a vida da mais importante revista de design do Brasil

Ericson Straub

Algumas das capas da revistas ao longo dos anos

Algumas das capas da revistas ao longo dos anos

Você é capaz de adivinhar porque a mais inteligente e sofisticada revista brasileira de design nasceu em Curitiba e conseguiu sobreviver a todas as tempestades do mercado? Como diria o especialista em marketing, Eloi Zanetti, isto só aconteceu porque “alguém quis”. Neste caso, “o alguém” atende pelo nome de Oswaldo Miranda, mais conhecido como Miran, o homem que fez nascer uma das mais geniais publicações brasileiras de todos os tempos.

Se editar uma revista nos dias de hoje, mesmo com tantos recursos tecnológicos, já é um grande feito, imagine fazer isso cerca de 20 anos atrás, quando não existiam meios digitais e, mais do que isso, quando o custo para produzir qualquer material gráfico era inúmeras vezes mais alto do que hoje em dia. Esta – exatamente esta – é a história da revista Gráfica. Tal qual um gato, a Gráfica revelou-se com muitas vidas, capaz de muitos saltos, sem nunca perder a elegância. Tal qual a chuva, que vira vapor, se acumula em nuvens para depois precipitar-se novamente levando vida, renovando paisagens, alterando cores e formas, a Gráfica viveu muitos ciclos para voltar sempre melhor, porque, na essência, permanece a mesma.

Mas o mérito da revista Gráfica não se resume apenas à capacidade de transpor dificuldades financeiras e aos métodos de produção. Acima de tudo, ela inaugurou uma nova fase para o design no Brasil. Foi a primeira publicação a divulgar o design brasileiro para o mundo e, também, foi pioneira ao fazer o caminho inverso: trazer o melhor do design mundial para o brasileiros, numa época em que as publicações importadas eram raras e as dificuldades para conseguí-las também eras enormes. Em pouco tempo, a revista transformou-se numa ponte aproximando mercados distantes, espelhando tendências, revelando casos de sucesso e exemplos de genialidade pelo mundo afora.

Dissociar a revista gráfica do nome Miran é praticamente impossível. Afinal, ela nasceu de um ousado projeto individual do designer, que via a necessidade de ter no Brasil uma revista de design com padrão internacional. Porém, antes de analisar a primeira edição da revista gráfica, datada de 1983, é preciso retomar alguns antecedentes que foram fundamentais para a idealização e realização da revista. Em meados dos anos 70, Curitiba vivia uma saudosa época de efervescência cultural. Nos bares da época, entre um chope e outro, discutia-se política, arte, cultura, publicidade, poesia, futebol e design.

Das conversas despretensiosas de personalidades como Paulo Leminski, Sérgio Mercer, Solda, Paulo Vítola e Ernani Buchmann, entre outros intelectuais da terrinha, materializou-se um impresso em forma de jornal que continha poesias, opiniões, textos culturais e de humor, tudo alinhavado por um refinado trabalho de design gráfico e ilustração, assinado por Miran. Percebendo a repercussão que o material tinha causado, mesmo sendo apenas fixado em bares e pontos culturais de Curitiba, Miran decidiu procurar uma forma mais abrangente para divulgar as idéias do grupo.

O Raposa

Jornal "O Raposa"

Jornal "O Raposa"

Foi então que Miran propôs ao jornal Diário do Paraná (que atualmente não circula mais) que fosse encartada semanalmente uma página intitulada “O Raposa”. Assim, a produção dos textos, direção de arte e fotolitos seriam responsabilidade de Miran, ficando a impressão e encarte a cargo do jornal. A proposta foi aceita e, em 1976, surgiu um dos embriões fundamentais para o nascimento da Gráfica. Muitos dos mais de 250 prêmios internacionais recebidos por Miran foram obtidos com páginas de “O Raposa”.

A publicação de “O Raposa” em anuários internacionais fez com o nome de Miran fosse reconhecido especialmente nos Estados Unidos, facilitando assim o contato com importantes ilustradores e designers gráficos do cenário internacional, o que, mais tarde, seria de extrema importância para o conteúdo da revista Gráfica. “O Raposa” foi editado pelo Diário do Paraná até 1978 que então, por motivos financeiros, interrompeu sua circulação. A partir dali, “O Raposa” passou a ser editado pela Fundação Cultural de Curitiba, prosseguindo com sua trajetória de prêmios nacionais e internacionais.

A Gráfica

Em 1981, em viagem aos Estados Unidos, Miran teve contato com Herb Lubalin, que, naquele mesmo ano, publicou no “Upper, Lower & Case” – jornal destinado à tipografia – uma matéria com o portfólio de Miran. Neste período, Miran também fez importantes contatos com artistas gráficos por parte do “Type Directors Club”, do qual tornara-se membro ainda em 1978. Estes contatos colaboraram para o sucesso da Grafia, uma exposição internacional de trabalhos gráficos – especialmente tipográficos – realizada em Curitiba em 1982.

