Ericson Straub / Mariana Di Addario

Conheça um pouco mais da história da heráldica, e sobre como esta arte da Idade Média continua viva e atual no século XXI

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No ano de 1095, uma multidão se aglomerava em uma das entradas da cidade de Clermont, na França, aguardando um grande anúncio que seria realizado pelo Papa Urbano II. Neste dia, o líder da Igreja Católica conclamou os presentes, assim como todo o mundo civilizado, para lutar contra os “infiéis” no oriente.

Mal ele terminou de proferir suas palavras, os presentes já caíam de joelhos implorando permissão para juntar-se à causa desta guerra. Ricos e pobres se uniam com a mesma garantia: quem morresse em batalha teria a absolvição de seus pecados. Assim começavam as Cruzadas, um período que não seria esquecido pelos cristãos e principalmente pelos muçulmanos.

Este evento, além de ter tido uma grande importância para a história mundial, influenciou fortemente a criação e desenvolvimento das marcas e logotipos atuais. Isso porque, foi também durante o século XII, por conseqüência das Cruzadas, que surgiu a heráldica – a arte dos brasões – que até hoje guarda em sua simbologia conceitos como tradição, nobreza e qualidade.

A maior parte dos historiadores aponta que os brasões surgiram para identificar, rápida e facilmente, os soldados do exército cruzado dentro das batalhas. Em suas formas primárias, eram cruzes formadas por tiras de tecido que eram presas nas roupas dos guerreiros. Mas o número de símbolos e a variedade de formas aumentaram na mesma medida em que cresceu a adesão de nobres às causa da guerra santa.

Em pouco tempo, francos, teutões, ingleses, italianos, eslavos, e outras etnias, comandavam seus exércitos na luta contra os muçulmanos. Alguns destes países, outrora rivais, encontraram nas Cruzadas um interesse em comum e lutavam lado a lado no mesmo campo de batalha. Pelo grande número de exércitos, cada grupo de guerreiros era identificado pelo seu brasão, que estava estampado nas roupas, elmos, bandeiras e na vestimenta de seus cavalos. E assim foi até o fim do século XIII, quando a queda de Ptolomeu marcou o fim e o fracasso da empreitada.

Mesmo após o fim desta guerra, a heráldica continuou sendo amplamente utilizada como um importante símbolo de identificação ligado à aristocracia feudal. Como passou a ser a “marca” das famílias nobres, os brasões figuravam também nas festividades, cerimônias oficiais, torneios e desfiles. Já nesta época, a estética e a simbologia dos brasões havia evoluído, criando imagens complexamente ornamentadas. Por essa razão, houve a necessidade de serem criadas regras e critérios para a utilização de cores, formatos, elementos e estilização.

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Ascensão da burguesia

Com o fim da Idade Média, os brasões deixaram de ser somente elementos de identificação e decoração, passando a ser usados pelas famílias como um verdadeiro “certificado” de origem. O brasão era quase uma extensão do sobrenome, pois agregava elementos figurativos e não-figurativos – como animais místicos, artefatos, plantas e fenômenos imaginários – que possuíam um vínculo com a região de origem, ou até mesmo com um conceito específico.

É também nesta época, com o início do Renascimento, que burguesia entrava em plena ascensão. Embora possuíssem o dinheiro e o conforto dignos de nobres, não gozavam dos privilégios e do status de uma linhagem nobre, facilmente identificada pelo brasão familiar. Em contrapartida, a aristocracia se encontrava em completa decadência, principalmente financeira, mas contavam com as vantagens que os títulos ofereciam.

Como as famílias burguesas não podiam adquirir os mesmos títulos, pois não possuíam o sangue nobre, muitos destes “novos ricos” passaram a comprar os brasões como forma de comprar um passado aristocrático. Por conseqüência, durante o Renascimento, a utilização dos brasões se multiplicou em toda a Europa. A maioria das famílias burguesas dos países em ascensão possuía seu brasão entalhado nas portas, aplicado em roupas e gravado em papéis de correspondência.

A Revolução Industrial trouxe uma nova realidade para a Europa. As indústrias que até então eram familiares e artesanais se tornam grandes negócios comandadas pelo capital e pela burguesia. E nesse contexto, a heráldica foi aplicada em várias marcas destas novas indústrias que surgiam. Representavam as abastadas famílias por trás dos negócios, utilizando os mesmo elementos presentes em seus brasões ou simplesmente criando um brasão específico para a nova empresa.

A complexidade dos elementos medievais

Os brasões eram concedidos pelos reis, por algum feito e por merecimento, e eram outorgados pelos arautos. Eram desenhados (iluminuras dos brasões) em pergaminhos, e hoje são registrados em livros especializados que são os dicionários heráldicos.

O brasão tem como forma principal a base triangular derivada dos escudos medievais com os espaços internos divididos em nove zonas, sendo que cada uma destas divisões serve de referência para descrever a localização, e, por conseqüência, a importância dos símbolos que irão compor o brasão.

