Suzana Sacchi Padovano

O século XXI será imaterial e humano” (Philippe Stark)

O futuro do design é a sedução” (Matthew Hilton)

Moda é design, perguntam-me? Sim moda também é design, eu respondo às várias pessoas e meus próprios alunos. Moda é um uso ou hábito geralmente aceito, variável no tempo e resultante das interinfluências culturais do meio. Nela além do vestuário, incluem-se os itens tão fundamentais como sapatos, bolsas, cintos, óculos, jóias e adornos em geral. É sobre itens como sapatos e bolsas que irei escrever.

A fase 1 foi de pesquisa ou levantamento de dados para coletar material visual e reconhecimento da heroina no passado

Inicialmente, quando surgiram, os sapatos e mesmo as bolsas estes tinham uma função estritamente de uso (usabilidade), a de proteção dos pés e no caso das bolsas carregar um pequeno lenço.

Nos Estados Unidos os sapatos surgiram executados artesanalmente pelos próprios fazendeiros, individualmente, mas estes aos poucos foram adquirindo prática e mais tarde formaram seus próprios “workshops”. Em Massachusetts mais tarde iniciou-se uma pequena linha de produção e em 1810 surgiram as primeiras máquinas. Na França também começaram a surgir novas máquinas que ajudavam na fabricação de sapatos de forma mais mecanizada. Na Inglaterra porém, somente no final de 1800 e que os ingleses cederam à produção à máquina e não à execução manual.

Da Itália, o renomado designer de sapatos Salvatore Ferragamo, emigrou para a América em 1914 levando sua capacidade artesanal para a Califórnia, recusando o uso de máquinas e fazendo sapatos à mão, que ele próprio criava para artistas de cinema.

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Atualmente existe uma nova geração de designers de sapatos, americanos e europeus, a citar: Manolo Blahnik, Joan Halpern, Maud Frizon, Beth and Herbert Levine, Patrice Cox, Cristian Louboutin, Jimmy Choo entre outros, cujos sapatos são considerados verdadeiras obras de arte mais do que meros objetos funcionalistas.

Não podemos esquecer também que atrás das grandes “Maisons” de alta costura, como Gucci, Fendi, Versace, Dolce e Gabbana, Prada, Hermès, Christian Dior, Chanel, para citar somente algumas, existem designers dedicados e exclusivos como Corto Moltedo, que vem há anos trabalhando na grande marca, Bottega Veneta.

Com a passagem do mito funcionalista na época modernista, para tempos mais “pós-modernos” já dizia Ettore Sottsass, o design é visto mais como um gesto cultural no sentido antropológico, do que racional e tecnológico. É onde entra a semiótica. O design é um ato linguístico, que comunica coisas que não se limitam aos mecanismos técnicos e funcionais. Na hipermodernidade, conjectura Lipovetsky, o design se alimentará da hipertecnicalidade e o desejo será deturpado de seu sentido primordial em favor de uma vontade da vontade, uma dinamica de poder que se alimenta de si mesmo, sem outra finalidde que seu proprio crescimento.

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Hoje ainda, os consumidores necessitam e desejam sempre novos produtos, manifestam exigências sobre os aspectos de função de uso, técnicas, ergonômicas, formais (gestalt) e psicológicas (belo, luxo, status, fetiche, identificação, coleção, mistério, posse, ciúmes). Os consumidores buscam pela individualidade, pela série restrita. Moda como já provara Baudrillard, portanto, tem uma dinâmica psicológica. Os consumidores desejam…porque o desejo vem da falta, da frustração, e o que o filósofo Schopenhauer chama de sofrimento. Quando o desejo é satisfeito já não há mais sofrimento nem falta mas não há felicidade pois o desejo esvaiu-se, e isto chama-se tédio. Nesta roda viva, o consumidor vai preenchendo suas carências na compra renovadamente indefinida.

Designers tem como missão criar sob novos paradigmas, incluir em seus produtos a aplicação de uma visão humanística, cultural e psicológica, como fatores de diferenciação, para geração de alternativas projetuais e assim agregar valor ao objeto.

