por, Christian Ullmann

Cultura, Design e Desenvolvimento Sustentável:
Um experimento no Cabo de Santo Agostinho

Imaginário Pernambucano é um projeto de extensão da UFPE, que tem como objetivos potencializar os valores de identidade das comunidades produtoras de artesanato, promover o associativismo e possibilitar que a atividade se firme enquanto meio de vida sustentável.

Imaginário Pernambucano

Em 2001, o projeto teve como primeiro desafio atuar na comunidade quilombola de Conceição das Crioulas. A ação foi pautada na valorização da cultura, na identificação das potencialidades da região e no reconhecimento das habilidades e competências de seus moradores. A partir do sucesso da experiência de Conceição das Crioulas, foi decidido dar continuidade à atuação do Programa de Artesanato da instituição em outros municípios do Estado.

O Projeto “Um Experimento no Cabo de Santo Agostinho”, apresenta as experiências do projeto Imaginário Pernambucano junto aos artesãos ceramistas do Cabo de Santo Agostinho. A metodologia multidisciplinar utilizada valoriza a cultura local e investe em experimentos que encorajam a implantação de novas idéias, ao mesmo tempo em que respeita as expressões tradicionais da comunidade. Necessidades de melhorias na qualidade da matéria-prima, no processo produtivo e nos produtos são atendidas ora inserindo novas tecnologias, ora utilizando ferramentas de design para o desenvolvimento de novos produtos que buscam um melhor posicionamento daquela produção no mercado e a sustentabilidade do grupo.

Participaram do Projeto:

Virginia Pereira Cavalcanti – PhD em Arquitetura, coordenação geral
Célia Campos – PhD em Arquitetura, agente de campo
Ana Maria Andrade – M.Sc. em Educação, coordenação geral
Silv, Germannya D´Garcia de Araújo – M.Sc. em Engenharia de Produção, coordenação de produção e tecnologia
Josivan Rodrigues – Bacharel em design, coordenação de desenvolvimento de produtos
Erimar José Cordeiro – Bacharel em Design, auxílio em vendas e comunicação
Quésia Costa – Bacharel em Design, agente de campo
João Vale – estudante de Comunicação Social – Jornalismo, auxilio a comunicação

O projeto conta também com parceiros e colaboradores citados geralmente a partir das instituições das quais fazem parte, como por exemplo engenheiros do ITEP e da Coopergas

Introdução

O foco da ação foi o município do Cabo de Santo Agostinho, situado no litoral sul cerca de 40 km da capital Recife. Localizado da mata sul, zona canavieira, o município do Cabo dispõe de recursos naturais que se transformam em atrativos turísticos e de potencialidades econômicas que repercutem no desenvolvimento de todo o Estado, a exemplo do Complexo Portuário de Suape. Mesmo com todo esse potencial, o município apresenta índices que apontam à necessidade de geração de emprego e renda, bem como a criação de políticas públicas e mecanismos que ampliem a inclusão social.

Nesta paisagem diversificada de grandes indústrias, complexos hoteleiros e engenhos de açúcar, convivem atividades produtivas industriais e artesanais, estas últimas empregando uma mão-de-obra com boa qualificação sem, entretanto, contar com informações e tecnologias atualizadas.

Diante deste cenário e com o objetivo de fortalecer a produção artesanal em cerâmica do Cabo de Santo Agostinho, o projeto Imaginário Pernambucano iniciou em 2003 os trabalhos junto ao grupo de oleiros situados no espaço Mauriti, tradicional centro de produção de cerâmica utilitária.

O Cabo de Santo Agostinho: uma história

A história da produção utilitária em cerâmica no Cabo de Santo Agostinho remonta aos tempos da colonização. Durante séculos, as olarias de propriedade dos engenhos produziram apenas tijolos e telhas para atender, exclusivamente, às necessidades da principal atividade econômica da zona da mata sul de Pernambuco. Com o passar do tempo, as olarias começaram a confeccionar moringas, jarras, panelas, potes, alguidar e o prato de curau. A comercialização do excedente destas peças permitiu que os oleiros ou artesãos conquistassem, pouco a pouco, o reconhecimento pelas suas habilidades.

