por, Christian Ullmann

Para esta segunda edição da coluna Design para a Sustentabilidade, saímos da Universidade Federal de Pernambuco e descemos até a região sul para conhecermos o Núcleo de Design e Sustentabilidade (NDS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Desde sua fundação e decorrente dos resultados obtidos, o NDS vem aumentando o volume de suas atividades, assim como o número de pesquisadores envolvidos. Vários departamentos da UFPR e de outras universidades do País têm a oportunidade de desenvolver pesquisas em design sustentável dentro de um ambiente altamente colaborativo. Aliás, a diversidade é um dos diferenciais do Núcleo da Federal do Paraná. Os projetos envolvem desde comunidades e empresas artesanais, micro e pequenas empresas, empresas de grande porte e multinacionais.

No Núcleo, trabalha-se o design como uma atividade que foca no bem-estar do indivíduo e do meio em que vive, dentro de um ambiente competitivo e capitalista. O desafio a ser superado é fazer com que este consumo seja feito de forma sustentável, sem comprometer o futuro das próximas gerações.

Para isso, seus projetos se apóiam na integração entre academia, pesquisa e mercado. Está cada vez mais claro que os produtos deixaram de ser artefatos isolados, e hoje, sua produção é um sistema complexo e de alto impacto em seu entorno. Nas próximas páginas apresentamos alguns destes empreendimentos, onde a tríplice pesquisa, envolvimento social e aprendizado acadêmico têm apresentado resultados consistentes.

Coordenado pelo Prof. Aguinaldo dos Santos, em 2006, o NDS passou a ser um laboratório de apoio ao Programa de Pós-Graduação da Universidade, que ofertou o primeiro mestrado em design no Sul do Brasil (www.design.ufpr.br/ppdesign), reafirmando a importância dada à formação do profissional do design como peça-chave na consolidação de um desenvolvimento industrial sustentável.

E este ano, mais um passo foi dado. Todo este conhecimento gerado em quatro anos de trabalho foi disseminado e debatido no I Simpósio Internacional de Design e Sustentabilidade, promovido pelo NDS e com apoio de outras entidades. O evento ocorreu em Curitiba, no início de setembro.

Contato:
Endereço: Edifício D. Pedro I – R. General Carneiro, 460 – 7° andar, sala 717 | Curitiba – Paraná – Brasil
Fone/Fax: ++ (55) (41) 3360 5313
Email: nds@ufpr.br
Site: www.design.ufpr.br/nucleo

Os leitores podem fazer seus comentários, sugestões ou criticas a respeito desta coluna pelo e-mail: imprensa@abcdesign.com.br. Boa leitura.

Um novo uso para o papelão ondulado

O design sustentável pode agir na utilização de materiais já existentes que são “recauchutados” para ganharem uma nova dimensão funcional. É o caso do projeto “Desenvolvimento de embalagens e produtos para exportação utilizando a tecnologia CGF”. A sigla vem do inglês Cushion Folding Glueing, que pode ser traduzido de forma não literal como Amortecimento por colagem em camadas.

Em princípio, o CFG consiste em camadas de papelão ondulado coladas, nas quais é feita uma dobradiça que permite dobras reversas sem o risco de rompimento da chapa. A técnica foi criada pela empresa japonesa Tokan Kogyo Co. Ltd para enfrentar o aumento do rigor nas regulamentações ambientais do governo japonês quanto às embalagens. A brasileira Embrart utiliza a mesma a prática, e como parceira e apoiadora do Projeto CFG possibilitou ao grupo três estudos de caso.

Cases

Um dos estudos foi com a Volkswagen. Neste empreendimento, o grupo focou no desenvolvimento de embalagens retornáveis procurando reduzir a geração de resíduos. Este foi o primeiro projeto do NDS a utilizar a ferramenta Análise do Ciclo de Vida para quantificar o impacto ambiental antes e depois do projeto. Ao final, foram apresentadas duas propostas de aplicação imediata para embalagens retornáveis, uma individual e uma tipo kit, e seis propostas de novos cenários para o ano 2016.

