por, Chico Homem de Melo

* Palestra proferida no 3º Congresso Internacional de Design da Informação, em 10 de outubro de 2007, em Curitiba, PR.

Estou ligado profissionalmente ao universo do livro didático há mais de vinte anos, e é sobre essa experiência que vou falar aqui. O livro didático é exemplo privilegiado de design da informação. Desde a simples ilustração que ajuda a tornar a página mais agradável até o intrincado infográfico que explica um determinado conceito científico, nele tudo é informação.

O livro didático é o patinho feio da indústria editorial. Tiragens por vezes na casa dos milhões de exemplares, impressão em rotativas, redução máxima dos custos de produção, tudo isso contribui para rebaixar a qualidade gráfica do produto final. Ao mesmo tempo, numa comparação feita há poucas semanas por um jornal paulistano, os líderes de mercado desse segmento deixam os Harry Potters e os Códigos Da Vinci no chinelo em termos de quantidade de exemplares vendidos. Há muita coisa em jogo: desde dinheiro – muito dinheiro, na verdade -, até a redução da desigualdade social pela via da educação de qualidade para todos.

O livro didático é instrumento chave do processo educacional. Se, por um lado, no universo da pedagogia bem-pensante ele é frequentemente satanizado, por outro, qualquer projeto voltado à melhoria do ensino nas escolas brasileiras passa obrigatoriamente por seu uso. Não haverá ensino de qualidade sem o apoio de um livro didático de qualidade. Produzir um bom livro didático é tiro de longo alcance.

É, portanto, uma área de trabalho paradoxal: por um lado, o livro didático é um produto cuja qualidade gráfica normalmente fica aquém de nossas expectativas – e designer nenhum gosta disso; por outro, ele tem grande ressonância social – e não há designer que não goste de trabalhar em prol de causas socialmente relevantes. Ou seja, estamos efetivamente diante de uma história análoga à do patinho feio: é feio quando nasce, mas depois, ao cumprir seu papel nas mãos de milhões de jovens estudantes brasileiros, pode sim virar cisne. E há hoje milhares de designers trabalhando nesse setor da indústria editorial. Queiramos ou não, estamos no meio dessa história.

Atualmente, o processo de produção de um livro didático é comandado pela divisão de tarefas. No que diz respeito ao design, há várias frentes: um profissional ocupa-se do projeto gráfico, outro da pesquisa iconográfica, outro da ilustração, outro da fotografia, outro da editoração eletrônica. Nenhum desses profissionais tem contato com os demais. Quem faz a amarração dessas pontas é o editor de arte, o qual, por sua vez, presta contas ao editor da obra. Este, diga-se de passagem, costuma ser um editor de texto, com pouca cultura de design.

Para dar um contraponto a essa situação, lembro da minha primeira década de atuação nessa área. Nos anos 1990, eu conseguia interferir desde o início do processo: discutia o original do texto com os próprios autores; respondia pelo projeto gráfico, pela pesquisa iconográfica, pela direção de ilustração e pela editoração eletrônica integral de todos os volumes de uma coleção. E as discussões eram travadas diretamente com o editor, os autores e os eventuais colaboradores.

Com o passar dos anos, a profissionalização levou à divisão de trabalho radical e entrou em campo o famigerado planejamento: livro bom é livro que segue fielmente o que foi planejado. Muitas vezes, essa lei passou a valer na sua acepção mais dura: não importa se o livro passou por mudanças que o aprimoraram, o simples fato de ele ter passado por mudanças depõe contra o editor. O que podem fazer os editores diante disso? Zelar para que nenhuma alteração aconteça, pois seus indicadores de desempenho dependem disso.

Projeto gráfico de livro didático é ponto de partida, não é ponto de chegada

Meu trabalho atual como designer de livros didáticos – e de muitos escritórios como o meu – passou a se restringir apenas ao projeto do livro, e não mais à editoração eletrônica. Interferir no texto, nem pensar. A diagramação passou a ser feita por escritórios especializados em produzir páginas num ritmo frenético, limitando-se a acomodar da melhor maneira possível uma determinada quantidade de textos e imagens dentro do número de páginas pré-estabelecido. O papel do projeto resume-se a dar uma aparência agradável ao livro, e a tentar tornar visualmente clara a crescente complexidade estrutural do conteúdo.

Em minhas conversas com os editores, costumo insistir no seguinte ponto: projeto gráfico de livro didático é ponto de partida, não é ponto de chegada. É no corpo-a-corpo da editoração eletrônica que o livro é construído. O projeto dá o norte, mas o que vai dar a cara final do livro, o que vai efetivamente materializá-lo, é a diagramação de página por página.

Gosto de comparar o projeto do livro didático aos manuais de identidade visual, velhos conhecidos dos designers que atuam no segmento corporativo. Normalmente, um projeto de identidade visual começa com um levantamento da vida de uma determinada corporação e, após meses de trabalho, chega ao célebre manual. Digamos que ele vai passar a valer a partir das oito horas da manhã de uma certa segunda-feira. Pelos meus cálculos, as oito e quinze surge a primeira ocorrência não prevista no manual. É por essa razão que, por mais cuidadoso que seja, um manual será de pouca valia se a corporação não contar com um time qualificado de designers para implantá-lo e geri-lo no dia a dia. De modo análogo, o projeto gráfico de um livro didático será de pouca valia se a equipe responsável por sua diagramação não tiver qualificação e condições de trabalho compatíveis com os resultados que se esperam dele.

Identificar problemas e apontar o futuro

Em tempos de hiper-valorização da conceituação, prefiro caminhar no sentido contrário e valorizar a execução. Defendo o que poderíamos chamar de um fazer (auto)crítico: um fazer que se pensa durante o processo, e que se conceitua ou reconceitua nesse pensar. É reflexão inclusive no sentido de espelhamento: reflete – espelha – o que se está fazendo, e nesse processo se realimenta. É a linguagem refletindo sobre si mesma no processo de sua produção.

Vivemos uma situação esquizofrênica. Em seus discursos, os dirigentes das empresas – editoras incluídas – fazem a defesa de uma administração moderna, na qual há menos hierarquia, maior participação de todos, maior troca de experiências. E quem faz isso é um novo profissional, com uma visão ampla dos processos, que busca uma abordagem holística… E, no entanto, vive-se um cotidiano fundado no mais radical fordismo: o livro didático é produzido em uma linha de montagem ortodoxa, na qual um elo da corrente não pode interferir nem sequer conversar com os demais.

Nesse futuro, vejo uma mudança qualitativa do papel do designer. Para que a potencialidade de sua intervenção possa ser plenamente explorada, é imprescindível o redesenho das relações editor-autor-designer. E esse redesenho passa por editores mais cientes das questões pertinentes ao design, e por uma interlocução qualificada entre os atores do processo. Uma interlocução na qual os interlocutores sejam capazes de falar e de ouvir – e isso vale para todos, editores, autores e designers.

Para que não restem dúvidas, reafirmo: acredito firmemente que o livro didático é instrumento poderoso e indispensável para a melhoria da educação brasileira. E acredito igualmente na competência de muitos dos profissionais envolvidos hoje em sua produção – editores, autores, iconógrafos, ilustradores, fotógrafos, designers. Só não acredito na maneira como ele vem sendo produzido. Seu aprimoramento virá das editoras que ampliarem o papel do designer, e que compreenderem a possibilidade de ele se tornar um co-autor do livro.

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