Depoimentos de antigos artesãos revelam que no início do século XIX as pequenas fábricas de cerâmica já eram mais conhecidas pela alcunha de seus mestres oleiros do que pelo vínculo com os engenhos da região.

Filho e sobrinho de ceramistas, seu Cele relembra com saudade dos tempos na olaria dos irmãos Manuel e Eliotério Nascimento da Paz. Foi nela, que aos onze anos de idade, o mestre começou a aprender o ofício, ajudando a dar acabamento nas peças. De acordo com depoimento do Sr. Cele, na década de 50, um dos filhos de Eliotério viajou até o Rio de Janeiro e lá, aprendeu a confeccionar filtros d’água, introduzindo a técnica no Cabo de Santo Agostinho. Após alguns anos, Seu Cele comprou um galpão e abriu seu próprio negócio. Hoje é uma referência enquanto artesão por sua criatividade e qualidade no acabamento de seus produtos. Aos 65 anos, é também uma liderança local, reconhecido por todos pela sua experiência.

De acordo com o seu relato, já nos anos 70, a partir da introdução de novas tintas e vernizes na cerâmica utilitária e nos objetos artesanais confeccionados no Cabo de Santo Agostinho, a produção da cerâmica utilitária artesanal teve um crescimento significativo. O aumento pela demanda da produção, fez o Seu Cele incentivar o surgimento de novas olarias e ensinar o ofício a dezenas de pessoas.

Entretanto, no início dos anos 90, a demanda pela produção começou a decrescer. A qualidade das peças já não condizia com os padrões estabelecidos pelo mercado e a escassez de novos produtos dificultava a manutenção e ampliação das vendas. Fonte geradora de emprego e renda para centenas de famílias, muitas olarias fecharam as portas e, de acordo com dados da Associação de Ceramistas e Artesãos do Cabo de Santo Agostinho, atualmente existem no município apenas 25 unidades produtivas de pequeno e médio porte e aproximadamente dez produtores individuais.

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A metodologia do Imaginário Pernambucano

A metodologia multidisciplinar desenvolvida pelo projeto Imaginário Pernambucano tem como foco principal a comunidade artesã e o seu produto. Com base nos eixos design, produção, gestão e mercado que se apóiam no estabelecimento de parcerias, no fortalecimento da comunicação e nos princípios de sustentabilidade, a equipe técnica interage com a comunidade artesã visando à construção e fortalecimento do projeto coletivo desse grupo alvo.

Aplicação da metodologia: gestão para o desenvolvimento

A aplicação do modelo no Cabo de Santo Agostinho, no que diz respeito à gestão, contou com uma abordagem psicossociológica, isto é, associou aos conceitos tradicionais de gestão contribuições das áreas de sociologia e psicanálise, favorecendo novas construções de vínculos e desenvolvimento de relações de poder.

Nesta perspectiva foram considerados os diferentes níveis de realidade: o indivíduo, o grupo, a organização e o macro-ambiente, bem como as dimensões econômicas, política, ideológica e sociopsicológica. Esta abordagem permitiu compreender e implantar o modelo gestão empregado com o grupo de artesãos do Cabo.

Sem perder de vista o resultado, mecanismos de gestão foram incorporados para facilitar a construção e explicitação de um desejo coletivo. Esse desejo, submetido a uma avaliação estratégica, transformou-se num desafio com o seguinte enunciado: “Manter e ampliar o grupo comprometido com o projeto, investindo em qualidade e diversificando a sua produção para aumentar a inserção dos seus produtos no mercado. Consolidar e ampliar os apoios institucionais.” Este desafio foi elaborado pelos artesãos e equipe do Imaginário Pernambucano, durante as oficinas.