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Em um segundo caso, foram desenvolvidas embalagens para móvel feito com resíduo. O trabalho foi feito em conjunto com o Projeto Design Certificado (também do NDS). O produto a ser embalado era um pequeno banco desmontável, que pode ser levado por turistas num avião, cujo conceito era o sagüi, animal da floresta atlântica brasileira.

O terceiro estudo tratou de embalagens para exportação a partir das possibilidades do CFS. O produto a ser embalado eram velas decorativas. O objetivo foi desenvolver conhecimento específico para o design voltado à exportação, considerando aspectos culturais, mercadológicos, ambientais, informacionais, normas e barreiras técnicas.

Pesquisadores:
Prof. Dr. Aguinaldo dos Santos, PhD,Prof. Dr. Dalton Razera (UFPR) Prof. Cláudio Pereira de Sampaio, (Unicenp/mestrando em Design-UFPR/bolsista CNPq), Letícia Seleme Corrêa (especialista/ bolsista CNPq)
Diego Silvério (graduando em Design-UFPR/bolsista PIBIC), Kelli Smythe (graduanda em Design-UFPR/voluntária)
Tatiana Baungrotz (graduanda em Design-UFPR/voluntária)

Parceiros: Embrart, Volkswagen, Nani Carvalho, UTFPR (Profa. Cássia Ugaya e profa. Maristela Ono), Curso de Design da UFPR (prof. Airton Caminha e profa. Rita Solieri), Masisa, Projeto Design Certificado, Rede Paranaense de Metrologia e Forplas.

Desatando o nó

O projeto “Estratégia de Agregação de Valor a Resíduos Madeireiros Certificados em Curitiba” focou na recuperação de um material muito escasso atualmente, a madeira. Estima-se que até 70% de uma árvore é desperdiçada durante seu beneficiamento até o produto final. Hoje, a Mata Atlântica brasileira conta com apenas 7% da sua cobertura original, por isso, há uma grande procura por iniciativas que fomentem a eficiência ambiental do setor madeireiro.

Pensando nisso que a empresa DesignErê, na época incubada no Hotel Tecnológico da UTFPR (Universidade Tecnológica do Paraná), procurou aplicar o design como ferramenta de inovação tecnológica e de agregação de valor a resíduos de madeira certificada que hoje são descartados nos processos industriais. O projeto teve início em 2005, e é financiado pelo CNPq. A proposta surgiu dos sócios da DesignErê, Dra. Líbia Patrícia Peralta Agudelo (coordenadora do projeto) e o Professor e designer e Dr. Eloy Fassi Casagrande

Os resíduos madeireiros

Neste projeto, os resíduos provêm de uma etapa secundária no beneficiamento das tábuas de Pinus Elliottii, que consiste na retirada do nó. Como resultado se obtém uma peça de medidas irregulares de aproximadamente 110×150 mm. Este nó possui características diferenciadas que podem acarretar na perda de resistência da madeira devido ao desvio das fibras ao seu redor.

Estes resíduos possuem o selo internacional FSC, o que garante seu manejo e extração em acordo com rígidos padrões sociais e ambientais. Para o projeto, a reformulação deste resíduo utilizou dois processos nos quais as peças foram moduladas e coladas, resultando em nove tipos diferentes de chapas.

Os primeiros resultados mostraram que chapas com módulos menores apresentaram mais resistência e homogeneidade, sendo mais adequadas para produção de móveis. No entanto requereram mais tempo e energia para sua produção.

Protótipos

A primeira linha de móveis desenvolvida usou conceitos tradicionais de encaixe e combinação de linhas assimétricas. Os protótipos criados buscando explorar o potencial estético e as limitações estruturais das chapas desenvolvidas.

O próximo passo foi verificar a aceitação do público em feiras, exposições e com uma importante participação no Salão Internacional do Móvel em Milão, em abril de 2007. De modo geral, há uma grande aceitação do produto e do material utilizado, especialmente quando o público foi informado do valor ambiental dos projetos.

