Usar o potencial criativo é a chave para o crescimento

O medo é um mecanismo de aprendizagem e de sobrevivência da espécie. É um estado de alerta da consciência que é disparado diante de uma ameaça percebida, que pode ser real ou não. Temos medo de coisas conhecidas (que já nos ameaçaram antes) e do desconhecido (que ainda pode nos ameaçar).

A realidade pode ser dura com a espécie. Uma consequência da nossa evolução foi o agrupamento humano para enfrentar as ameaças juntos. Nós somos mais capazes de enfrentar o medo quando estamos em grupos, em tribos. Até hoje, temos medo das mudanças e costumamos aceitar os procedimentos das organizações, das empresas que nos contratam, do governo que elegemos. Existe uma tendência, quando estamos agrupados, em seguir as regras vigentes que foram elaboradas para exercer um controle sobre os negócios humanos.

Cientistas comportamentais percebem que as pessoas agem seguindo dois tipos de dinâmicas: algorítmica, que segue um procedimento sistemático de repetição baseado no estudo do que existe; e heurística, que testa novas hipóteses originais para chegar a uma solução ainda inexistente. Embora seja assim que se constrói o futuro, as pessoas têm medo de enfrentar o desafio da criatividade. O artista francês Henri Matisse dizia que “criatividade requer coragem”.

Quando entrei para a universidade, saí da casa protetora dos meus pais e fui arrumar um emprego. Fui dar aulas de desenho artístico para um cursinho preparatório para a faculdade de arquitetura. Uma das provas era desenho à mão livre, na qual os pretendentes a arquitetos deveriam mostrar que conseguiam desenhar uma figura humana. No curso pré-vestibular percebi que os alunos relutavam em enfrentar o desafio de desenhar. “Não sei desenhar nem uma linha reta” era uma das frases que escutava com frequência. Na verdade, qualquer pessoa sabe se expressar através do desenho. Nós perdemos essa habilidade intrínseca na chegada da adolescência, quando os fatores sociais extrínsecos nos fazem ter medo da expressão espontânea e criativa.

Os homens pré-históricos, 32 mil anos atrás, possuíam uma capacidade simbólica, intelectual e artística similar à do homem moderno. Eles deixaram sua marca, sem medo, nas cavernas de Chauvet, na França. Mas quando o espanhol Marcelino de Sautuola encontrou as pinturas paleolíticas da caverna de Altamira, 150 anos atrás, elas foram consideradas como fraude pelos acadêmicos da época. De forma similar, há alguns anos, li um livro no qual o autor, especialista em construção de marcas, dizia que designers não poderiam fazer branding porque não seriam racionais, somente heurísticos.

Uma civilização protecionista e medrosa nos trouxe até aqui, focada no controle e no comportamento algorítmico. Foi assim que construímos, com um toque de ganância, nossa economia global que faliu em 2008. Porém, mesmo sem gostar de mudanças, a transformação dos negócios humanos é permanente e inevitável. Agora, um capitalismo mais consciente consegue entender uma nova demanda: a criatividade. Afinal, a demanda voraz pelo novo exige um compromisso com a inovação, longe da segurança controlada do passado.

Pesquisa feita pela IBM entre 1.500 CEOs revela que a criatividade é a mais importante competência para os empreendimentos atuais diante da complexidade dos mercados globais. Uma investigação da Adobe Systems, entre 5 mil pessoas em três continentes, revela que 80% delas percebem que destravar o potencial criativo é a chave para o crescimento econômico. A maior parte das quinhentas maiores empresas americanas listadas pela revista Fortune contratou um consultor de criatividade em 2008. O número de escolas de negócios nos Estados Unidos que oferecem cursos de criatividade dobrou entre 2004 e 2009.

Essa recente demanda é uma boa notícia para os designers: nós somos os profissionais mais bem preparados para atuar nos complexos negócios contemporâneos. Usamos com facilidade os dois lados do cérebro, somos algorítmicos e heurísticos simultaneamente. Somos empáticos e gostamos de incluir as pessoas nos nossos projetos. Nos dá prazer dizer: “Por que não tentar de uma forma completamente diferente?”. Não temos medo do desconhecido. Temos coragem para sermos criativos na invenção do futuro sem jogar fora o passado que tenha significado.

“O erro mais idiota é ver o design como algo que você faz no final de um processo para arrumar uma confusão. Deveria ser o contrário, desde o primeiro dia e fazendo parte de tudo.” Lee Green, vice-presidente de Valor e Experiência de Marca Global da IBM.

Arte por: Thais Pacheco

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