A participação e o compromisso com o projeto foram construídos a partir de um plano de ação, com a definição das atividades, os prazos de realização e os responsáveis pela coordenação de cada tarefa. A partir de encontros semanais com a equipe técnica, as informações eram compartilhadas, alimentando um ambiente de experimentos e aprendizado, vivenciado por técnicos e artesãos. Erros e acertos foram discutidos e reelaborados de forma transparente para o conforto de todos os participantes. Assim, a cada reunião, quando novas necessidades apontavam, o plano de ação tomava novas dimensões.

Algumas questões puderam ser explicitadas com relação à cultura organizacional daquele grupo produtivo: a forma empírica de calcular custos e atribuir preços aos produtos, a necessidade de tomar notas das reuniões e até mesmo, a criação de um espaço/tempo para troca de informações. Para isto, alguns instrumentos foram criados e continuam a ser aprimorados, tais como modelos de pautas, atas de reunião e fichas de acompanhamento de produção.

Design

Na natureza da atividade do artesão está evidente a criação de objetos, assim, o colocar a mão na massa foi de imediato demandado pelos artesãos. No entanto, o cuidado no reconhecimento dos valores locais, da potencialidade individual e dos limites tecnológicos demandou um momento maior de interação.

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Conversas informais trouxeram grandes descobertas. Sem perder suas referências locais, mas comprometidos em construir um diálogo entre a tradição e a inovação, os artesãos foram estimulados pela equipe técnica do Imaginário a conhecer novos universos, por meio de visitas a exposições, feiras e apresentação de imagens da produção cerâmica contemporânea internacional.

O contato com os diversos repertórios instigou a criatividade do grupo, ao
mesmo tempo em que acendeu a lembrança da produção passada. O clima de redescoberta e desafio facilitou a equipe técnica estruturar oficinas que buscaram compatibilizar as referências locais e potencialidades individuais, com a identificação de uma produção coletiva.

Como resultado, surgiram peças que, por suas características formais e de uso, apresentam as referências locais em consonância com uma linguagem universal. Novas linhas de produtos foram criadas condizentes com a demanda e compatíveis com tendências do mercado. Tomando partido do uso de elementos vazados e da versatilidade funcional, das mãos dos talentosos ceramistas surgiram produtos mais sofisticados e contemporâneos.

Produção

No que diz respeito à produção propriamente dita, esta considerou questões relacionadas à matéria-prima, tecnologia, processos produtivos e o meio-ambiente. O barro, matéria-prima utilizada, é, até hoje, extraído de jazidas da própria região. Entretanto, com o crescimento da cidade, adquirir a argila foi ficando cada vez mais difícil. Em 1985, com o intuito de buscar saídas para essa questão foi fundada a Associação de Ceramistas e Artesãos do Cabo de Santo Agostinho.

A partir de 1995, o formato jurídico foi alterado e hoje a permissão de retirada do barro é concedida pelo Complexo Industrial e Portuário de Suape, anualmente com a permissão do IBAMA. Esse novo formato exige maior planejamento e organização da Associação de Ceramistas e Artesãos do Cabo, pois há interrupções na produção e fornecimento de produtos causado pela falta de entendimento e providências de todos os envolvidos nos trâmites de burocráticos para a extração da matéria-prima.

A produção de telhas e tijolos é realizada a partir da compactação da matéria-prima. Entretanto, a produção de utilitários de mesa, produtos que apontam maior demanda do mercado, exige um tratamento mais cuidadoso no seu preparo. Nesse sentido, o Imaginário Pernambucano articulou uma parceria com o Instituto Tecnológico de Pernambuco, para estudar e sugerir soluções de beneficiamento daquela da matéria-prima, o desenvolvimento de esmaltes e o projeto de um forno alimentado a gás natural.

No momento, experimentos estão sendo realizados no sentido de caracterizar o comportamento dos materiais sobre os aspectos de absorção de água, porosidade aparente, massa específica, retração, tensão de ruptura de flexão e cor. Em paralelo, está em andamento o estudo de um esmalte adequado a essa nova argila, que queimado a temperatura de 800º poderá baixar a absorção de água e caracterizá-la como um produto vitrificado. Nesse caso, também serão introduzidos novos maquinários para o beneficiamento da matéria-prima (moinho, laminador e maromba), que depois de seca, moída e misturada com outros materiais será extrudada, antes da moldagem das peças no torno.

