Antonio M. Fontoura

Para muitos designers, desenhar é um meio para exteriorizar pensamentos, expor conceitos e comunicar informações aos responsáveis pela fabricação de um determinado produto como, também, é um recurso para documentar e registrar suas próprias idéias e criações. Da criação de uma idéia até a elaboração dos detalhes necessários para a confecção de modelos, protótipos e cabeças de série, a capacidade de desenhar – seja manualmente ou através de computadores – o desenho representa um enorme benefício para transmitir com mais precisão as intenções do designer em cada etapa de seu trabalho.

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O desenho, para o designer, pode ser entendido como um meio para exteriorizar pensamentos e classificar problemas, um meio de persuasão para vender a idéia ao cliente e um meio eminentemente técnico para comunicar informações precisas àqueles que fabricam, montam e comercializam um produto. Apesar do aparente descaso demonstrado por alguns designers, costumamos manter uma relação especial com o desenho. Na ausência de outra forma tão eficaz, o desenho nos serve como ferramenta para a transmissão de informações detalhadas a respeito de complexas estruturas e formas tridimensionais. Como registro e documentação, temos o preciso e detalhado desenho técnico.

Por intermédio de outras modalidades do desenho, os designers também dotam suas criações de personalidade, significação e facilidade de uso. Além disso, o desenho pode converter-se num excelente recurso tanto para uma apresentação esclarecedora do produto quanto para a sua instrução de uso, ambas destinadas aos futuros usuários. Este tipo de representação é chamado, genericamente, de desenho de ilustração ou desenho de apresentação.

Muitos designers, numa demonstração de certo menosprezo pelo desenho, dizem que trata-se apenas de “um meio para alcançar um fim” e que o mais importante é o resultado final do processo, ou seja, o produto acabado. Assim, podemos dizer que, muitas vezes, o arquivo de trabalho de um designer é constituído de algumas fotografias do protótipo e do produto manufaturado, por alguns raros modelos e maquetes tridimensionais e por alguns ainda mais raros desenhos exploratórios. Com a absorção das tecnologias digitais, podemos encontrar em alguma pasta esquecida, em algum diretório da memória do computador pessoal do designer, um arquivo de algum desenho utilizado no projeto.

Há aqui um atenuante: nem sempre os desenhos técnicos construtivos do produto são executados pelo designer. Muitas vezes esse trabalho é delegado a desenhistas técnicos, especializados no domínio das linguagens e normas técnicas de representação, além de manejar com competência os programas apropriados para o desenho técnico. Não obstante, quando pressionados, os designers acabam confessando o prazer que sentem ao desenhar e reconhecem a importância de um risco, de um traço, de um rabisco, de um debuxo, durante a concepção e o desenvolvimento de um produto.

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O fenômeno internamente deflagrado, durante o ato de desenhar, é algo percebido como se os raciocínios e pensamentos por nós desenvolvidos fossem aos poucos traduzidos e decodificados pelas linhas traçadas. De certa maneira, discutimos com nossas idéias no papel. Debatemos, riscamos, traçamos novamente, confrontamos, rasuramos, apagamos, sobrepomos traços, refletimos, configuramos, conhecemos, visualizamos, damos forma física ao nosso pensamento. Enfim, aprendemos e apreendemos através dos nossos traços. Há uma ligação direta – e muito especial – entre o pensamento e a mão que executa o desenho, além das evidentes conexões de nossos neurônios com os atos que nosso corpo realiza. Essa modalidade de desenho pode ser denominada de desenho conceitual ou desenho exploratório.

Enquanto desenhamos, sentimos que algo mágico, quase divino, está acontecendo lá no fundo da nossa alma. Por meio desses traços, é possível tornar visíveis nossas idéias e criações. Porém, muitas vezes, nos frustramos em função da falta de habilidade para o desenho. Nem sempre conseguimos representar tudo aquilo que pensamos. A falta de exercício e de domínio da arte do desenho – como forma de expressão – limitam a nossa ação. Como bem nos lembra o designer inglês Dick Power, o profissional que não sabe desenhar acaba projetando apenas aquilo que sabe representar e, efetivamente, não desenha tudo aquilo que sabe ou que tem potencial para projetar. Aquela ligação entre o cérebro e a mão, à qual já nos referimos, parece não realizar-se a contento. Por uma falta de domínio de técnicas de representação, chegamos a pensar que não sabemos projetar.

Vale lembrar que o desenho como forma de exploração de idéias, de representação técnica, de apresentação e de ilustração, pode ser aprendido e ensinado. O caminho para isso passa pela prática e pelo exercício orientado. Naturalmente, muitos aspirantes à profissão têm mais facilidade que outros nesse aprendizado. Porém, mesmo aqueles que não têm o “dom” para esta arte (caso isso realmente exista?!), podem alcançar uma competência mínima que lhes possibilitará expressar suas idéias e suas criações através do traço.