Adega feita com madeira desperdiçadas por causa do nó

Adega feita com madeira desperdiçadas por causa do nó

O futuro

A conclusão do trabalho foi clara: o design contribui significativamente para tornar o setor madeireiro mais eficiente, pois reduz o desperdício de uma matéria-prima que é escassa. Mais competitivo, tornando este material em algo bonito, funcional e com qualidade. Por fim, agregando valor social e ambiental ao produto. O projeto mostra um caminho viável para mudar os paradigmas culturais através da informação ao consumidor mostrando como o setor produtivo pode gerar os benefícios sociais e ambientais.

Os desafios ainda existem, pois o desenvolvimento deste novo material ainda apresenta dificuldades competitivas quanto ao seu preço, no entanto acredita-se que isto possa ser resolvido ao inserir o projeto em empresas de pequeno porte, comunidades ou cooperativas por serem mais flexíveis e contarem com mão de obra para executar tarefas manuais.

Equipe: Dra Líbia Patrícia Peralta Agudelo. Bolsistas: Rodrigo Karam, Renan Ceccato, Ana Brum e Juliano Komay. Alunos: Dharney Pamplona (UTFPR), Maurílio Vicente (UTFPR), Alessandra Martins Enriconi (UFPR) e Eduardo Ponzoni (UFPR).

Parceiros: Masisa e Forplas

Mais informações e contatos:
www.designere.com.br/certificado
www.forplas.com.br

Faça você mesmo

O termo em inglês do-it-yourself, ou faça você mesmo, é muito utilizado para produtos que estimulam a pessoa participar na sua montagem. Foi pensando neste campo de atuação do design que o NDS desenvolveu o projeto Kits Do-It-Youself voltado para a construção.

A população brasileira ainda conta com uma grande diferença social, e quase 85% ganha cerca de três salários mínimos. Por essa razão, muitas dessas pessoas constroem suas casas sem acompanhamento profissional. O objetivo foi o usar o design para tornar essa prática mais segura, aplicando os conceitos de sustentabilidade como melhora de qualidade de vida e eficiência do produto.

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O primeiro passo foi em 2002, quando o NDS – com apoio do governo, academia e indústria -, começou a pesquisar diferentes modelos de habitação. Chegou a desenvolver soluções para coleta de chuva e kits de cobertura de casas, que está em fase final de análise de mercado. O sucesso do kit, que foi reconhecido como finalista do 2º Prêmio Melhores Universidades Guia do Estudante e Banco Real, promoveu a continuidade do projeto.

Atualmente, o grupo estuda o desenvolvimento de mobiliário/divisória modular com vedação acústica e térmica. Os produtos procuram dar soluções para compor espaços e dar privacidade e atendem a todas as camadas da sociedade.

Por isso, um dos diferenciais buscados pelo grupo foi dar versatilidade às peças. Elas podem ser compostas de várias maneiras, e a diversidade de acabamentos atende ao gosto do freguês. Estes resultados foram possíveis com o apoio financeiro do FINEPC, por meio do Edital Habitare, e parcerias com a COHAPAR, CNPQ, Masisa, Placentro, além da participação das comunidades.

Os resultados do projeto Kits Do-It-Yourself mostra que as pesquisas acadêmicas são ferramentas de melhoramento, tanto para a indústria, que passa a conhecer melhor seu mercado consumidor, como para a sociedade, que tem suas necessidades atendidas. A pesquisa também ajuda às indústrias a desenvolver novos materiais com procedimentos mais sustentáveis. Por conseqüência, desta aproximação é possível consolidar novos mercados que consomem um produto mais sustentável, de empresas mais responsáveis.

