Há quase 40 anos que o Estúdio Diseño Shakespear vem marcando o “caminho” da história do design argentino. O nome do escritório vem de seu fundador, Ronald Shakespear. Em seu currículo, mais de 1.500 marcas e uma vasta experiência com design urbano.

Identidade e sistema de sinalização para os metrôs de Buenos Aires, ou "Subtes", como lá os chamam

Identidade e sistema de sinalização para os metrôs de Buenos Aires, ou "Subtes", como lá os chamam.

O design tem diversas facetas e inúmeras aplicações. Mesmo que a definição semântica da profissão ainda seja assunto de muitos debates, é válido dizer a comunicação faz parte da essência do design. Afinal, se comunicar é intrínseco ao ser humano, e em um mundo como o de hoje – onde há excesso de informações – fazer uma boa comunicação certamente é um desafio.

Em sua memória da prática, Shakespear fala da maneira como desenvolveu cada etapa de seus principais trabalhos, e com isso aprendemos um pouco mais de como se faz um bom design.

“Definir o problema é a metade da solução”

Em quase 50 anos de experiência, Ronald esteve envolvido em pelo menos 10 grandes projetos. O primeiro foi a reformulação do Plano Visual de Buenos Aires em 1971. Depois disso, vieram os Hospitais e Centros Esportivos da capital, o zoológico Teimakén, perto de Bs.As, a sinalização e projeto visual da linha Trens de la Costa, que passa pelas margens do Río Del Plata, o sistema e os equipamentos dos pedágios das Autopistas del Sol, e alguns mobiliários urbanos, como pontos de ônibus no Chile.

Zoológico de Temakén, em Buenos Aires, para o qual Diseño Shakespear também fez a identidade visual e sinalização

Zoológico de Temaikén, em Buenos Aires, para o qual Diseño Shakespear também fez a identidade visual e sinalização

Estas intervenções têm em comum algumas características que as difere de outras áreas do design. Enquanto um anúncio é desenvolvido para se destacar para a multidão, uma placa – indicando uma rua, ou um táxi – tem a função de mostrar um caminho ou um lugar importante. O design urbano atua na ordem das informações, e por isso, precisa ser claro, objetivo, e atender ao instinto das pessoas.

Os sistemas de sinalização são compostos por duas dimensões: sua infra-estrutura física e a rede de informações. “A primeira implica nos serviços, e a segunda é a comunicação que permite, através de seus instrumentos funcionais, a compreensão e utilização do serviço por parte do público”, define Ronald.

Para que o processo cognitivo, de compreensão das informações desta rede, seja eficiente, a previsibilidade é um fator essencial. Em um sistema onde o indivíduo deve fazer a sua escolha, as informações de localização, as mensagens verbais, pictográficas e cromáticas devem ser rapidamente subentendidas pelo usuário.

Para Shakespear, o designer deve utilizar uma metodologia – um conceito – ao transformar os dados em informações e fazê-los significantes para a audiência. “A vinculação conceitual que procura associar idéias, atando o design inexoravelmente às condutas humanas e à realidade das pessoas é infinitamente mais importante para a gente que a teoria das cores e a semântica dos signos”. Ou seja, conceituar é fazer atuar a previsibilidade, a ordem e a cognição.

Para Ronald Shakespear, o design é uma forma eficiente de enfrentar essa situação e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Motivos pelos quais acabou se dedicando ao diseño urbano. Sua carreira começou quando tinha apenas 17 anos, e como muitos outros profissionais, seus primeiros passos foram em agências de propaganda.

Hoje, aos 66, trabalha com os filhos, Bárbara, Lorenzo e Juan, no Estudio Diseño Shakespear – cada um contribuindo em um aspecto diferente do design. Com a ajuda deles realizou vários de seus mega-projetos, como a sinalização do Subte, o metrô de Buenos Aires.

Placa para o Zoo de Buenos Aires

Placa para o Zoo de Buenos Aires

Ronald, assim como o outro Shakespear, também é um homem da palavra. Publicou seis livros, entre eles 20 años de Diseño na Argentina, e seu último Señal de Diseño – Memória de la Pratica (Sinais de Design – Memória da Prática), lançado em 2003. Também já participou de vários congressos e oficinas e foi professor da Cátedra de Diseño FADU/UBA, mostrando a importância que este argentino dá a formação do profissional.

Para quem pensa que placas de ruas e pontos de ônibus não têm o seu valor estético, as peças de Ronald já foram parar até mesmo no Centre Pompidou, em Paris, uma construção para todas as formas de arte contemporânea.

Este processo de entendimento de um sistema de sinalização contará, não somente com a capacidade de interpretação e da memória do usuário, mas também da habilidade do designer em resolver problemas que nem sempre são aparentes. Para Shakespear, o design, especialmente das questões urbanas, não está conectado a princípios estéticos e de arte, mas sim “com a geração de formas pragmáticas a que se requere, se exige, um resultado determinado”.

A forma para a função

Megaprojetos que envolvem o cenário urbano possuem alta complexidade, pois além de tratarem dos aspectos de informação – já mencionados -, também envolvem outras disciplinas como o design de produtos, arquitetura e engenharia. Afinal, todo este trabalho de design será disposto sobre estruturas físicas que devem ser ergonômicas e resistirem às condições climáticas e ao vandalismo.

Sistema de sinalização para a Expo América, de 92. Este, especificamente, inspirado na cidade de Berlin

Sistema de sinalização para a Expo América, de 92. Este, especificamente, inspirado na cidade de Berlin

Por esse aspecto multidisciplinar do design urbano, naturalmente, equipe de Diseño Shakespear acabou também se tornando multidisciplinar. Lorenzo atua na área de comunicação visual, Juan com os trabalhos de projeto de produto e equipamento urbano, e Bárbara na arquitetura corporativa.

A escolha profissional dos três filhos foi claramente influenciada pelo pai. Segundo Lorenzo, em entrevista à revista argentina 90+10, livros, revistas, obras de design e arte sempre fizeram parte da vida do clã Shakespear. A educação dos filhos também passou por uma escola com métodos similares aos da Bauhaus, com forte ênfase na visualidade e na formação sensível.

E é esse tipo de educação que Ronald acredita ser imprescindível para a formação de um bom designer. “Design não é desenho, é plano mental, não é arte é a geração de idéias e formas”. Para ele, os milhares de estudantes de design que se formam todos os anos terão a responsabilidade de modificar a paisagem urbana e devem ter em mente sempre o mesmo objetivo. Fazer o melhor design para uma vida melhor. “Quando esta condição se cumpre, quando o resultado do desenho produz mais qualidade de vida, o design é, seguramente, belo”.

http://www.webshakespear.com.ar/

Você também pode ler uma entrevista feita com Ronald Shakespear especialmente para a abcDesign.

Mariana Di Addario Guimarães

Jornalista formada pela PUCPR. Ama design e até tentou a faculdade, mas descobriu que sua vocação mesmo é editorial. Atualmente faz pós-graduação em Branding na Unversidade Positivo.

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