Como viajar sem traçar uma rota de fuga do cotidiano, dos problemas, dos hábitos, dos compromissos etc.? Como viajar sem expectativas contra o inesperado? Como experimentar sem interpretar? Mas se interpretar é produzir sentido, criar vida, pôr a experiência em movimento, talvez nunca se trate apenas de uma viagem. Trata-se de fuga mesmo, o que nem sempre significa renúncia ou desistência – nem mesmo, necessariamente, sair do lugar onde se está. Podemos fugir para (re)encontrar o lugar onde já estamos, o que também implica fugir para nos surpreendermos com a espantosa familiaridade de um mundo desconhecido.

O problema é assumir desde sempre que o “meu mundo” é diferente de qualquer outro. Por que não inventar um território provisoriamente comum? Por que não reinventarmos nossa própria origem? Ou melhor: como posso expandir os limites de minha compreensão sobre o “diferente” a partir dessa minha própria limitação compreensiva, isto é, a partir dessa minha própria origem? É o que parece questionar o cineasta Akira Kurosawa – para quem “todo diretor repete sempre a mesma história” – em seu filme Dersu Uzala (1975).

O enredo parte das antigas expedições do Império Russo, chefiadas por Vladimir Arseniev, que buscavam reconhecer e mapear os confins da Sibéria em meados do século XX. Numa dessas expedições, Arseniev conhece Dersu Uzala, um caçador nômade da tribo dos Hezhen. Uma peculiaridade de Dersu é que ele conversava com qualquer coisa – fogo, vento, pássaros, chuva etc. – como se falasse com outro homem.

Após Dersu ter chamado um javali de “homem velho”, Arseniev interrogou-lhe sobre tal designação. A resposta foi algo como “não sabemos o que é aquilo, só sabemos que nós somos homens; então aquilo é um homem também”. Por mais enigmático que possa parecer, o olhar de Darsu é aquele que enxerga um mundo sem segredos. Nada desse mundo parece surpreendê-lo; ali todos são iguais porque estão num mesmo lugar.

Não é que Dersu maravilha-se por uma “natureza” que lhe teria proporcionado um tipo de sabedoria ancestral sobre o mundo. Pelo contrário, não existe natureza, inteligência ou distinções quaisquer, há somente um lugar alheio a tudo aquilo que nele vive. Não se trata de uma “posição”, mas de ligações ao acaso. Não se busca encontrar nada ali e somente por isso os encontros acontecem. Qual é a origem desse modo de viver? Isso nunca teve importância, pelo menos antes de Dersu envelhecer e migrar para o centro urbano, quando, pela primeira vez, ele se questiona sobre sua própria origem, sem nunca conseguir situá-la.

O fato é que nunca houve “uma” origem. Quando saímos de onde estamos é que nos damos conta de que o lugar inicial já foi embora sem deixar rastros; e somente então nos preocupamos com essa origem. Quer dizer então que não faz sentido viajarmos a procura de nossa própria origem? Claro que faz, desde que a moldura-matriz básica (origem) que fornece as coordenadas de todo nosso universo de sentido permaneça na reinvenção incessantemente – pela fuga – dessa mesma moldura-matriz.

Disso decorre um duplo aspecto de memória e profecia: nossa origem está e deve ser ultrapassada. Afinal, se o nosso mundo é o que fazemos dele, e não o que ele faz de nós ou que ele nos faz fazer, é justamente pelo fato de nossa origem nele não tender a um ponto fixo (mas continuar sempre instantânea e fugaz, correspondendo a uma fuga única e sem reprise), mantendo assim sua qualidade “original”.

Quando eu decidi me aventurar no curso de design, por exemplo, eu ficava encantado com a sensação de que eu não sabia exatamente para onde eu estava indo e, ainda assim, as coisas aconteciam de maneira quase autônoma. Ocorre que essa era uma situação errante ainda não muito criativa – eu tentava obedecer a uma suposta lógica “original” das minhas ideias. Mas quando comecei a estudar o design das ideias (pela filosofia), a forma como eu chegava a uma ideia passou a ser mais interessante do que a ideia em si.

Ideias são como lugares: somente as reconhecemos quando as interpretamos e as recriamos. Compreender uma ideia é como viajar a um lugar desconhecido, se despojarmos o aspecto “estrangeiro” de nosso olhar, reinventando não apenas o lugar em si, mas nossa relação com ele, podemos expandir o limite de nosso alcance periférico. É quando nosso “lugar de origem” passa a corresponder tão somente a uma compreensão provisória das relações enredadas em determinado lugar/momento; assim como vivia Dersu Uzala. É quando atuamos como personagens de Charlie Kaufman em seu Synecdoche, New York (1998): como atores e autores de um protagonista tentando viver aquilo que já estamos vivendo.

Em outras palavras, lidar com o desconhecido como algo pronto e acabado, como algo que deva ser “desvendado” e situado ao invés de algo com o qual se estabelece uma relação, significa não olhar para o que se está vendo. Não há viagem, não há fuga, não há espaço para novas origens. Muito diferente é construir uma origem provisória a partir dos fragmentos, na errância criativa perante o acaso que não se deixa encaixar em um todo, uma vez que viajar nunca é uma experiência situável – viajar é apenas uma constante tentativa de situar-se.

Arte por: Pati Bianco

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