Equipe
Prof. PhD Aguinaldo dos Santos, Prof. Dr. Aloísio Schimidt, Prof. Dr. Sérgio Scheer, Profa. Dra. Carla Spinillo, Profa. Dra. Maria Lucia Okimoto, Profa. Dr. Maristela Ono, Profa. Dr. André Battaiola

Pesquisadores: Micheline Marcos. Fabíola Azuma, Priscilla Ramalho Lepre, Rafael Dubiela, Naotake Fukushima, Raffaela Tanure.

Bolsistas:
Ricardo Mendes Jr, Mauro Lacerda Santos Filho, Daniel Costa dos Santos, / Paulo Henrique Zannin, Aguinaldo dos Santos – Coordenador.

Moldando novas possibilidades do design

O projeto Madeira Moldada utiliza a chamada “farinha de madeira”. O grupo de estudos criou um novo composto a partir destas partículas, que, utilizando um adesivo, resultou em uma massa que é possível ser moldada para criação de novos produtos.

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Para estudo prático foram utilizados dois moldes de alumínio (um em alumínio fundido e o outro em usinado), onde o composto foi prensado com calor. O objetivo era testar o processo de moldagem para tamanhos diferentes e verificar como se comportavam características como planos, ângulos e espessuras.

Em uma próxima fase, e pensando na aplicação do método em produtos já existentes no mercado, foi escolhida a gaveta como um bom caso para estudo. Segundo uma pesquisa com o setor moveleiro, a moldagem poderia atuar na melhoria da manufatura de gavetas, pois esse é objeto de certa complexidade de execução.

A equipe ficou muito satisfeita com os resultados obtidos dos moldes de alumínio, pois ambos os métodos apresentaram qualidade estética e consistência nos produtos. Isso motivou o grupo do projeto a pesquisar soluções semelhantes com o material de aparas de papelão ondulado. A próxima fase é testar o composto no mercado moveleiro e de embalagens, e dar a continuidade aos estudos que procurar formas de reutilizar o que parece inutilizado.

Equipe:
Prof. Dr. Dalton Luiz Razera, Prof. Dr. Setsuo Iwakiri, Prof. Dr. Aguinaldo dos Santos, Prof. Pesquisador Cláudio Pereira
Parceiros:Laboratório de Painéis de Madeira – UFPR. Inbrasfama Industria de farinha de madeira Ltda. Borden Química. Indústria de adesivos

Dando um novo brilho ao vidro

De baixo custo, o vidro é uma matéria-prima que pode ser reformulada e novamente moldada com características diferentes. Os vidros automotivos, por exemplo, podem passar por procedimentos de moagem, controle granulométrico, confecção de moldes e controle de temperaturas de queima, tornando viável sua reprodução em pequenas unidades produtivas. São técnicas simples que não agridem o meio ambiente, e podem contribuir para o bem-estar social, com o apoio de cooperativas carentes.

Peças feitas com vidro reaproveitado

Hoje em dia, segundo a pesquisa, a maior parte da reciclagem de vidro, que ainda é pouca, é feita de forma industrial, utilizando técnicas caras, e com grande restrição quanto ao tipo de vidro que pode ser usado. No projeto “Reciclagem de Vidro Automotivo” utilizou-se a moagem e refundição sobre molde de vidros temperados, o que apresentou bons resultados e segurança em sua utilização.

 

 

Em temos práticos, o vidro reciclado vem sendo utilizado pelos alunos de Design da UFPR para a produção de bijuterias, brindes, luminárias e revestimentos. O projeto contou com apoio de empresas como a Vidrauto, AUDI que doaram os materiais, e da empresa de iluminação Plano Luz, que realizou a montagem, fabricação e comercialização de uma das linhas de luminárias desenvolvida pelo grupo.

Equipe: Prof. Dra. Dulce Maria Paiva Fernandes, Prof. Dra. Virgínia Kistmann; Prof. Dr. Dalton Luis Razera.
Bolsistas: Carolina Armelini, Hana Lie Watanabe; Rosana Vasques; Viviane Rocha; Luciana Emy; Paola Bertoldi; Bruno Batocchio.

Parceiros
FINEP – CNPq – empresas: AUDI, Vidrauto e Plano de Luz

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