercado, Stefan Sagmeister, designer austríaco radicado em Nova Iorque, comenta em seu livro “Sagmeister – Made you look” (Booth-Clibborn Editions, 2000) que, para emocionar o público, uma peça gráfica precisa ter os seguintes atributos: abrir novas perspectivas ao observador, resgatar lembranças, mostrar paixão e comprometimento, ser surpreendente, mostrar refinamento gráfico e ser bela.

No entanto, sabemos que apenas seguir a lista, item por item, não representa a “garantia” de criação de uma peça que toque o coração das pessoas. Para isso, o principal fator é trabalhar com amor e, pegando carona na expressão futebolística, colocar o coração na “ponta do mouse”. E como fazer isso? A experimentação e a liberdade da forma são alguns caminhos para conseguir emocionar alguém. Romper com velhos padrões, acabar com os formalismos desnecessários e deixar de lado as tentações do déjà vu são passos importantes para produzir um design surpreendente.

Um ótimo exemplo disso são as inúmeras peças criadas para a Benetton (entre 1982 e 2000) pelo designer e fotógrafo italiano Oliviero Toscani. Em suas criações, percebemos uma despreocupação com o convencional e uma busca visceral pelo controverso, pelo proibido e pelo inusitado. Seu principal objetivo foi mostrar o mundo como ele é, na realidade, sem as ilusões e fantasias criadas pela comunicação. O resultado foi a projeção mundial que a marca ganhou, ocupando um lugar de destaque no universo da moda e provando, definitivamente, que design que toca o coração também dá lucro.

Em função do curso tomado dentro das agências e escritórios de design no tratamento dos processos de criação, o design poderá se tornar uma atividade fria, insípida, meramente executora de planos de comunicação e estratégias de vendas. Cabe a nós, profissionais da área gráfica, reverter essa triste e deplorável tendência, transformando nossas criações em peças gráficas que sensibilizam e tocam o coração das pessoas. Em um mundo repleto de futilidades e verdades efêmeras, um pouco de paixão não fará mal a ninguém.

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