Conversamos com Christopher Hammerschmidt, o criador da fonte Capitolina

Muitos designers se interessam pelo estudo de tipos, mas afinal, por onde começar o desenvolvimento de uma tipografia? Qual é a metodologia utilizada? Quanto tempo leva? Quais são os empecilhos e aprofundamentos necessários para o desenho de uma nova família tipográfica? Buscando as respostas para essas perguntas, conversamos com Christopher Hammerschmidt, mestre na linha de pesquisa Design de Sistemas de Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade Federal do Paraná e criador da família de tipos Capitolina.

 

Processo de criação e metodologia utilizados:

Os detalhes do processo de criação de tipos variam de acordo com preferências dos designers ou especificidades dos projetos. Questões como desenhar esboços a mão ou partir para a construção dos vetores diretamente em um programa de computador são exemplos disso. Entretanto, como em qualquer projeto de design, deve-se definir desde o princípio alguns parâmetros fundamentais que guiarão o desenvolvimento das atividades. No caso do design de tipos, como destaca Mandel (2011), é necessário delimitar ao menos duas questões antes de iniciar o processo: (1) o porquê, ou seja, qual o problema a ser solucionado, quais funções a fonte ou família tipográfica deverá exercer; (2) o para quem, que define o público-alvo do projeto.

Essas duas dimensões proporcionam diversas possiblidades para o designer de tipos. Quanto às razões que podem motivar o desenho de novas fontes, podem-se citar a vontade de redesenhar tipos clássicos (revivals); questões estéticas; aspectos funcionais, como legibilidade em tamanhos reduzidos; economia na composição tipográfica, entre outras. Já com relação ao público, é necessário levar em consideração questões culturais dos leitores, como a preferência por determinadas formas no desenho de letras e diacríticos (acentos e outros sinais gráficos que modificam a pronúncia das letras). Restrições físicas das pessoas que deverão decifrar os desenhos dos caracteres tipográficos, como deficiências na visão, também podem constituir objetivos centrais do trabalho. Esses são apenas alguns exemplos de questões que podem emergir de acordo com as características de cada projeto.
Print

Print

No meu caso, o projeto deveria ser de uma família de tipos com desenho original, com características funcionais que tornassem os tipos legíveis em corpos pequenos, principalmente na faixa de 8 a 12 pt. O principal objetivo consistia em obter fontes adequadas à composição de textos em livros de leitura imersiva, o que influenciou bastante o tratamento das curvas, as proporções de elementos como altura-x, extensão de ascendentes e descendentes, altura de letras versais, entre outros. Quanto ao público, as fontes não se destinam a um grupo específico, como crianças em fase de alfabetização, pessoas idosas ou com deficiência visual. Os tipos buscam oferecer uma leitura fluida para o público adulto, considerando alguns aspectos de preferência cultural, com desenhos e programações específicas de glifos ou combinações destes em línguas como polonês, romeno, holandês, catalão, entre outras.

Em seguida, tendo definidos o conceito e as diretrizes do trabalho, parte-se para a prática, com o desenho dos glifos (a forma dos caracteres tipográficos num conjunto, dentro de um mesmo estilo). Esse processo pode se iniciar de maneira livre, buscando definir características de desenho singulares em algumas letras, para depois expandir o conjunto. Durante essa etapa, os gráficos de derivação de arquétipos, como os apresentados por Buggy (2007) e Farias (2001), são ferramentas úteis para auxiliar e organizar o processo de desenho, com aplicação das características formais ao alfabeto latino completo. Esses gráficos têm a função de separar letras com formas similares entre si em sequências, partindo dos desenhos mais simples aos mais complexos. Trata-se de uma abordagem similar, embora com algumas diferenças, à de Cheng (2005), que estabelece categorias de letras: formas redondas, formas quadradas, formas compostas – redondas e quadradas, formas diagonais, formas compostas – diagonais e quadradas.

Print

Na família Capitolina, segui o desenho do alfabeto básico conforme as categorias definidas por Cheng. A ampliação do conjunto de glifos, que vai além daqueles incluídos na literatura que eu citei, foi feita com base em informações de sites, sobretudo para os diacríticos (Diacritics Project, Polish diacritics: How to?), além de observações e comparações de outras fontes, tidas como referência (Minion, Skolar, Adriane Text).

Na construção dos vetores dos glifos dentro do programa de edição de fontes, deve-se considerar alguns aspectos técnicos de grande importância. Primeiramente, a distribuição dos pontos e seu posicionamento, de modo que as extremidades horizontais e verticais dos desenhos possuam pontos de ancoragem. Além disso, a definição de padrões de espessura em hastes verticais, barras horizontais, arcos, traços diagonais e serifas é fundamental para estabelecer a consistência no desenho dos glifos que compõem a fonte.

Para que os glifos sejam compostos de maneira harmoniosa, com um ritmo consistente, os desenhos devem ser cuidadosamente executados e revistos, bem como os espaços laterais. Estes compreendem as regiões em branco à esquerda e à direita dentro da caixa delimitadora do tipo, e seu tamanho depende do desenho de cada glifo. A etapa de espaçamento se mostra, portanto, fundamental para o desempenho da fonte e, para executá-la, podem-se empregar métodos específicos, como os de Miguel Sousa e Walter Tracy (Vargas, 2007).

Print

As fontes da família Capitolina foram espaçadas com a aplicação de ambos os métodos: primeiro, os espaços laterais foram definidos pelo processo descrito por Walter Tracy; posteriormente, refinou-se o resultado com o uso do método de Miguel Sousa para a definição final do espaçamento.

