por, Christian Ullmannmadeira1

Minha história com o Brasil está muito ligada à madeira. Em 1996, quando cheguei ao país, conheci o trabalho do LPF/IBAMA – Laboratório de Produtos Florestais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – e logo fui convidado para participar do projeto “Madeiras em Design”. Um ano depois, trabalhei na organização do Prêmio Nacional Madeiras da Amazônia Móveis e Design, cujo objetivo era divulgar e promover o aproveitamento racional deste recurso, bem como identificar designers comprometidos com a questão ambiental e, mais especificamente, com a conservação da Amazônia.

Os finalistas ganharam uma viagem de 10 dias pela floresta para conhecerem a realidade da situação madeireira da região. Por participar da organização, também tive oportunidade de participar da viagem e isso influenciou muito minha atuação profissional.  Dez anos depois, resolvi saber se, assim como eu, meus companheiros de viagem haviam sido influenciados por essa oportunidade.

Realmente confirmei que meus colegas também foram impactados pela viagem e que isso se traduziu em seus trabalhos. Como disse Sílvia Grilli, designer paulista que comanda o Studesign Projetos & Serviços, “na viagem conhecemos uma dura realidade de mau uso de recursos e desperdício”.

O designer e professor da Uniceuma/MA, Carlos Alberto Pereira, graças aos conceitos aprendidos trabalhou com uma indústria exportadora de móveis, preparando-a para a certificação de FSC (Forest Stewardship Council). “Por onde eu passo faço referência ao Prêmio IBAMA, pois foi o maior evento cultural e profissional da minha vida”.

Glauba Cestari, designer professora do CEFET-MA e sócia do Oba Design, que era estudante na época, além de passar a valorizar mais a madeira se tornou mais criteriosa na escolha de matérias-primas para seus projetos. “Além disso, como professora, procuro conscientizar também meus alunos sobre a parcela deles na preservação do meio-ambiente”.

A mesma preocupação surgiu para Paulo Ricardo da Silva, designer da Cogito Design. “É impossível não tocar neste assunto quer seja em uma palestra, seminário, consultoria, etc”. O designer hoje realiza consultorias para instituições como o Sebrae e Senai, além de fabricar uma linha de produtos utilitários com a marca ECOLAR, que utiliza sobras de lâminas de madeiras faqueadas.

Mas além de preservação da natureza, sustentabilidade também tem tudo a ver com preservação da cultura e incentivo à economia local. Foi isso que mais impressionou Lesley-Ann Noel, designer da Trinidad & Tobago, que também é professora e consultora na área de artesanato para exportação no Quênia. “A viagem deixou forte impressão e interesse nas comunidades rurais e semi-rurais, a questão de design e seu papel na sustentabilidade e ecologia”.

Luiz Reis, arquiteto paranaense que comanda o escritório Archimund, percebe que ainda existe uma preocupação com os custos envolvidos com a sustentabilidade. “Algumas empresas estrangeiras utilizam materiais e tecnologias sustentáveis desde que o investimento permita um retorno em pelo menos três anos, caso contrário o investimento é feito no mercado de capitais. O ser humano se torna ambientalmente mais adequado quando o retorno do investimento fica mais evidente a curto prazo”.

André Marx, designer de móveis paulista que há 20 anos fabrica e comercializa móveis, aponta que o mercado tem conscientização, porém não na hora de ser posta em prática. “Uma mistura de preguiça e descaso faz com que os produtos ambientalmente corretos não sejam levados em consideração tanto quanto deveriam. O pessimismo que paira no ar se justifica em virtude do fato de Amazônia estar longe e não sabermos exatamente como atuar, mas a persistência é que será fundamental”.

Mesmo com um longo caminho a ser percorrido, Glauba Cestari é mais otimista e ressalta que muitos designers têm em mente a importância da racionalização, reutilização e certificação da madeira. “Esses conceitos são visíveis nos produtos lançados nas feiras nacionais e nos concursos realizados nos últimos anos”.

Comentários sobre algumas características da madeira e suas influências. Informações extraídas da publicação Incentivo ao uso de novas madeiras para a fabricação de móveis, da engenheira florestal Maria Helena de Souza do LPF/IBAMA – Brasília 1998

Alburno

Por ser esta a parte da madeira que ainda transportava seiva quando a árvore estava em pé, é a mais atacada por fungos e insetos.

Cerne

Parte interna do tronco da árvore, envolvida pelo alburno, geralmente caracterizada por coloração mais escura. É a parte do tronco que já estava morta mesmo com a árvore ainda em pé.

casca

Anéis de crescimento

A largura dos anéis por centímetro de raio é a medida da velocidade de crescimento da árvore e serve como indicação das propriedades de resistência da madeira. A largura dos anéis de crescimento é um critério para se avaliar a resistência, porém é mais eficiente se associada à densidade.

anel-de-crescimento

Densidade

É o critério que melhor define a resistência da madeira, ainda que seja limitado por causa da influência do conteúdo de umidade e defeitos.

Conteúdo de umidade

Quanto mais seca a madeira, maior sua resistência. Toda madeira tende a entrar em equilíbrio com o ambiente onde está exposta atingindo o que se chama de conteúdo de umidade de equilíbrio. Para atingir este equilíbrio, a madeira absorve ou perde água, em maior ou menor grau, dependendo das condições de temperatura e umidade do ambiente. Este processo é responsável pelos movimentos da madeira (contração e inchamento).

Cor

Do ponto de vista prático, a cor pode aumentar ou diminuir o valor decorativo da madeira. A cor é em grande parte determinada pelos vários conteúdos das paredes das células. Alguns conteúdos são até extraídos para serem usados como corantes. Alguns mudam quando a madeira fica exposta à luz, ao ar ou ao aquecimento. Como consequência algumas madeiras escurecerem com o tempo e outras clareiam.

Defeitos

Diminuem a resistência ou prejudicam a aparência da madeira. Constituem defeitos: nós, rachaduras, furos, manchas ou apodrecimento causados por fungos. Em alguns casos defeitos podem ser considerados como detalhes decorativos.

Lustre

O lustre depende da capacidade das paredes das células de refletirem luz. Algumas madeiras possuem um alto grau desta propriedade e outras não, comparativamente mais opacas. Ainda que o lustre seja desejável em madeiras para móveis. Do ponto de vista prático, a capacidade de dar um bom acabamento é tão importante quanto o lustre, porém estas duas características nem sempre andam juntas.

Raios

Madeiras com raios largos, geralmente, apresentam figura atraente, mas eles indicam que essas madeiras racham mais facilmente na direção radial.

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