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Devem verificar o que significa o belo, o luxo, o porquê da necessidade de status, do mistério, no segredo no lançamento de novas coleções (Einstein disse que a mais bela coisa que podemos experimentar é o mistério, pois este é a origem de toda arte e ciência verdadeiras); do culto ou do fetiche de certos objetos; do ciúmes e da posse.

O belo, conforme Kant, não é nem uma idéia em si nem uma idéia no objeto, nem um conceito objetivamente definível, nem uma propriedade objetiva do objeto, mas sim uma qualidade que atribuimos ao objeto para exprimir a experiência que fazemos de certo estado de nossa subjetividade atestada pelo nosso prazer.

A posse vem da paixão pelos objetos e que faz com que emprestar-se uma caneta corresponda à doação narcisista de parte do eu e se este objeto se perde ou é deteriorado, pode significar a castração do individuo. Ninguém empresta seu falo, já dizia Baudrillard. O consumidor agarra-se à vida através da posse dos objetos, pois eles asseguram a sua continuidade. O desejo de se ter cada vez mais, relaciona-se com o desejo de se viver eternamente. O desejo constante do novo, move a Moda.

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Se pararmos para pensar, veremos que luxo nada mais é do que uma outra palavra para qualidade. O status de se usar uma bolsa ou sapato de determinada marca, ou com certo logo, pode demonstrar quão rica uma pessoa é ou de quanto sexo ela usufrui. A que “ranking/qualidade” social ela pertence. O desejo pelo luxo o é também pela singularidade absoluta de cada elemento, pela sua individualidade, exclusividade, pela série restrita.

No fetiche, o consumidor cultua seu objeto. O fetiche nada mais é que uma organização particular do gozo sexual ou libido, na qual a satisfação completa só pode ser alcançada em presença e uso de determinado objeto. O fetiche por exemplo por sapatos, a psicanálise identifica como o objeto sendo substituto do pênis que falta à mãe ou ainda, como significante fálico. Portanto o fetichismo envolve essa parte de insatisfação, constituida de todo desejo. O fetichismo retira da realidade um véu que dissimula, é esse véu que o sujeito superestima. Existe ainda uma ilusão, mas uma ilusão que sem dúvida se acha em todo desejo. “Por que o véu é mais precioso para o homem do que a realidade?” formulava Lacan. A pergunta parece muito atual.

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Ultimamente temos visto o fenômeno da democratização do luxo, onde na área de sapatos e bolsas, por exemplo, a alta tecnologia permite e mimetização de materiais tais como peles de crocodilo, de serpente, ferragens não tão artesanais, bordados à máquinas computadorizadas, saltos revestidos de madeira plastificada, solas de plástico etc..Peças “erzats” espalhadas pelo planeta. Mais “luxo”… e menos LUXO…”. É o “zeitgeist”!

Assim coleções são pensadas, nascem, morrem e renascem num eterno ciclo de repensar, recriar ou reprocurar. Estruturar para desestruturar, para reestruturar. Construir para desconstruir, para reconstruir.

O tempo é a medida de todas as coisas, e portanto o único item de luxo que de fato se pode pensar .*

E nesse contexto a Moda será eterna porque o homem que a cria busca pela eterna felicidade.

O trabalho de criação de uma coleção de sapatos e bolsas para Outono e Inverno 2005/2006, retratado neste artigo, foi produzido em Milão, durante o mês de julho 2004 e seguiu uma metodologia de projeto onde o tema foi “ontem, hoje, amanhã”. Foi escolhida uma heroina – Joana D’Arc. Esta heroina era de “ontem” interpretada “hoje” e desenhada para “amanhã”.

Suzana Sacchi Padovano

Designer Industrial/Mackenzie e Mestre em Idustrial Design pela Rhode Island School of Design/USA.

Bibliografia:

CHEMAMA, Roland, Dicionário de Psicanálise, Larrouse, Artes Médicas, Porto Alegre, 1995

LIPOVETSKY, Gilles, Os tempos hipermodernos, Editora Barcarolla, São Paulo, 2004

BAUDRILLARD, Jean, O Sistema dos Objetos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1968

DUFRENNE, Mikel, Estética e Filosofia, Editora Perspectiva, São Paulo, 1972

SPONVILLE, Andre Comte, A Felicidade, Desesperadamente, Matins Fontes, São Paulo, 2001

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