Os designers norte-americanos e europeus enviaram materiais para a exposição. Porém, em contrapartida, exigiam um catálogo de qualidade, como forma de registro de seus trabalhos. Miran percebeu que as peças enviadas mereciam um melhor registro, inclusive para que todo o Brasil pudesse ter contato com os trabalhos dos designers do exterior. Então, em 1983, o que originalmente seria um catálogo primoroso transformou-se, na verdade, no primeiro número da revista Gráfica.

O começo

O contato de Miran com o designer norte-americano Herb Lubalin influenciou-o a desenvolver sua própria publicação da forma que ele imaginara. Lubalin dizia que quando um designer criava a concepção gráfica de uma revista, ele mesmo deveria empreendê-la. A convicção do norte-americano vinha de uma constatação daquilo que costumava ocorrer no mercado: interessantes projetos gráficos concebidos por designers sofriam constantemente a interferência de clientes, maculando sua proposta original. Por causa disso, o próprio Lubalin editou as revistas “Avant Garde” e “Fact”.

O ponto de partida da revista Gráfica foi a iniciativa individual de Miran que – com muita coragem e espírito empreendedor – bancou os custos de produção. Entre 1983 e 1987 foram publicados 17 números da Gráfica. E, exatamente por causa dos altos custos, não havia uma periodicidade definida. Apesar disso, a revista tornou-se conhecida e respeitada internacionalmente por causa da seleção e edição de importantes trabalhos de designers, diretores de arte, ilustradores, cartunistas, fotógrafos e outros profissionais conhecidos e desconhecidos na época, ligados ao universo das artes gráficas do Brasil e do exterior.

A nova fase

Em 1987, algumas reportagens publicadas a respeito da revista, enfocando sua excelente qualidade bem como suas dificuldades financeiras, despertaram o interesse de empreendedores interessados em alavancar negócios editorias no Brasil. Naquele mesmo ano, Miran associou-se a Carlos Ferreira e Orestes Woestehoff, que tornaram-se responsáveis pelas áreas comercial e administrativa da editora. Além disso, houve ainda um quarto parceiro que tornou-se fundamental nesta fase. Este investidor garantiu o necessário fôlego financeiro para suprir os compromissos da revista, resolvendo finalmente os problemas de periodicidade que, por sua vez, impossibilitavam os difíceis contratos de publicidade.

O processo de seleção e escolha dos trabalhos para publicação continuavam com o mesmo rigor. Porém, mais páginas foram destinadas a cada artista participante, tornando mais consistente a visualização dos portfólios. Além disso, a nova parceria possibilitou que a revista fosse produzida na Gráfica Burti, melhorando sensivelmente a qualidade de impressão e acabamento. Naquele período, o prestígio da revista aumentou mais ainda no meio dos designers, erguendo a Gráfica à condição de mais importante publicação nacional sobre o tema.

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Capa da edição número 22, já da nova fase, feita por Melanie Parks

O grande prestígio, que alcançava dimensões internacionais, fez com que novos talentos do design mundial passassem a enviar seus trabalhos para publicação. Sem dúvida, uma das mais importantes contribuições da Gráfica para o mundo do design foi estabelecer um intercâmbio de informações e valores estéticos entre o mercado brasileiro e o mercado internacional, sempre mesclando harmoniosamente os novos talentos com os talentos já reconhecidos.

Os europeus tiveram o privilégio de poder adquirir a Gráfica no ano de 1990, quando ela passou a ser distribuída pela destacada editora suíça Rotovision. A revista foi impressa na Gráfica Burti até 1992. A partir daquela data, até 1994, passou a ser impressa na Gráfica Palloti, em Porto Alegre. Naquele ano, com a saída de um importante patrocinador, a publicação voltou a enfrentar dificuldades financeiras, prejudicando fortemente o cumprimento da periodicidade estabelecida.

Com a saída dos sócios, a partir de 1995, Miran voltou a editá-la sozinho. Publicou então os números 43/44, 45, 46, 47/48, 50 e 51, todos com tiragens reduzidas. A única exceção daquele período – no que se refere à alta tiragem – ficou por conta da edição de número 49, editada em 1999, que trouxe como destaque o trabalho do designer gráfico David Carson. E, apesar de apresentar-se com uma “cara” mais próxima da estética atual do design gráfico mundial, a Gráfica conseguiu manter-se fiel à sua linha editorial original.