Ainda a respeito da produção, uma inquietação dos artesãos, representada na pergunta “Por que a gente trabalha tanto e não ganha dinheiro?” incentivou a equipe técnica a buscar, rapidamente, na prática algumas das respostas. Para responder a pergunta do artesão Zé da Charneca, a equipe do Imaginário utilizou conceitos de engenharia de produção. Pequenas mudanças foram implantadas nas tradicionais olarias do espaço Mauriti. Entre elas, o descarte de objetos sem utilidade, a limpeza dos espaços internos e externos, a organização das ferramentas, a organização dos estoques, a separação dos espaços de produção e venda, entre outros. Com isso foram diminuídas perdas provocadas pelo deslocamento e transportes de peças assim como alguns custos foram minimizados.

Desenvolvimento e sustentabilidade

Para direcionar a nova produção, foi tomada como modelo a gestão que está sendo utilizada pela cerâmica produzida na Serra Capivara, hoje uma referência de cerâmica artesanal. No caso do Cabo, para se obter as características de tratamento de superfície, em utilitários de mesa, apropriadas ao mercado nacional e internacional, é necessário dispor de forno que tenha uma temperatura constante de queima elevada (800º). A partir destas informações, foi elaborado um projeto de forno alimentado a gás natural para atender aos artesãos, em parceria com o Banco do Nordeste do Brasil, a Companhia Pernambucana de Gás e a Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho.

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Em fase de implantação, a unidade do forno faz parte de um projeto maior, o Centro Artesanal em Cerâmica, que está sendo construído às margens da PE-60, rota de grande fluxo turístico do Estado. O novo empreendimento tem impacto, principalmente, em três áreas: ambiental, infra-estrutura e capacitação. A primeira, com o uso do gás natural em substituição à madeira, contribui para a preservação dos resquícios de mata atlântica existentes na região e a diminuição na poluição atmosférica. A segunda, com a construção do edifício e a instalação adequada de equipamentos, garantirá a melhoria da qualidade do espaço produtivo, além de permitir, com segurança, a transferência de tecnologia, e finalmente, um programa de aperfeiçoamento e formação de artesãos possibilitará a inclusão de jovens no mercado de trabalho.

Essa iniciativa garantirá a sustentabilidade do grupo e ao mesmo tempo contribuirá para a preservação dos saberes locais, tão importante no fortalecimento da identidade cultural do local e na diferenciação do produto no mercado global. Os desafios não param por aqui. Hoje o projeto busca nos conceitos de mercado justo e solidário, formatos de comercialização dos produtos do Cabo, em parceria com instituições públicas e iniciativa privada.

Conclusões

Este projeto, uma construção coletiva, deve ser compreendido como um processo, e por isso, não finalizado. É fundamental que o grupo de artesãos esteja sempre receptivo a novos desafios, sejam de natureza tecnológica, gerencial ou de mercado. É igualmente necessário reconhecer a importância das parcerias e do trabalho em rede, especialmente para a complementação de competências e obtenção dos resultados desejados.

Neste sentido, o reflexo das experiências vivenciadas junto à comunidade tem contribuído para na formação dos designers da Universidade Federal de Pernambuco à medida que permite aos futuros designers dispor de conhecimentos e ferramentas facilitadoras para uma nova possibilidade de atuação profissional no Estado.

As experiências vivenciadas no Cabo de Santo Agostinho confirmam as possibilidades de sustentabilidade advindas das parcerias entre setor público e setor privado, a exemplo da parceria firmada com o SEBRAE PE e, principalmente, da capacidade de resistência dos artesãos pernambucanos em buscar, nesta atividade, meios para reavivar sua cultura e preservar seus valores.

Para isso, o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento é fundamental, pois pode contribuir para o desenvolvimento sustentável, a inclusão social e geração de renda. A expectativa do Imaginário Pernambucano é que a experiência vivenciada no Cabo de Santo Agostinho seja uma referência para futuras intervenções no nosso Estado.

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