por, Chico Homem de Melo

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Se o curso é de Português, temos que ensinar Português, e não Grego, certo?

Errado. Ou, para dizer o mínimo, um começo pouco promissor. Um estudante de Letras que só estudar Português terá uma compreensão da língua muito mais pobre do que se ele também tiver contato com Grego, Latim, Espanhol, Inglês… (E, se sobrar um tempinho, uma pitada de línguas asiáticas não lhe fará mal algum).

Com o futuro designer acontece a mesma coisa. Quanto mais sua formação estiver limitada ao estudo e à prática projetual no campo estrito do design, mais limitada será a abrangência do seu olhar, de sua reflexão e de sua prática projetual. Se essa formação estiver restrita a um campo específico dentro do design, tanto pior.

O ensino de qualquer linguagem é um terreno movediço. Os conhecimentos adquiridos não têm a positividade característica do conhecimento científico. Nos movemos muito mais no campo das possibilidades do que no domínio das certezas. Nesse campo de possibilidades, o diálogo com outras linguagens é uma das estratégias mais seguras para mapearmos o nosso próprio território. É por meio desse diálogo que conhecemos melhor os contornos e as práticas da nossa linguagem-matriz.

E quais são as linguagens que mais contribuem para a formação do futuro designer? As artes visuais, a arquitetura e a publicidade são linguagens-irmãs do design, são elas as nossas interlocutoras privilegiadas. Isso para não falar do próprio campo do design, é claro: para um futuro designer visual, o contato com o design do produto é imprescindível – e vice-versa.

Como exatamente se dá esse diálogo? A interlocução mais imediata é por meio do estudo da teoria e da história. Estudar a teoria e a história das artes visuais, da arquitetura e da publicidade fornece nutrientes preciosos para a formação do futuro designer. Mas essa não é a única via, nem a mais vital. Existe um nutriente ainda mais poderoso: é a prática dessas linguagens.

Produzir obras nos diversos campos das artes visuais, produzir projetos de arquitetura, produzir campanhas publicitárias, esse é o segredo. O estudo da teoria e da história nos fornece o que poderíamos chamar de olhar externo sobre as linguagens. A prática efetiva nos fornece o olhar interno. É somente produzindo uma linguagem que a conhecemos por dentro, que compreendemos sua maneira particular de enfrentar e resolver problemas. A partir de experiências com a prática de linguagens que têm analogias e mantêm interlocuções com o design conseguimos ampliar o arsenal de conhecimentos para enfrentar e resolver problemas no nosso próprio campo.

Dito de outro modo: uma das melhores maneiras de se estudar as cidades é passando pela experiência de projetar uma. Aliás, o urbanismo é outro assunto relevante a ser incluído na formação do designer.

Alguns poderiam objetar: mas como um estudante de design pode produzir, por exemplo, um projeto de arquitetura? A resposta é simples: da mesma maneira que um jovem ingressante em um curso de arquitetura começa a projetar desde o primeiro dia (e é fundamental que o faça). Em qualquer campo, projetamos com o arsenal que temos. Ganhamos consciência de nossas possibilidades e limitações ao mobilizarmos esse arsenal e percebermos o quanto ele nos permite avançar e o quanto nos falta para conseguirmos ir mais longe.

– Então, se outras linguagens são tão importantes, vamos acabar no vale tudo: aulas de culinária, de moda, de perfumaria, de música…

Sim, sim, em princípio vale tudo. Como tudo não dá para fazer, há três fatores a serem considerados na eleição do que entra e do que não entra no balaio de outras linguagens: primeiro, como já foi dito acima, a maior ou menor afinidade entre o design e essas outras linguagens, donde deriva a eleição das artes visuais, da arquitetura e da publicidade como as três práticas mais fecundas para o futuro designer; segundo, o tempo disponível; e terceiro – um fator mais sutil, mas decisivo -, a abordagem pedagógica.

Uma disciplina de projeto de arquitetura ministrada para estudantes de design deve ser efetiva e radicalmente uma disciplina de arquitetura. No entanto, é importante que o design esteja presente como referência, mesmo que de um modo não explícito. O professor não precisa ser designer – na verdade, é fundamental que não o seja – mas tem que conhecer a perspectiva do design. O objetivo não é formar futuros arquitetos, mas enriquecer a formação de futuros designers. Essa visada pedagógica que tem o design como pano de fundo é o pulo do gato, um pulo do gato difícil de ser traduzido em uma receita ou em um decálogo.

Vale lembrar aqui uma prática regular do escritório multinacional Meta Design relatada por seu diretor, Erik Spiekermann: a cada quinze dias, é convidado um profissional de uma área qualquer para falar sobre seu ofício para a equipe de designers. Qualquer é qualquer mesmo: pode ser um boxeador, um criador de ovelhas, um mecânico de automóveis ou um poeta; o importante é que a pessoa conheça bem e goste do que faz. De que modo uma palestra como essa vai contribuir para as tarefas cotidianas do escritório? Diretamente, em nada. Indiretamente, poderá fazer toda a diferença.

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