Os grandes profissionais nas páginas da Gráfica

Passados 18 anos da publicação do primeiro número da Gráfica, muita coisa mudou no universo do design gráfico. Revolucionárias tecnologias digitais alteraram completamente os processos de criação e utilização de imagens. Apesar das enormes e constantes inovações, a Gráfica nunca se deixou levar por modismos, mantendo a fidelidade e a coerência de sua proposta, vinculada exclusivamente ao altíssimo padrão de qualidade que permeia a publicação da primeira à última página. Exatamente por isso, foi – e ainda é – uma das poucas publicações voltadas para o design a valorizar trabalhos de ilustradores.

A preservação do projeto e dos ideais da Gráfica ficam ainda mais evidentes quando se tem a chance de folhear as primeiras edições e compará-las às mais recentes. O passado, o presente e as tendências de futuro do design são acompanhados de perto, revelando uma capacidade rara de evoluir sem perder a identidade, inovar sem abrir mão dos princípios fundamentais. Tudo isso, envolto num trabalho que transborda talento e elegância, foi fundamental para conseguir atrair e reunir designers, ilustradores, diretores de arte e fotógrafos de diversos países.

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Expoentes do Canadá, Espanha, Portugal, Suíça, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Inglaterra, França, Polônia, Itália, Uruguai, Austrália e Argentina esbanjaram charme e sofisticação nas páginas da Gráfica. As importantes conexões internacionais de Miran e seu incomparável faro para identificar talentos pelo mundo afora foram decisivos para a concepção e o lançamento de edições duplas especiais como “Gráfica Design/Argentina”, “Gráfica Women/Design vols.1 e 2”, “Gráfica ilustração em P&B”, “Gráfica Saul Bass”, “Gráfica Design Portugal”, “Gráfica Charles Rennie Mackintosh” e “Gráfica Masterpieces of Architetural Drawing”.

O papel fundamental desempenhado pela revista curitibana no cenário nacional e mundial do design também fica claro em função do espaço conquistado por ela em importantes publicações internacionais como “World Graphic Design Now/ Editorial, Vol.5”, editado no Japão, “Magazines Inside & Out” de Steven Heller e Tereza Fernandes ( PBC Publisher/USA) e “Typographic Communication Today” de Edward M. Gottschall (MIT Press/USA ).

No Brasil, a importância da Gráfica está registrada na recente publicação da Editora Abril, “A Revista no Brasil”, no qual é reconhecida como uma das mais marcantes publicações no mercado editorial brasileiro, apesar de seu caráter independente. No livro “Gráfica – Arte e Indústria no Brasil”, que documentou os 180 anos de história deste setor da indústria (um projeto editorial de Margarida Cintra Godinho e Sylvia Monteiro para a Bandeirantes S/A Gráfica e Editora), a Revista Gráfica é registrada como uma publicação revolucionária e criativa em seu segmento.

Perseverar é preciso

O terceiro milênio trouxe boas constatações para as artes gráficas no Brasil. Hoje já se pode afirmar, sem medo, que o design brasileiro atingiu sua maturidade profissional. É claro – todos sabemos e o mercado reconhece – que ainda há muita coisa a melhorar. E, mesmo num contexto negativo de desigualdades sociais e econômicas, que tanto perturbam e atrasam todos os segmentos culturais e profissionais do País, o design conseguiu alcançar seu espaço porque contou com a dedicação e o talento de inúmeros profissionais e de associações de classe.

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Ilustração de Michael Schwab, publicado na edição n°31 da Gráfica

A síntese deste verdadeiro movimento de resistência é representada pelo trabalho de Miran que – apesar das dores e pesares infligidos pelo mercado editorial, associadas à sempre trepidante e movediça condição da economia brasileira – conseguiu manter sua revista viva e pujante de idéias. Dentro deste panorama, a Gráfica foi e continua sendo o principal meio de divulgação do design nacional. E, por saber disso, Miran conseguiu fazê-la sobreviver aliando um talento primoroso a um espírito de luta raramente visto no mercado editorial brasileiro.

A partir da edição 52, a Gráfica passa a contar com o patrocínio da Editora Escala, que investiu em estrutura física e equipamentos de última geração, possibilitando não apenas qualidade, mas também agilidade e periodicidade garantidas. Outra boa notícia, para aqueles que sempre acompanharam a revista Gráfica, é que, em breve, algumas edições anteriormente publicadas com tiragens reduzidas serão relançadas pela editora Opera Graphica e Comix Bookshop, de Carlos Mann, parceiro da Gráfica nesta nova empreitada. Inicialmente estão programados os relançamentos da Série Marcas Fortes 1 e 2, e as edições 43/44, 45, 46, 47,48 e 50 em forma de revista objeto para uso, como agenda/notebook. Nas próximas edições da Gráfica, as datas de relançamento destes produtos serão divulgadas previamente.

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