Os metais, esmaltes e peles “cobrem” o escudo, e o critério de utilização de cada uma destas colorações dependerá do significado final para o brasão.  Uma das regras principais da heráldica define que metal nunca é combinado com metal, bem como esmalte nunca vai com esmalte, pois deve haver um contraste. As peles, que são padrões, muitas vezes são usadas como esmaltes, e nem sempre figuram nos brasões.

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Também são comuns as linhas ordinárias, ou seja, partições com formas geométricas que tem como principal função diferenciar os brasões. Estas linhas podem ser simples, planas, ou decoradas.

Para completar o significado do brasão, são usadas as mais variadas figuras e ornamentos. Eles se referem às realizações, virtudes, importância social e ocupação, e tem como objetivo personificar o que está sendo representado. Por isso, é muito comum vermos elementos e produtos da região de origem do brasão, como a flora, fauna e edificações.

Alguns símbolos – a coroa, o elmo, a flor-de-lis, cruz, e as armas – são usados pela heráldica desde seu início, pois estão diretamente relacionados à época em que ela surgiu. No entanto, muitos outros elementos passaram a ser incorporados nos brasões. Isso porque, a heráldica quando começou a se desenvolver na Europa era similar pela proximidade cultural entre os países. Quando o contexto histórico começou a mudar e evoluir, o mesmo aconteceu com a heráldica, que passou a absorver características locais. Hoje, são centenas de imagens que podem ser usadas nos brasões, e seus significados variam de acordo com o país.

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A busca por valores esquecidos

No final do século XIX, o movimento art-nouveau rompeu com a estética vigente, anunciando o modernismo. Apesar da evolução, da tendência de uma nova simplificação mais funcional, a heráldica não perdeu seu conjunto de significados como um todo. O design dos logotipos das empresas seguiu pelo mesmo caminho estético apresentado em cada época, mas as referências dos antigos brasões continuam atuais.

Com a globalização e a supervalorização das marcas no final do século XX, muitas empresas passaram a buscar sua identidade, visando um conjunto de valores que, muitas vezes, vai além do logotipo. Uma das alternativas foi resgatar esta arte que utiliza a farta simbologia da Idade Média para criar um significado maior no conjunto.

Entre vários exemplos estão as fabricantes de carro Alfa Romeo, Porsche e Saab-Scania que incorporaram em suas logos os brasões, ou parte deles, de suas respectivas cidades de origem (Milão, Stuttgart e Scania). A Ferrari, com seu famoso cavalo dentro do escudo amarelo-ouro, em sua simplicidade traduz o luxo puro. Animais típicos da heráldica também são comuns em marcas de cigarro, como os leões da L&M e os cavalos da Marlboro. As coroas são referências comuns em marcas européias, já que é o principal ícone da realeza. Na França, a flor-de-lis, que foi estilizada e aplicada como logo da rede de mercados Carrefour, também é símbolo de nobreza e representa a corte francesa.

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Mas não é somente como referência simbólica que a heráldica está presente atualmente. Por possuir o valor de tradição, valorização da origem e simbolismo sintético, os times de futebol de todo mundo possuem seus próprios escudos, montados seguindo – mesmo que nem sempre à risca – as regras dos brasões. As cidades dos quatro cantos do planeta também mantêm a tradição de possuir seu brasão próprio, utilizando elementos regionais da flora e fauna para compor a imagem. Além disso, existem pessoas especializadas em vender brasões. Estudam as regras da heráldica, buscam as origens familiares, pesquisam os símbolos relacionados e confeccionam um brasão digno da Idade Média.

Alguns breves significados:

A coroa evidentemente é o principal símbolo de nobreza. No entanto, em linhas heráldicas portuguesas e espanholas o elmo do cavaleiro também representava este papel.

O leão é o animal mais nobre nos escudos, é símbolo de força, grandeza, coragem, nobreza de condição, domínio e proteção.

A águia representa vitória, rapidez e velocidade.

O castelo significa que o representado teve destaque em tomadas de assalto, e quando o castelo aparece de portas abertas indica sucesso na defesa ou tomada. Nos brasões portugueses e espanhóis o castelo pode representar aliança com a casa real de Castela.

A cruz na heráldica é muito freqüente, sendo que seu significado e características variam de acordo com o país e o contexto em que é aplicada. Muitas famílias nobres européias utilizam a cruz em seus brasões como forma de lembrar sua participação nas cruzadas.

O dragão tem como um de seus significados São Jorge, padroeiro da Inglaterra.

A flor-de-lis também é um dos símbolos mais comuns nos brasões de armas, pois simboliza características ligadas à família, poder e soberania, pureza de corpo e alma, candura e felicidade. Além disso, é o símbolo da corte francesa.

Para saber mais:

Mollerup, Per. Marks of excellence. Phaidon, 1998

Oliveira, Sandra Regina Ramalho e. Simbologia aplicada ao design. UFSC, 2000

www.heraldica.com.br | www.museumedieval.com.br

­Mariana Di Addario
Graduada em Jornalista – PUCPR

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