Mesmo depois de aplicar os métodos de espaçamento, algumas combinações específicas precisam de ajustes adicionais, dadas as inconsistências naturais ao desenho do alfabeto latino. Essas correções específicas nos espaços entre pares de glifos definem a etapa de kerning da fonte. Trata-se de uma tarefa longa e de caráter iterativo. Na literatura, encontram-se listas com pares de glifos que frequentemente exigem ajustes de kerning e mesmo textos elaborados especialmente com o objetivo de verificar a ocorrência dessas combinações (Cheng, 2005; Bringhurst, 2012; Henestrosa, Meseguer & Scaglione, 2012).

No caso de o projeto incluir o desenho de uma família de tipos que funcionem em conjunto, deve-se executar as tarefas de desenho, espaçamento e ajustes de kerning em todas as fontes desse sistema. Para famílias extensas, formas variantes em peso (light, medium, bold, entre outras) ou largura (condensada, expandida, entre outras) podem ser geradas automaticamente por meio da interpolação ou da extrapolação dos desenhos de glifos a partir de algumas fontes mestras, com o recurso Multiple Master, disponível nos programas de edição de fontes, como FontLab Studio, Glyphs, RoboFont, FontForge, entre outros. Assim, é possível expandir mais rapidamente a família de tipos, embora as fontes geradas automaticamente precisem de revisão por parte do designer de tipos, a fim de garantir a consistência dos resultados. Visto que o processo de interpolação dos desenhos gera resultados mais consistentes, o workflow de produção de uma família de tipos geralmente prevê que o designer comece o trabalho pelos pesos light e extrabold, por exemplo. Dessa maneira, os demais pesos (regular, semibold, bold) podem ser gerados por interpolação das fontes mestras originais. Apenas tipos com características muito ressaltadas, como thin (mais leve que light) e heavy (mais pesado que extrabold) seriam criados por meio de extrapolação, segundo esse planejamento.

Print

O projeto original da família Capitolina previa o desenvolvimento de uma família de apenas quatro tipos: pesos regular e bold com seus respectivos itálicos. Contudo, optou-se posteriormente pela expansão da família, que ganhou três novos pesos: semibold (gerado por interpolação), light e extrabold (gerados por extrapolação).

Finalizadas as etapas anteriormente descritas e verificadas todas as fontes que integram a família, segue-se à etapa de distribuição. Atualmente, existem diversos modelos possíveis no mercado, como a disponibilização gratuita das fontes na internet, a comercialização independente por meio de revendedores internacionais e a comercialização por meio de uma fundição tipográfica.

Print

Enquanto eu desenvolvia minha família de tipos, entrei em contato com alguns typedesigners brasileiros, pedindo comentários ao meu trabalho, críticas e sugestões de melhoria. Com o desenvolvimento do projeto, Marconi Lima me convidou para lançar a Capitolina pela TypeFolio, a fundição independente dele. Dessa maneira, a família estará disponível em diversos revendedores internacionais.

 

Tempo de desenvolvimento:

Esse projeto é uma revisão e expansão do meu trabalho de conclusão de curso de graduação na UTFPR, defendido no fim de 2010. Se for contar o tempo total, o projeto levou em torno de 5 anos para ser concluído. Entretanto, depois de concluir minha graduação, eu não consegui manter um ritmo constante no desenvolvimento das fontes. Trabalhei um tempo na editora da PUCPR, de onde saí para cursar o mestrado em Design na UFPR e continuei trabalhando com o design de tipos no tempo que sobrava. Apenas com a conclusão do mestrado, em fevereiro de 2014, decidi investir mais seriamente no projeto. Então, redefini algumas características de design da família de tipos, como o aumento na modulação entre traços finos e grossos, ajustes na forma das serifas e o redesenho de alguns glifos, bem como a ampliação no conjunto de glifos da fonte, incluindo novos diacríticos, símbolos, entre outros. Mantive o planejamento inicial da família de quatro fontes e concluí essa etapa em um ano, ou seja, no início de 2015. Então, averiguei a possibilidade de ampliar o sistema, criando fontes em três novos pesos: light, semibold e extrabold. Assim, a família saltou de quatro para dez fontes, cada uma com 800 glifos, incluindo vários recursos OpenType e suporte a diversas línguas. Esse processo de expansão levou em torno de seis a sete meses.

O estudo da tipografia:

As primeiras leituras indicadas por professores na graduação acerca do tema tipografia me interessaram bastante. Sobretudo Projeto tipográfico, de Claudio Rocha, Tipografia digital: o impacto das novas tecnologias, de Proscila Farias, e Elementos do estilo tipográfico, de Robert Bringhurst. O contato com essas obras me mostrou que havia muita coisa no campo da tipografia que não era abordada nas disciplinas do meu curso (naquela época, não havia ainda uma matéria dedicada exclusivamente ao ensino da tipografia no curso de artes gráficas). Isso me instigou a buscar mais informação e me aprofundar na área. Decidi que eu queria compreender melhor como o design de tipos funcionava, pois isso me daria bases mais sólidas também para entender como utilizar a tipografia em projetos de design gráfico.

 

A família de tipos digitais Capitolina, desenvolvida por Christopher Hammerschmidt, com supervisão de Marconi Lima e fundição TypeFolio, é composta por 10 fontes (light, regular, semibold, bold, extrabold + itálicos) e está disponível para compra nos seguintes revendedores: MyFonts, You Work For Them, Fontspring e FontHaus, além da possibilidade de compra direta com desconto especial durante o período de lançamento pelo e-mail sales@typefolio.com.

 

Compartilhe: