a cultura material, a teoria dos objetos e o design

Antônio M. Fontoura, Dr.

O conhecimento sob o ponto de vista do construtivismo é algo temporário, em constante desenvolvimento, não objetivo, construído internamente e o seu aprendizado resulta da interação do indivíduo que aprende com outros sujeitos, dele com o meio ambiente, dele com os objetos, dele com a cultura e dele com a sociedade.

É das relações que o sujeito estabelece com o meio ambiente, e com os objetos do entorno que se constrói a “realidade objetiva” e se estabelece o que convencionou-se chamar de “cultura material”. É na formação da cultura material que o design desempenha um papel ativo.

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O que diferencia a espécie humana das outras espécies animais é o tipo de ação que exerce sobre o meio ambiente – natureza. A ação instintiva é típica do comportamento animal. Os animais respondem aos estímulos do exterior usando os seus reflexos e os seus instintos. Eles ignoram a finalidade da própria ação. O ato humano é voluntário. O ser humano é, normalmente, consciente da finalidade dos seus atos. O ato existe antes como pensamento, como uma possibilidade, e a sua execução é o resultado da escolha dos meios necessários para atingir os fins.

O ser humano é capaz de transformar intencionalmente a natureza através dos seus atos de inteligência, tornando possível a formação da cultura. O entorno artificial em que se expressam os conhecimentos adquiridos de uma coletividade, configura sua própria cultura.

A cultura pode ser entendida como a maneira de viver de um povo ou ainda, o legado que o indivíduo recebe de seu grupo. A idéia de cultura não se refere apenas às práticas e comportamentos instaurados pelos grupos étnicos, mas inclui também as coisas tangíveis que estes criam e usam.

Sob o ponto de vista construtivista, a cultura faz parte da “realidade objetiva social”. A realidade objetiva é o produto resultante da interação dos seres humanos com seu meio ambiente. Este produto representa o “universo simbólico” capaz de dar sentido às experiências humanas e constitui a linguagem dos membros de uma certa sociedade em determinado período da história. É ele que dá sentido às experiências vividas pelo ser humano em comunidade.

Na Antropologia, a cultura significa tudo aquilo que o ser humano produz ao construir sua existência: as práticas, as teorias, as instituições, os valores materiais e espirituais. É o conjunto de símbolos elaborados por um povo em determinado tempo e lugar.

A cultura material refere-se à realidade tangível, ao entorno artificial. Ela mantém uma estreita ligação com a Arqueologia. É através das coisas materiais – objetos, utensílios e artefatos – conservadas que a ela traz a luz uma determinada cultura..

A cultura material resulta de um processo contínuo de evolução, transformação e aperfeiçoamento dos artefatos, utensílios e objetos que constituem o entorno. A ação coordenada entre o poder mental e a habilidade manual, possibilitou ao ser humano se firmar como espécie, passando de condicionado à condicionador do entorno.
Está claro que os objetos concretos – coisas materiais – não são apenas meios cômodos de análise. As ciências dependem deles para explicar as sínteses socioculturais, nelas eles possuem lugares e significados bem definidos.
As técnicas, a tecnologia e o ser humano – seu corpo – são também componentes da cultura material. Enquanto transmissores semióticos, estes componentes, somados aos objetos concretos, são importantes para recompor o quadro geral de uma cultura ou de uma civilização.

Enquanto a cultura material se detém muito mais no estudo da vida coletiva, é a “teoria dos objetos” que promove o estudo da vida cotidiana. A teoria dos objetos trata o objeto como um mediador social num determinado ambiente. A cultura, neste contexto, é o meio artificial que o ser humano criou para si.

Na teoria dos objetos, reserva-se o termo “coisas” para os sistemas naturais e o termo “objeto” àquilo que for efetivamente produto do ser humano. Neste sentido, as coisas são oferecidas pela natureza e não sofrem nenhum processo intencional de transformação. Os objetos são prolongamentos do ato humano, são mediadores das relações entre cada indivíduo e o mundo. Estes resultam da transformação intencional da natureza, são produtos da ação humana e fazem parte dos sistemas artificiais criados pelo ser humano.
Genericamente, pode-se dizer que a atividade de design consiste na transformação intencional, consciente e planejada das coisas da natureza em objetos artificiais.

O objeto é um mediador do corpo social. Ele é comunicação e nesta condição é portador de signos e significados. O objeto-função progressivamente transforma-se em objeto de comunicação. Cada vez mais passa a estar sujeito às leis da ciência da comunicação. Sob o ponto de vista do funcionalismo no campo do design, o objeto é um portador de forma que deve indicar o seu próprio uso e sua finalidade. Numa visão pós-modernista do design, o objeto é mais do que nunca, portador de significados. Os objetos como signos genericamente fazem parte da cultura; como formas materializadas fazem parte da cultura material.

Sob o ponto de vista do construtivismo, o objeto pode significar também qualquer coisa que se opõe ao observador, qualquer coisa que dificulta ou limita o seu comportamento. Os objetos podem ser considerados como sinais que valem por comportamentos. Eles representam alguma outra coisa – sob o ponto de vista semiótico eles possuem valor de signo. Na área da cognição algo semelhante acontece, os objetos são “nomes” atribuídos aos comportamentos humanos. Assim, “cadeira” é um objeto que representa o comportamento de sentar, “cama” representa o comportamento de deitar, “copo” o de beber, “faca” o de cortar, etc..

É através das atividades do design que o ser humano modela e constrói a cultura material e é através do uso dos produtos resultantes destas atividades que interage com o meio, com os outros e consigo mesmo. Eles participam na formação das realidades objetivas das sociedades das quais fazem parte. O objeto desenhado, como elemento portador de significado e como produto e “fazedor” da cultura, passa a ter um valor diferenciado.

Vale lembrar que é com a realidade objetiva social que o sujeito confronta a sua realidade subjetiva. Ao nascer todo sujeito encontra, além de uma cultura material, uma realidade objetiva social já construída, isto é, um conjunto de conhecimentos estabelecidos, estruturados, institucionalizados e legitimados previamente. O objetivo deste conjunto de conhecimentos é dar sentido às experiências vividas pelo ser humano. Assim, ao construírem suas realidades objetivas, cada sociedade estabelece o seu próprio universo simbólico. As realidades construídas por diferentes sociedades são verdades válidas em determinados momentos históricos dessas sociedades.

A produção da realidade social tem um caráter dinâmico, as novas experiências permitem a construção de novos conhecimentos os quais poderão ou não ser instituídos e legitimados pelas novas gerações. O mesmo processo ocorre com o indivíduo na construção de novas realidades subjetivas. A partir do processo de socialização, ele analisa constantemente a simetria entre a realidade objetivada pela sociedade e a construída por ele.

Os conceitos de realidade objetiva social e de cultura material estão interligados e são significativos pois permitem dar suporte teórico para qualquer estudo mais consistente no campo do design.

Parece estar claro que:

a atividade de design é desenvolvida pelo sujeito;
é o sujeito que constrói a realidade social;
o sujeito sofre influência desta mesma realidade;
os produtos resultantes da atividade de design formam a cultura material;
os produtos sofrem influência da cultura formada;
os produtos são portadores de significados e interferem no universo simbólico;
o universo simbólico faz parte da realidade social que o sujeito constrói;
a realidade social integra a cultura material;
a cultura material interfere nas atividades de design;
as atividades de design sofrem influências das realidades social e subjetiva;
os produtos resultantes das atividades de design são representações construídas pelo sujeito;
as representações pessoais do sujeito formam sua realidade subjetiva; e
é pela confrontação da realidade subjetiva com a realidade objetiva social, que o sujeito a reconstrói e ou participa da reconstrução da realidade social.

Enfim, as atividades de design – criação, desenvolvimento e materialização – e a interação do sujeito com os produtos destas atividades – uso, manuseio, consumo –, são coadjuvantes que auxiliam o indivíduo a aprender a viver no universo simbólico. Elas ajudam o sujeito no seu processo de socialização.

Antonio Martiniano Fontoura
Desenhista Industrial, Mestre em Educação pela PUCPR, Doutor em Engenharia da Produção pela UFSC e Professor nos Cursos de Design da PUC-PR, UFPR e CEFET-PR.

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