O desenho deveria fazer parte da educação geral de todo indivíduo, não só daqueles ligados profissionalmente às diversas modalidades do projeto ou do design. O estudo e a prática do desenho aumentam a capacidade de expressão e comunicação das pessoas e, acima de tudo, desenvolve a capacidade perceptiva. De maneira alguma pretendemos dar a entender que deve-se dar formação específica e profissional em desenho para todos. O que queremos defender aqui é a idéia de que o ensino e a prática do desenho na escola podem, sim, complementar a formação integral dos cidadãos. Trata-se de uma faceta, muitas vezes negligenciada pela formação escolar, denominada de educação visual*.

No campo do desenho técnico, as pranchetas, a régua de cálculo e as antigas canetas “graphos” já foram esquecidas há algum tempo. Os sistemas CAD, CAM e CAE deram uma contribuição fantástica para a sistematização, racionalização e o desenvolvimento de projetos, bem como para a execução de desenhos. Eles permitem, com grande precisão, representar tecnicamente, desenvolver análises e estudos de viabilidade técnica, realizar rapidamente correções e alterações nos projetos, além de interagir com os processos de fabricação. São, sem dúvida alguma, ferramentas fantásticas que surgiram para facilitar a vida daqueles envolvidos com projetos.

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No campo do desenho de apresentação e da ilustração, também foram disponibilizados vários programas no crescente mercado mundial. Eles são, com diferentes graus de eficiência, extremamente úteis para a apresentação de projetos. Trata-se de ferramentas que permitem visualizar virtualmente um novo produto e seus detalhes, por intermédio de imagens digitais manipuláveis. Essas imagens costumam ser arquivadas digitalmente e apresentadas num ecrã, gravadas em vídeo, em CDs ou, ainda, impressas em dispositivos de saída com alta qualidade de resolução.
O produto projetado ainda não existe fisicamente, mas a sua imagem sim. Essas ferramentas são extremamente úteis na argumentação e na defesa de uma proposta de projeto. O cliente, muitas vezes leigo no assunto, consegue ver numa imagem dessa natureza o que dificilmente conseguiria decifrar num desenho técnico, por ter condições de ver algo que ainda não existe. Apesar de virtuais, essas imagens ultrapassam os limites naturais da imaginação abstrata e passam a ter uma representação visual.

Mesmo com a disponibilidade de uma grande variedade de programas e equipamentos informatizados para o desenho, ainda nos parece importante desenhar manualmente. Principalmente naquelas fases do projeto ligadas à criação ou ao desenvolvimento de uma idéia. Nessas fases, são elaborados desenhos que podemos genericamente chamar de desenhos exploratórios. Muitas vezes, são riscos associados a observações escritas ou, então, esboços, esquemas e gráficos traçados com a função de registrar momentaneamente as idéias e seus partidos, bem como as diretrizes do projeto e as primeiras aproximações com a configuração formal do produto idealizado. O tempo de raciocínio, de pensamento e de reflexão despendido durante essas atividades é diferente daquele usado durante a execução de desenhos em sistemas computadorizados. O trabalho criativo ainda é eminentemente humano e, felizmente, ainda é insubstituível, apesar da aparente “ameaça” dos avanços no campo da inteligência artificial.

Os sistemas informatizados nesse campo de atuação facilitaram a vida dos designers. Na medida que houve uma especialização das atividades de projeto – por meio da dinamização e da racionalização dos processos de representação técnica, da engenharia, do planejamento da produção dos novos produtos e da interação do projeto com os processos de fabricação -, o designer acabou ganhando mais tempo para se empenhar no estudo, na criação e na conceituação desses novos produtos. Cabe a ele, mais do que nunca, humanizar os produtos concebidos, consciente de que as tecnologias do desenho estarão cada vez mais disponíveis, além de melhores tecnicamente, sendo cada vez mais capazes de responder às suas exigências e necessidades.

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Enquanto riscar com um lápis sobre o papel é, para muitos de nós, o mesmo que dar à nossa imaginação criadora a capacidade de se expressar, transcrever estes riscos para o computador, usando os programas de desenho técnico, de desenho de apresentação ou de ilustração, é o mesmo que torná-los públicos, documentá-los e viabilizá-los tecnicamente no mundo da produção. Tanto o computador quanto o lápis parecem continuar sendo boas ferramentas nas mãos do designer.

Particularmente, acredito no potencial da Educação através do Design (EdaDe), direcionado às crianças e jovens, como forma de desenvolver habilidades de design, de desenho e de criação, construção e expressão de idéias. Já tive a oportunidade de expor meu ponto de vista a este respeito, juntamente com a arquiteta e professora Alice Theresinha Cybis Pereira, em edições anteriores da abcDesign.

Antonio Martiniano Fontoura
Desenhista Industrial, Mestre em Educação pela PUCPR, Doutor em Engenharia da Produção pela UFSC e Professor nos Cursos de Design da PUC-PR, UFPR e CEFET-PR.

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