Ericson Straub

Há algum tempo tive a felicidade de ler um discurso fantástico. Foi proferido por um dos mestres vivos do design mundial, Milton Glaser, no “Encontro Legendas do Design” em 2004, organizado pela AIGA (American Institute of Graphics Arts). Eu, como designer, professor e editor, acho imprescindível reproduzi-lo nestas páginas, até mesmo porque creio que um dos propósitos que deu início à abcDesign tem muito a ver com estas brilhantes palavras. Veja abaixo o pronunciamento de Glaser, e na seqüência o meu comentário:

Tantas legendas, tão pouco tempo. Rick Grefe me solicitou que eu falasse sobre o valor e a continuidade da profissão de designer. Eu poderia começar falando da história do design, quem sabe de Peter Behrens, a quem se atribui a invenção dos programas de identidade e a coordenação das atividades do design gráfico e do design de produto. Ou talvez poderia começar falando do início de nossa história, relacionando com as primeiras pinturas rupestres.


Mas prefiro uma visão mais ampla, que relaciona nossa atividade com as necessidades fundamentais do homem: uma espécie cuja característica distintiva é fazer as coisas com um propósito; o que resulta justamente ser a descrição do fazem os designers.

Toda grandiosidade e orgulho que possa criar esta descrição de nossa atividade podem ser rapidamente apagados se em uma sala de aula somente 30% dos estudantes tenham alguma idéia de quem foi Paul Rand, Eric Nitsche ou Lester Beall, sem mencionar Joseph Hoffman, Edward Penfield e Gustav Jensen. Por acaso, Jensen foi mentor de Paul Rand e depois de Cassandre provavelmente era o designer que ele mais admirava. Mas não me surpreenderia se a maioria dos que estão aqui esta noite não saibam nada dele, até aqui, o tema de nossa própria história.

Sempre acreditei que existe uma diferença psicológica e ética entre os que fazem coisas e os que controlam coisas. Se criar formas é intrínseco ao ser humano e tem um benefício social, então podemos pensar no “bom” que tem um bom design, mais que em um sentido estético. Vincular beleza com propósito pode criar uma sensação de acordo comunitário que ajuda a reduzir o sentido de desordem e incoerência que produz a vida.

O design envolvido somente com o que acontece no momento ou com o marketing tem muito pouco interesse em conhecer e compreender a história. Analisar o que tem acontecido nos últimos vinte anos parece ser suficiente para os requisitos profissionais. Mas se nossa atividade aspira ser merecedora de respeito, deve ir além das necessidades do mercado. Ser uma lenda é um reconhecimento difícil de ganhar e infelizmente efêmero, mas ser parte do desejo humano de fazer coisas úteis e charmosas nos vincula com uma história gloriosa.

Há duas semanas estava com uma tremenda dor nas mãos, fui a um especialista em mãos e ele me disse que eu tinha provavelmente uma crise de “gota”. Refiro-me àquelas gravuras do século XVIII de homens ricos e gordos com seus grandes dedos e pés inchados. Minha mão está boa, mas enquanto estava no consultório médico, vi um documento na parede que se chamava “O que um cirurgião deve ser”, escrito no século XIV. Mudei uma ou duas palavras, mas parece um bom conselho para nossa profissão.

O que um designer deve ser:

Que o designer seja firme em todas as coisas seguras, e temeroso nas coisas perigosas; que evite toda a prática e tratamento não confiável. Deve ser amável com o cliente, considerado por seus colegas, cauteloso em seus diagnósticos. Que seja modesto, digno, educado, compassivo e piedoso; nem apegado, nem esbanjador com o dinheiro, mas, por outro lado, que sua remuneração seja de acordo com seu trabalho, aos meios do cliente, à gravidade do caso e a sua própria dignidade.

Creio que estar “antenado” no design, seus expoentes e na periferia de tudo que também influencia o design contemporâneo é fundamental. Mas me preocupa o fato de que muitas vezes alguns designers se preocupem apenas com a prática. Talvez isso tenha sido um dos fatores principais quando tive a intenção de fazer uma revista de design.

Em seu discurso, Glaser faz uma importante reflexão sobre a atividade do design e seus valores. Cita nomes reconhecidos do design mundial, inclusive afirmando que a grande maioria dos designers (provavelmente se referindo à platéia norte-americana) os desconhecem.  Peter Behrens, A. M. Cassandre, Paul Rand, e Joseph Hoffman citados por Bass são ícones que deveriam estar na memória de qualquer designer, seja norte-americano, europeu, latino-americano ou brasileiro.

Mas este discurso em especial me chama a atenção por ressaltar um problema comum, tanto à realidade do design norte-americano quanto a do brasileiro, já que também como designer e professor constato a mesma situação no Brasil: a fugacidade da memória.

Tenho a impressão de que o debate de questões ligadas à prática, ou mesmo à regulamentação, parecem ser as únicas preocupações dos designers. Sem dúvida são discussões importantes para no futuro da atividade, mas vejo que estão vinculadas ao valor que damos ao nosso passado. Acho que nos lembrarmos daqueles que fizeram a história da atividade, mesmo que de uma forma periférica em um primeiro momento, está vinculado ao valor que damos ao nosso papel e, automaticamente, à compreensão da melhor forma de fazer o design ser entendido pelo outros (que também é um problema a ser resolvido).

Fazer coisas com um propósito determina esta distinção do design. Designers não criam somente para as necessidades humanas, ou mesmo para o mundo corporativo, mas também para proporcionar paixão e imaginação. Como diz o designer Stephen Bayley, “o design dá forma poética para o pragmatismo”. Neste contexto, o design é fundamental para cultura e para a manutenção dos valores das diversas regiões do Brasil. Mas para isso é fundamental primeiro cultivar a memória do design.

As palavras dos médicos do século XIV, que Glaser adapta brilhantemente, são realmente bons conselhos para a atividade, já que mostra a necessidade do respeito aos outros e a importância de valores. E isso é um processo de construção onde cada profissional tem um papel fundamental.

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