Que o Pentagram é um escritório especial, todos nós sabemos. E por isso estamos todos animados com a visita deles aqui para o Brasil, não estamos?

Mas o que faz dele especial?

Acreditamos ser muitas coisas, desde o seu modelo de negócio até os designers envolvidos com o escritório (Paula Scher, DJ Stout, Lorenzo Apicella, Abbot Miller, etc…). Mas com certeza, o que faz o Pentagram é a qualidade de seus trabalhos. E com isso, muitos dos designers brasileiros (inclusive nós, aqui da abcDesign) se perguntam, como será a liberdade criativa de um escritório de um tão alto nível? Provavelmente os clientes deles são esplêndidos, aceitam tudo o que eles propõem, não fazem alteração, etc… ou seja, eles não devem enfrentar os mesmo problemas que nós enfrentamos no dia a dia.

Mas isso está muito longe de ser verdade. E o designer Micheal Bierut, um dos 16 sócios, autor de artigos em design, esclareceu isso numa apresentação para o CreativeMornings, organizado pela Tina “Swiss-miss” Roth em New York.

bierutm_normal_peq

"O trabalho do cliente não é entender de design"

 

O vídeo está disponível aqui para qualquer um ver, mas resolvemos fazer um apanhado geral dos comentários de Bierut, porque muito do que ele falou já saiu da boca de todos os designers com quem nos encontramos, e ficou evidente que os problemas que se enfrenta com os clientes são mais comuns do que se imagina.

Aliás, essa á primeira coisa que Bierut aponta. Lidar com clientes não é algo que se aprende na faculdade, por exemplo. Só quando você começa sua vida profissional que eles aparecem, e daí a aprendizagem é dura e é na marra.

Mas também são os clientes que tornam o design um profissão que não é arte. A não ser que você tenha dinheiro suficiente para criar todos os seus projetos, é o cliente que está financiando sua ideia e você está resolvendo o problema dele. “Existe um mito entre designers que seria melhor não ter cliente, que você deve ser seu próprio cliente. Mas eu ficaria louco, porque eu preciso deles para me provocarem a fazer um trabalho”.

Claro, que Bierut acabou fazendo questão de ressaltar que mesmo trabalhando com o Pentagram, lá eles também sofrem com clientes péssimos, mesmo tendo alguns ótimos. E o que para ele é um péssimo cliente?

Não é nem o cara que ama design, então entende e aceita as sugestões (e quando dá pitaco, dá pitaco bom), nem é o cara que não dá a mínima pra design, então, dá muita liberdade. “Os piores clientes são os que ficam no meio disso. Os que gostam de design, mas não entendem muito, os que se interessam em aprender, mas tem medo de arriscar, os que leem sobre design, conhecem os desastres e vão fazer de tudo para que não tenham problemas enquanto tudo estiver na alçada deles”.

E não ache que Micheal Bierut é do time do “educar clientes”. Embora a afirmação tenha parecido meio surpreendente, o argumento foi bom. “Eu nunca conheci um cliente que precisasse ser educado ou que eu pudesse educar, sempre que tive uma relação ruim com meus clientes achei que era eu o problema, eu é que não estava educado suficiente sobre quem é aquele cliente. O trabalho dele não é entender de design, é fazer o negócio andar, ir atrás dos seus objetivos, o meu trabalho que é se preocupar com a parte de design. Eu vou a reuniões nunca vou falar de tipografias, áreas de respiro, composição, cores (odeio falar de cores). Isso é para quem trabalha com isso, porque 99% da reunião é falar sobre negócio do cliente e 1% sobre as ferramentas que nós temos para que eles possam atingir seu objetivo “.

Interessante esse ponto de vista, não? Para Bierut, bons designers tendem a ficar muito interessados naquilo que os seus clientes são interessados. “Demorou anos para eu perceber que meu trabalho ficava melhor quando eu tinha essa postura. Eu realmente ficava animado para ir à reunião, eu lia os textos que me eram passados, me informava, pesquisava a ponto de quase ficar um expert no assunto”.

O que seria, então, um bom cliente para Bierut? Ele tem as seguintes características:

Cérebro,são pessoas mais espertas do que você, alguém com que se pode aprender alguma coisa nova. Paixão, alguém que trabalha com amor pelo que faz. Confiança, “a qualidade que mais se destaca, porque você está apresentando alguma coisa cujo valor não fácil quantificar”. E coragem, pessoas que não tem medo tirar dúvidas na hora, que queiram saber o porquê das coisas, que não têm medo de resolver o problema. “Mas lembre-se”, diz ele, “o que é um bom cliente para mim, pode não ser para você”.

Por outro lado, ele apontou também características do designer que ele acredita ser importante para os bons clientes. Lealdade, honestidade, dedicação e tenacidade. Bierut afirma que não tem medo de sugerir projetos mais baratos, caso ele ache que esse seja o caso para aquele cliente, bem como também sugere outros designers, caso ele ache que não tem o perfil para fazer aquele trabalho. “Isso é confiança”

O designer também conta que quando começou a trabalhar com ninguém mais nem menod que Massimo Vigneli, ele aprendeu com o mestre que se você faz bons trabalhos para bons clientes você vai atrais mais bons trabalhos para mais bons clientes. E o inverso também é verdade. “E não é tão óbvio, porque quem de nós aqui nunca fez um trabalho só pelo dinheiro? Mas no fim o dinheiro acaba nunca sendo suficiente pelo trabalho. Eu não acreditei no Massimo na época, mas hoje vejo que ele tem toda razão”.

O truque, diz ele, é tentar fazer só coisas boas para boas pessoas. Mas sabemos que isso não é assim tão simples. E ele também. “O problema é que temos sempre essa quantidade de clientes, alguns muito bons, outros nem tanto, e os clientes ruins tomam mais tempo do que eles devem, porque são eles que dizem não têm certeza, que pedem 12 outras opções diferentes, que mudam de ideia”. Ao mesmo tempo, ele aponta, é fácil não dar valor aos bons clientes.

E como não existe fórmula mágica para se relacionar com clientes, muito menos transformar maus clientes em bons clientes, “eu nunca consegui, mas você pode tentar usar o que ele tem de bom como vantagem”, para Bierut o “truque” é tentar ficar menos tempo com os clientes ruins e mais com os bons. “Quando você achar um bom cliente, não os deixe escapar”.

Edit: vale a pena mencionar também que Bierut acredita em não ficar com um cliente caso para ele a relação não vai render coisas boas. “Pago se for o caso para acabar com o relacionamento”. Também pode ser uma questão de escolhas, não?

E vocês, como é sua relação com os clientes? Você tem bons e maus clientes? Como você lidam com isso?


Quer conhecer mais de perto como funciona o estilo Pentagram de ser e pensar?

Venha para o abcDesign Conference com Paula Scher, Lorenzo Apicella e DJ Stout

Dia 14 de abril, na FAAP (São Paulo).

Compartilhe:
  • 3
    Shares